Crônicas de um país sem sobrenome

O show da vida, o show da morte

Eu poderia aqui, caro leitor, expor de diversas formas diferentes o mesmo raciocínio que quero desenvolver. Eu poderia fazer piada, fazer troça, e seria altamente criticado – não que eu me preocupe com isso, só que o clima não me permite. Eu poderia fazer as mesmas análises críticas de tantos canais de TV, mas seria chover no molhado: você já as viu. A terrível tragédia de Santa Maria, que enluta o país todo (ou não, como tentarei mostrar mais pra frente), faz pairar no ar um clima de respeito – não exatamente luto – que me faz, nesse caso como em raras vezes acontece, ir direto ao ponto. E o ponto é: você é hipócrita. Todos somos.

No texto anterior desse blog, fiz uma comparação do mais questionável entretenimento da televisão brasileira com eventos que agora ocorrem no centro de SP, e que já cansei de falar por aqui. Concluo hoje que –  você há de concordar – a vida é um Big Brother. A morte é um Big Brother. E a culpa não é exatamente da imprensa tendenciosa, apelativa, essa mesma que você – e eu – já cansou de criticar. Talvez, antes da imprensa ser tendenciosa e apelativa como irresistivelmente adoramos apontar, os veículos de mídia em massa são exímios observadores do público que atende, eu você e nós todos, e é exatamente por isso que os pais e mães de Santa Maria nesse exato momento não podem chorar sem a lente da Sônia Abrão apontada para seus rostos. É por isso que os mortos de Santa Maria não conseguem dormir em paz: porque é exatamente isso que nós queremos.

Sete anos atrás, este que vos escreve teve a oportunidade de conhecer um dos lugares mais intrigantes do Brasil: o Vale do Ribeira. Junto com colegas (que posteriormente tornaram-se grandes e ainda cultuados amigos), visitei uma pequena cidade do sul de São Paulo, atuando pelo Projeto Rondon, atividade do Ministério da Defesa que procura mandar universitários para os pontos mais isolados e menos desenvolvidos do Brasil. Tem aqui no BdQ um relato meu sobre essa inesquecível experiência, é só clicar aqui. Não que isso seja absolutamente coerente com a proposta desse texto, caro leitor, mas lembrei-me agora de uma das passagens mais marcantes dessa aventura: no centro da cidade, em frente à pracinha do coreto, um prédio com toda a cara de repartição pública, sabe-se lá Deus por que, emplacado “Terminal Turístico”. Lá dentro, seis computadores ligados no Programa AcessaSP, com a nobre finalidade de fornecer acesso à internet gratuita para todos. Era 2006, auge do finado orkut, o único site que, pra minha estranheza, não era aberto ou fechado quando da troca de usuário: apenas o logoff/login, em todas os seis monitores de tubo de telas constantemente rosas e azul bebê. Até lá, no fim do mundo…

O cotidiano é um show, caro leitor. E faz tempo. E isso independe da cor, raça, credo, condição social, vida ou morte. Por algum motivo que há muito – infrutiferamente – procuro entender, o povo brasileiro é o maior dos campeões dessa estranha espetacularização dos detalhes. O brasileiro é naturalmente um voyeur. A maior praga mundial das redes sociais. O único país em que o formato do reality show mais amado/odiado do planeta chegou em 2013 a incrível décima terceira edição, mesmo com todos os sazonais rumores de que a edição em voga “finalmente” será a derradeira – nunca é. O brasileiro acompanha cada detalhe da vida dos outros, na telona ou na telinha. E na telinha, ainda mais estranho, o brasileiro escancara a sua própria vida para o bel-prazer de voyeurs alheios, as vezes desconhecidos.

O brasileiro é naturalmente stalker. Na vida e na morte. E gosta disso. Discute isso, sempre com a profundidade de um pires, nas mesmas redes sociais em que uma, duas, três horas depois de publicar foto de seu novo batom, ou avisar a todos pra onde está indo ou o que está fazendo, critica “a graça do BBB” e a stalkerização de Santa Maria. Critica até mesmo as lágrimas da presidenta, a “hipócrita oportunista” do momento. Na busca por popularidade sem limites, cria as associações mais escabrosas e sem sentido algum entre tragédia e política, entre tragédia e as pequenas corrupções cotidianas, entre tragédia e luto – entre tragédia e hipocrisia. Não importa o argumento: se ele puder ao fim da sua pseudo-reflexão (em forma de texto ou charge ou figura) dizer que “esse é o país da Copa” – quase um meme já, a propósito – será curtido e compartilhado, gerará seus próprios “like and share”.

Entre luto e revolta, o mecanismo é o mesmo por sinal: até seu luto é público (existe luto público? Se é público, é luto?), e está ali para ser curtido, comentado, compartilhado. Tudo para que o interlocutor lembre-se daquele pequeno e singular “gerador de informação pessoal por detrás de um avatar” por um micro-instante ao longo do dia, e possa continuar colado em você como um estranho voyeur digital. Dez minutos depois: foto de biquinho, ou uma crítica ao BBB, ou uma lição de moral – “onde já se viu brincar com desgraça dos outros” – como se nada do que fizéssemos com nosso poder de produção de conteúdo na internet não fosse estúpida e ridiculamente frágil de questionamentos.

Quem precisa de uma imprensa tendenciosa e apelativa, quando nós mesmos somos tendenciosos, apelativos, e sutil-freneticamente ainda um tanto esquizofrênicos? A morte também virou um reality show, mas nem de longe somos isentos de culpa. A imprensa conhece seu público – e sabe que, no âmago da solidão da poltrona, cada telespectador está com os olhinhos absolutamente vidrados em cada cena que ele mesmo critica – pode confessar. Na bizarra cobertura da tragédia de Santa Maria, estaríamos cada um de nós fazendo um trabalho melhor do que essa imprensa nojenta que tanto odiamos? Acho que não. Os mortos de Santa Maria só descansarão quando um novo assunto aparecer – e não, não é culpa apenas da Sônia Abrão. Tudo o que hoje é motivo de “revolta e indignação” continuará exatamente igual. Pra você, crítico em luto, tudo estará bem: likes and shares em dia. Coisas do “País da Copa”.

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Comentários em: "O show da vida, o show da morte" (1)

  1. andrecelarino disse:

    Sei lá, aqui nos EUA os americanos são ainda mais idiotas e sensacionalistas que no Brasil e ainda assim a coisa funciona mais ou menos melhor que no Brasil, o problema é que somos idiotas o tempo todo… Aqui eles são muito mais viciados em futebol americano do que o brasileiro em futebol, ou seja, a culpa da nossa idiotisse não ta na idolatria ao futebol, mas sim na nossa idiotisse do dia a dia com outros assuntos.

    Mas sim, estamos no big brother.

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