Crônicas de um país sem sobrenome

O paradoxo da caxirola

Uma semana se passou: ninguém disse ou escreveu uma linha sequer sobre os 513 anos do Descobrimento do Brasil. Nem o Fantástico, reduto-mor da TV brasileira para assuntos de não tão grande destaque, que era minha última esperança de ver ao menos alguma menção a este que, segundo alguns, poderia bem ser mais um feriado nacional – e por este ano ter caído numa segunda feira, aposto que ninguém reclamaria de um feriado prolongado a mais, certo?

Tenho a impressão que a história brasileira é cercada por assuntos-tabu. Daqueles desagradáveis de se contar. Nas escolas país afora, o MEC aprova um currículo que permite que se conte uma “história dos vencedores”, em que os detalhes sórdidos – dos quais a história do Descobrimento do Brasil é cheia – são encobertos: mostram vergonha, mostram um histórico de ignorâncias com determinadas populações, que hoje convenientemente são ditas como “parte importante da nossa incrível diversidade”… não duvide, caro amigo: os índios que ganharam espelhos não viram apenas um mundo doente: fizeram parte dele. O mundo doente empurrou os dominadores do território pré-colônia à terras absolutamente confinadas, em cantos espremidos e cheios de disputas de interesse. Muitas tribos morreram, muitas línguas morreram. Tipo de coisa que todo mundo já ouviu falar (se de fato ouviu falar) porque o professor “mencionou um certo dia” em sala de aula – se é que houve aula de história na escola. É passado, não importa. Mais.

Talvez, o 22 de abril não tenha sido feriado por simbolizar o nascimento de um país que, na versão oficial dos fatos, nasceu 322 anos depois. O que foi descoberto lá naquele 22 de abril de 1500 não foi um país, foi um território. É essa a visão predominante, quem sabe? E num passe de mágica, resolva-se enaltecer uma história começada lá num certo chilique da independência – e que a barbárie anterior tenha sido esquecida, por fim. Em 1822, o índio já é parte do “povo brasileiro”. Sessenta e seis anos depois, foi a vez do negro ser tortamente inserido na recém-formada ~sociedade tupiniquim~. E pronto: tá aí o país da aceitação à diversidade, onde ainda se espanta com a presença do “índio-povo” reivindicando seu espaço na “casa do povo” – proporcionando as cenas mais lindamente constrangedoras do século, olha aí embaixo – e ainda reluta a elaborar políticas de inclusão das etnias como se isso não fosse absolutamente necessário…

#VergonhaAlheia

Mas não, caro leitor. Hoje estou aqui pra falar da caxirola. Faz uma pausa estratégica, pega um gole de café extra-forte, e faz um buraco no chão pra enfiar a cabeça tal qual um avestruz, que a história a seguir pede, e muitas vezes!

Era uma vez, um tal de Carlinhos Brown…

... que de tão legitimamente "brasileiro orgulho afro-baiano" não se chama "Negro Carlos", optou por Carlinhos BROWN

… que de tão legitimamente brasileiro-orgulho-afro-baiano não se chama “Negro Carlos”: optou por Carlinhos BROWN

… que, num lapso de sabedoria infinita e legitimidade de suas influências na ~cultura brazuca~ – e claro, com um leve apoio de um governinho doido pra fazer média na Copa – resolve criar o que viria a ser o “instrumento-símbolo” da diversidade brasileira. Inspirado no caxixi indígena (chocalho tribal feito de palha seca e sementes diversas), criou a caxirola, para ser usada pela torcida nas partidas de futebol mais ou menos como foram usadas as vuvuzelas na África do Sul, três anos atrás.

Ou seja, Carlinhos Brown transformou isso:

Nisso:

A Dilma deu like. Fez um discurso cheio de palavras-chave, e com pérolas como “liderança na sustentabilidade no mundo” (aspas porque é uma citação, sério). A Dilma chacoalhou a caxirola e encerrou com um lheando “a caxirola vai nos levar a gols”… tá com o riso preso? Assista isso!

#SaudadesVanusa

A FIFA por sua vez, que é quem tem o maior martelo e a quem se quer agradar por tudo o que há de mais sagrado nesse mundo, não gostou muito da caxirola. Eles não ouviram p*¨%#$ nenhuma dos “sons da natureza e do mar” que o Brown disse. Ainda estavam com o zumbido da vuvuzela ecoando nos ouvidos, talvez. E avisaram: vai dar merda. Ninguém ouviu.

Nesse final de semana, Carlinhos Brown resolveu testar a caxirola. Esperava a primeira “ola sonora” – sim, ele disse isso, eu juro – da história. O que o Carlos Marrom não sabia, era que não se mexe com instrumentos tribais com toda uma bagagem cultural e religiosa sem que se conheça ou estude todos os simbolismos e efeitos que cada ritual pode provocar. O caxixi do Gugu veio incorporado por feitiços indígenas milenares e misteriosos, e os efeitos colaterais que ninguém conhecia deram as caras no primeiro teste:

O agitar das caxirolas provocou chuva.

O agitar das caxirolas provocou chuva.

Agora, ao que me consta, parece que a caxirola vai ser de fato proibida – para o pânico da Grow, que já devia ter encomendado pelo menos uns mil fardos em alguma fábrica obscura dos recôncavos da China. É uma pena, já que ao que se é dado em versão oficial, a caxirola viria exatamente pra simbolizar a diversidade cultural que todos nós, na visão dos gringos, amamos a exaustão (oh, estereótipos…). Se não a diversidade cultural da forma como ela é, aceitando as diferenças culturais entre os diferentes povos como patrimônios culturais intocáveis, ao menos essa versão pasteurizada, processada a 180°C, antisséptica e embalada em TetraPak.

Vivemos a era da pasteurização cultural, caro leitor. Chegamos num momento histórico em que, talvez só exemplificado quando do Descobrimento do Brasil, o mundo está com os olhos voltados para as ~terras tupiniquins~. Esses elementos precisam sim ser incorporados: vai vender camiseta, cartões postais, fotos no ~feice~ da gringaiada. Mas pra isso, todo um tratamento, uma photoshopada quase espiritual é necessária, pra ser agradável, digerível, e passar uma sensação de harmonia que, talvez, sequer exista. Pasteurizado. Enquanto se agita um chocalho plástico, o trato dado às minorias indígenas sequer chega no foco, entende? CDHM não importa: IMAGEM importa. E a coisa começa aqui, no nosso círculo, tentando convencer antes o “inimigo interno” sem identidade da incorporação desses elementos fakes da nossa ~uhuuul diversidaadzzZZzzZZzzZZZzzz~: não duvide! Basta ver como isso

… é bonito, é cool, é descolado enquanto isso

… é feio, “coisa de pobre”… “coisa de preto”. O de cima, para todos os efeitos, deve ser considerado “coisa de brown“, talvez?

Porque a cultura original é digna de provocar fugas maravilhosas de engravatados no Congresso Nacional, dá medo, relembra vergonhas. Índio bom é o do Gugu: esse sim, deve ser mostrado como ícone da nossa “aceitação das diferenças”. Engraçado como, paradoxalmente, tanta gente comenta por aí: “Índio na internet? Desde quando índio de verdade usa bermuda?”… até onde me consta – e eu posso estar redondamente enganado – o índio original usava palha e semente no caxixi…

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Comentários em: "O paradoxo da caxirola" (1)

  1. Muito bom, Galeoti! Apresentei um trabalho no IG essa semana que tem muito a ver com esse texto. Se vc tivesse escrito antes, eu até poderia usá-lo! hahaha Continue sempre escrevendo, ok? Nos ajuda a organizar o raciocínio em meio a um turbilhão de coisas que acontecem bem na nossa cara – tão na nossa cara que muitas vezes nem conseguimos enxergar com clareza. Valeu (:

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