Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para maio, 2013

Revelações de uma virada cultural, ou: as (novas) paranoias de mamãe

Pra começar essa reflexão, caro leitor, explicito um diálogo que tive recentemente com minha mãe (sempre muito querida), quando botava a chave na maçaneta da porta de casa, a noite, para me divertir com amigos num determinado final de semana. Segue transcrição, é válido:

– Rafael, não deixe sua mãe muito preocupada, sim? Nossa rua é erma, não volte muito tarde.

– Mas por que a senhora fica tão preocupada quando saio a noite de casa?

– Você sabe como anda a violência por aí, tem muita gente ruim vagando pela rua a noite só esperando no escuro pra fazer maldade com gente de bem…

(e agora, leitor, veio o xeque-mate do meu argumento. Não a convenceu, é verdade, mas ajudou a encerrar o diálogo de forma “amistosa”)

– Mãe, eu concordo com a senhora que a coisa anda feia por aí. Mas eu acho contra-filosófico me trancar em casa por isso. Não me privarei de vida social por medo. Penso que, se o cidadão de bem se trancar em casa, o mal terá vencido, não?

Acho desnecessário lembrar ao leitor que já me conhece de tempos aqui no BdQ, que não necessariamente concordo com o que eu mesmo disse: você sabe que não gosto desse maniqueísmo de “gente boa” e “gente ruim”, não acredito que ele exista. Todos temos, afinal, potencial pra sermos “bons” ou “ruins” no sentido que ela quis dizer: do meu ponto de vista, tudo depende das oportunidades que cada um teve. Precisava, no entanto, argumentar com mamãe para mostrar meu ponto de vista, e pra isso usei de certas crenças que ela – exemplificando muitas pessoas incutidas na nossa sociedade do medo – sempre teve, sem que no entanto tivesse qualquer parcela de culpa nisso.

Veja também:

E tudo isso pra dizer que nesse final de semana, São Paulo viu mais uma edição da tal Virada Cultural. Vinte e quatro horas, ininterruptas, de atrações culturais no coração da maior cidade da América Latina. Transporte público funcionando, policiamento reforçado. Tudo isso para que o paulistano e os visitantes do evento pudessem se esbaldar com muita cultura, a escolha do consumidor.

Nas outras noites do ano, essa rua tem “The Walking Dead”…

Paremos pra pensar agora, caro leitor, no que de fato a Virada Cultural significa. Qual é, afinal, a grande sacada do evento, que atrai milhões de pessoas às ruas vermelhas da cidade naquela noite em específico? Ora, todos sabem que São Paulo é indubitavelmente o maior núcleo de efervescência cultural do Brasil como um todo, portanto, será que é apenas a  promoção da cultura que atrai tanto público para regiões que, em outras ocasiões, devem ser “evitadas” pelo “cidadão de bem”? A Virada cultural promove cultura onde já a tem, ao que me parece: talvez, apenas camuflada por um cotidiano acelerado de dia e trancafiado a noite.

E se “o acelerado do dia” é algo que não se pode optar, sobra à Virada Cultural ter a sacada da noite. Ora, parece-me que é pela noite que o evento encontra seu grande trunfo! A Virada Cultural é uma grata surpresa: o paulistano descobre que a cidade continua existindo depois do habitual “bater dos cadeados reforçados” da casa, e com nuances noturnas absolutamente inusitadas que, em ocasiões normais, jamais são reveladas quando encobertas pela tranca e pela televisão como única janela aberta do mundo – janela esta que, não raro, te aconselha a se entregar por completo ao monopólio do acesso ao mundo quando insiste em mostrar as “coisas feias que acontecem pra lá da cerca elétrica”…

Sábia decisão pra nome do novo quadro, Faustão!

Sábia decisão pra nome do novo quadro, Faustão!

Você ainda pode discordar de mim se quiser, caro leitor. Você ainda pode apontar a gratuidade dos eventos da Virada Cultural como outro atrativo para o paulistano arriscar se destrancar de sua casa. É fato que a Virada Cultural jamais seria o sucesso que é se o visitante tivesse que pagar por cada atração que escolhe: muita gente desistiria (eu, inclusive). Mas preciso perguntar: a Virada Cultural é a única ocasião em que há essa tomada do espaço público de forma gratuita? Se já vimos que a sacada da Virada Cultural é mais a noite que a cultura, nas outras noites é preciso pagar pra andar nas ruas, sentar numa calçada, observar uma pracinha com sua família, ou amigos ou relacionamento? Parece-me que não. Admito, no entanto, que deixo de ter argumentos quando se coloca um ponto-chave da Virada Cultural: o tal do policiamento reforçado

A paz é imposta nas ruas. Mas se é imposta, é paz?

A paz é imposta nas ruas… mas se é imposta, é paz?

Sim, as ruas tornam-se mais “a prova de gente ruim” em noites especiais, e isso é um fato. Mas é um fato que, nessa altura da reflexão, não me permite pensar diferente do que te mostrarei adiante:

Lá em cima, mostrei à minha mãe que não quero que “o mal vença”, e prefiro tomar o meu espaço público noturno (que no parágrafo anterior vimos que não deixa de ser público quando noturno) que me enclausurar em casa apenas absorvendo passivamente as informações despejadas da minha TV. Preciso imaginar, caro leitor: e se todos fizessem a mesma coisa? A “rua erma” de mamãe continuaria erma com cada vizinho prostrado em sua calçada, interagindo com o próximo e vendo as crianças brincarem até tarde? Qual é afinal a grande sacada da Virada Cultural, o que faz com que o clima de medo noturno da cidade seja esvaído de sentido nessa única noite do ano? É a cultura? É o policiamento reforçado? Ou seria o simples excesso de gente, um aglomerado de “cidadãos de bem” que, quando se reconhecem como tal, sentem-se mais seguro na coletividade contra os “gente do mal”?

A rua era assim no passado. Pode voltar a ser no futuro?

A rua era assim no passado. Pode voltar a ser no futuro?

Parece um plano arriscado, caro leitor. E admito, sei que para muitos essa “Virada Cultural de cada um ao coletivo”, ou “Virada Cultural da massa para a massa”, o resultado imediato não seria tão positivo quanto parece (aspas do Datena? “O mal sempre acha um jeito de proliferar”…). Mas o que temos como sociedade a perder ao longo prazo ao reivindicarmos juntos as ruas da noite? Já não estaríamos hoje, nessa histeria coletiva desproporcional à qualquer precedente, perdendo o suficiente de nossa qualidade de vida? Pessoalmente, e espero ansiosamente aí embaixo por seus comentários a respeito, o benefício me parece extremamente mais alto que o custo: esvairia-se o medo excessivo, aproveitaria-se melhor as 24 horas do dia, reduziria-se assim o estresse e a fadiga da correria cotidiana,  interagiria-se com outros seres humanos, fugiria-se da TV…

Dá o play aí embaixo, que a música é boa e tem tudo a ver com isso. Tenho a impressão que você deve ter cantarolado esses versos mentalmento ao longo do texto mesmo, rs…

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Espero seu comentário, amigo leitor! Forte abraço! 😀

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PS: boa parte da minha conclusão neste texto se deu quando tive o privilégio de participar de um debate, organizado por uma “nova porém já grande” amiga, no Cursinho CES, outro projeto que recentemente tenho a honra e o privilégio de me envolver e atuar. O tema do debate era violência, e as diversas facetas que essa palavra carrega. Foi certamente uma ocasião extremamente produtiva, saí de lá muitíssimo satisfeito com os resultados! Clique aqui e conheça esse belo projeto de membros ativos da comunidade de Várzea Paulista, “interior-quase-que-não” de São Paulo.

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