Crônicas de um país sem sobrenome

Sim, ele representa.

O raciocínio de hoje é simples, caro leitor: prometo. E peço de ti também que me faça uma promessa: reflita sobre seus pensamentos, sobre suas opiniões, sobre seu papel na sociedade. Promete? Então vamos lá…

Tenho observado há um tempo as reações absortas, de pessoas e grupos bem/mal definidos da sociedade, sobre a posse do Pastor Marcos Feliciano, um dos deputados mais polêmicos da nossa Brasília, à presidência da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias (CDHM), sem que muito se compreenda sobre o que faz, afinal, um defenestrador nato de comentários racistas e homofóbicos numa entidade governamental que, via de regra, teria como pilar principal justamente o combate de pensamentos racistas, homofóbicos e em geral depreciadores das tais “minorias”, grupo que, ao menos em teoria, abarca negros, homossexuais, índios, quilombolas, praticantes de religiões de origem africana – toda essa gente, brasileiros como qualquer um de nós, grupos historicamente prostrados em posições sociais “inferiores” ao que aqui eu chamo de “O Brasileiro Perfeito”. bem aqui, no “país da diversidade – e de tantos clichês“.

Pastor, deputado, pop-star, rico, metrossexual, sexy-symbol e sabe-se Deus mais o que!

Nosso “O Brasileiro Perfeito”, por sua vez, você conhece: é aquele cara isento de quaisquer dos mais clamados preconceitos/pré-conceitos existentes na nossa sociedade – não negue amigo, eles existem e estão por aí. “O Brasileiro Perfeito” não tem cara, nem nome: tem características, e essas são, sim, bem-definidas: branco, homem, heterossexual, magro, cristão (antes era o católico, agora pode ser apenas o “cristão”), classe média. Acrescente aí uma dose de “comportamentos sociais bem vistos”, se quiser: o cara é casado, trabalha das sete as cinco, cria seus filhos dignamente e os manda pra catequese (está aplaudindo de pé o Papa Argentino – e seu discurso de superioridade masculina), assiste o Jornal Nacional e se sente bem informado por isso. Tem casa própria. Anda de trem e ônibus, sim, mas tem o sonho do “carro-zero”.

"Olha mãe, eu jogo água fora porque somos perfeitos!"

“Olha mãe, eu jogo água fora porque somos perfeitos!”

Você, leitor, você conhece esse cara. Você admira esse cara. E tenta ao máximo ser esse cara – confesse. E sabe quem é o maior representante desse cara? Sim, ele mesmo: Pastor Marcos Feliciano. Democraticamente eleito deputado, pelo maior colégio eleitoral do país – e isso certamente significa alguma coisa… Você se revolta, mas no fundo você o admira. Você quer ser como ele. Eu posso apostar contigo, caro leitor: você não se enquadra em todas as características que fazem o “O Brasileiro Perfeito” – veja bem, pra ser “O Brasileiro Perfeito” você tem que se enquadrar em toda a descrição – e em algum aspecto você seria supostamente defendido pela CDHM…

Mas não. Você foi historicamente condicionado a apertar as mãos na alça da bolsa quando vê um “negão mal encarado”, estou certo? Que importa o fato de sua avó, bisavó ou qualquer ancestral da sua família ter sido escravo? Sua pele é branca, e isso te faz ter medo do “negão”. Você se revolta com o fato de existir o Dia da Consciência Negra – “não existe o Dia da Consciência Branca, cadê?” – e simplesmente não entende todos os fatores históricos e sociais que fizeram/fazem com que ser negro seja ainda motivo de vergonha no Brasil – algo que o branquinho nunca jamais saberá. Amigo, desculpa ser eu a te falar, mas Marcos Feliciano te representa.

(apalpadinha no bolso da carteira...)

(apalpadinha no bolso da carteira…)

Você está acompanhando os fatos, pelo Jornal Nacional, sobre a desapropriação do Museu do Índio no Rio de Janeiro, e seu pensamento flutua entre “fodam-se os índios”, “índio é tudo vagabundo” e “e esses desocupados fazendo manifestação? Vão trabalhar, minha gente”. Você nem sabe (o JN não te falou sobre isso) que toda aquela área era reserva indígena antes de a urbanização do “O Brasileiro Perfeito” ter chegado. Você acha estranho andar de cocar na rua, dançar pedindo chuva e usar saia de palha. Sabe Deus se você teve um ancestral indígena – provavelmente teve – mas que importa? Desculpa cara, mas eu preciso te dizer: Marcos Feliciano te representa.

Pois é.

Pois é.

Você é contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Isso é uma “abominação social”, você diz. Lá no fundo, você tem nojo de gay: jamais vai esquecer o dia em que “um viadinho” te passou uma cantada, e você quase foi ignorante com o sujeito. Adotar crianças, então, nem pensar: “família tem que ter pai e mãe”, certo? E daí que você excluiu todos os milhões de brasileiros órfãos de pai ou mãe nessa sua frase? Ou, melhor ainda: “A Bíblia condena o homossexual, como pode afinal isso ser coisa de Deus?” – e já que você desconhece completamente o conceito de Estado Laico, concorda que a lei seja feita de acordo com a Bíblia. Exatamente o que pensa a bancada evangélica, da qual, orgulhosamente, Marcos Feliciano é parte.

Você chama, pejorativamente, seus amigos de “viado”. Volta e meia se depara, entre seus amigos na mesa do bar, com aquele comentário do tipo “acho que fulano queima a rosca, credo que absurdo” – e pondera todo e qualquer gesto ou comentário que possa fazer com que você seja o alvo dos “olha lá o viadinho” por parte de seus conhecidos… pouco importa, pra você, o fato de que individualmente a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo não alterará em absolutamente nada a sua vida, o seu cotidiano e seus dogmas religiosos seja lá quais eles forem… Mas você se opõe, afinal é “socialmente imoral” – independentemente do fato de você não saber exatamente como um casal gay fere a integridade da sociedade – e você se torna aqui o guardião da verdade e da moral brasileira. Só é valido que as leis sejam feitas e voltadas pensando única e exclusivamente nele/em você, nosso “O Brasileiro Perfeito”… Quer saber? Marcos Feliciano te representa.

"Você antes / você depois de chegar perto de mim e dar um sorrisinho oferecido"...

“Você antes / você depois de chegar perto de mim e dar um sorrisinho oferecido”…

De forma alguma, leitor, defendo a permanência desse crápula na presidência da CDHM. Acho, sim, um passo retrógrado na luta pela igualdade tão discursada nesse “país da diversidade que tudo aceita”, de “povo hospitaleiro alegre e feliz”, e tantos clichês e mais clichês que não passam disso e apenas isso: discursos. Discursos que encobrem uma realidade engessada na sociedade brasileira desde os tempos do descobrimento: “O Brasileiro Perfeito” é o cara, e apenas ele é digno do futuro. Mas de forma alguma, como uma partícula inserida nessa sociedade a qual (felizmente, amo o Brasil) pertenço, posso afirmar com tanto afinco que Marcos Feliciano não me representa. O que nos difere do Pastor Marcos Feliciano “O Brasileiro Perfeito”, em sua luta por seus cada vez maiores e exclusivos direitos, é o fato de este estar em um cargo público, que por definição deve defender todos os brasileiros independente de raça, sexo, sexualidade e religiosidade. Mas como pessoa, será mesmo ele tão diferente de cada um de nós?

Infelizmente, caro amigo, Marcos Feliciano é apenas um subproduto de um processo social, histórico e político que moldou a cara da nossa gente exatamente dessa forma: reconhecendo as diferenças como ameaças, não como uma entidade formada por indivíduos que, assim como eu e você, paga seus impostos e vota, o que o torna um brasileiro tão qualificado como nós mesmos. Atire-me na testa a primeira pedra quem se diz livre de todo e qualquer preconceito/pré-conceito. E de mãos abaixadas e atadas ao corpo (mas com esperanças que nossos filhos e netos possam me apedrejar), questionemos a legitimidade deste abominável senhor na presidência da CDHM: homem errado no cargo errado – e isso é de fato um retrocesso – mas homem certo quando nos é espelho. Sim, saio sem quaisquer machucados. E sim, ele nos representa.

Infelizmente.

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