Crônicas de um país sem sobrenome

Educação, minha gente. Não foram poucas as vezes em que, aqui no BdQ ou em discussões pessoais, com alunos ou em rodas de bar, fui um entusiasta da ideia de que o estarte para qualquer (repito: QUAL-QUER) mudança social no Brasil é a melhora da educação no país. Quantas vezes soei repetitivo, quantas vezes desviei o assunto e me vi batendo sempre, sempre, SEM-PRE nessa mesma tecla. Perdi muitas discussões por vê-las cortadas ao meio, por gente que não entendeu meu ponto de vista. Também, ganhei muitos adeptos dessa teoria, gente que nunca havia parado pra pensar a respeito, e que me fez voltar pra casa com um sentimento de vitória – não por “ter ganhado” uma discussão, mas por estimular o senso crítico do meu interlocutor. De certa forma, talvez seja isso mesmo que eu e os outros loucos nos propusemos ao fundar este modesto blog – e por sinal, sinto-me seguro o suficiente para falar por todos: ficamos orgulhosíssimos todas as (poucas) vezes que tocamos o pensamento de alguém com essas mal escritas reflexões.

Pra mim, a ideia é bastante clara: é estimulando o pensar das coisas que criamos cidadãos mais conscientes, tanto na hora de perceber a sua realidade – o que é tarefa cotidiana, é fato – como na hora de usar o maior poder que o cidadão brasileiro tem de mostrar sua indignação e desejo de mudança para com as mazelas atuais, sejam elas quais forem: o voto, mesmo a eleição sendo todo esse circo que estamos acostumados, mesmo a eleição sendo esse festival de decepções de dois em dois anos. É importante, sim. E seria ainda mais importante se houvessem, diante das urnas, cidadãos de senso crítico formado, com opiniões bem fundadas – não no sentido acadêmico da coisa, mas do cotidiano mesmo. Todo mundo tem, em si, o potencial pra ser um grande pensador da sua própria realidade, um grande teórico do cotidiano, um potencial intelectual. E tudo isso passa, claro, pela educação.

Caro leitor: é na escola, pela figura sagrada e amplamente desvalorizada do professor, que se encontra o estopim para qualquer evolução – com ou sem aquele “R que muda tudo” antes da palavra. É na escola que se garante aquilo que a Constituição Brasileira de 1988 diz:

“A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.” (Constituição Federal, artigo 205)

E se você ainda tem alguma dúvida de que aqui estamos falando, sim, de formação do tal senso crítico que eu tanto martelo nessas linhas, saca só o que a Lei 9.394, ou Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 20 de dezembro de 1996, diz a respeito:

Art. 1º A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.

(…)

Art. 2º A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Art. 3º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:

I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;

II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber;

III – pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas;

Lindo né? Só que daí, nas andanças pelos jornais internet afora, a gente se depara com a tetéia abaixo, leia só:

Fonte: Revista Fórum. Link para a matéria: clique aqui

Fonte: Revista Fórum. Link para a matéria: clique aqui

Como educador que (também) sou, não poderia de forma alguma deixar de comentar tal atitude. Leu com carinho a notícia? Então vamos aos questionamentos:

  1. É fato, a gente sabe que português e matemática são grandes deficiências dos ingressantes do ensino fundamental. Mas será mesmo que apenas aumentando a quantidade de aulas dessas disciplinas a coisa realmente muda? Ou o problema está na qualidade das aulas, e em especial na capacitação, remuneração e incentivo ao professor? Quanto tempo faz que a tal Secretaria Estadual de Educação (queridíssima, só que não) não comenta algo a respeito?
  2. Ok, ao que tudo indica, essas matérias perdidas voltam na quarta série. Com que base um aluno de quarta série, que nos três primeiros anos viu somente português e matemática, vai se interessar pelo conhecimento de outras coisas que nunca viu e que não está acostumado na escola até então?
  3. “Tornar o currículo escolar mais atraente”. Leia de novo isso: mais atraente! De onde tiraram que as ciências humanas, físicas e biológicas não são atraentes? Ou, são menos atraentes que somar-subtrair-multiplicar-dividir? Qualquer (repito, de novo: QUAL-QUER) professor sabe, ou deveria saber, que fazer a aula “atraente” depende muito mais da didática do que do conteúdo em si. É possível fazer química orgânica atraente com uma aula bem dada! É possível fazer física quântica astronáutica atraente com uma aula divertida! Não é exatamente pra isso que serve a pedagogia e as diversas disciplinas sobre isso que existem no currículo acadêmico de qualquer futuro professor?
  4. Nossos amiguinhos da Secretaria Estadual de Educação (amo vocês, gente!) já ouviram falar de interdisciplinaridade? O currículo novo quer que o aluno saiba contar, ler e escrever. Até a quarta série, é apenas isso. Penso eu: sem as demais disciplinas obrigatórias, de ciências e humanidades, nossos aluninhos queridos vão contar o que? Escrever sobre o que? Talvez, seja contar quantas sílabas tem em “paralelepípedo”. Ou escrever redações e mais redações sobre as diferentes formas de “tirar a prova dos nove”… só se for, né gente?
  5. Que tipo de aluno a Secretaria Estadual de Educação pretende formar ampliando os conhecimentos de português e matemática e retirando conteúdos de “ciências físicas, biológicas, história e geografia”? Que o cara precisa disso pro mercado de trabalho a gente sabe, mas e pra aquele “exercício da cidadania”, ou pra aquele “aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber”?
Tá fácil não...

Tá fácil não…

Aproveite agora, caro leitor, que você ainda não chegou a ser formado por esse estupro disfarçado de novo currículo e responda as perguntas que seguem: faça o cabeçalho na folha de almaço, que é pra entregar pro professor na próxima aula, tá?

Vamos lá:

  1. Quais as melhores formas que um governo tem para garantir que seus futuros cidadãos não sejam pessoas com poder de questionamento (e assim, sejam menos observadores das falhas que uma determinada gestão pública tem)?
  2. A quem o tal “novo currículo” é “mais atraente”?
  3. Brasil do que?

Até amanhã, aluninhos! Recolho o dever de casa na entrada!

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Comentários em: "A arte de contar letras, ou: formas do governo de ser “bem sucedido”" (1)

  1. É inacreditável o rumo que o ensino brasileiro está tomando, como alguém vivo e consciente dos seus atos tem um ideia ridícula dessas, e eu pensei que a minha geração já era uma geração surripiada pelo governo.

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