Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para junho, 2013

Carta aberta aos descrentes da revolução

Cajamar/SP, 17 de junho de 2013.

Meu querido, estimado amigo!

Essa mensagem é pra você que, como muitos que eu conheço e conheci, estão nesse momento descrentes do que pode/irá acontecer, dentro de todas essas manifestações pipocando MUNDO afora em prol de um melhor país. Essa mensagem também é pra você, que está bravo aí dentro do seu carro/ônibus parado há horas, sem poder andar pelo trânsito travado causado por esses “vagabundos”. Essa mensagem é pra você, que por seus diversos motivos, acha que não deve se misturar. Acompanhando pela TV aberta, vê uma realidade a qual, acha, está descolado. E quer, acima de tudo, acompanhar a Copa das Confederações.

Meu amigo! Queria estar aí contigo e te dar um abraço! Sabe por que? Porque, embora tanta gente esteja nesse momento condenando-te por sua postura (a)política, eu te entendo. De verdade. Eu sei o que se passa aí em seu coração. E eu sei, porque tenho que te confessar: o meu coração também tentou me dizer a mesma coisa.

Eu nasci, caro amigo, numa cidadezinha do interior, no longínquo ano de 1983 – e sim, fico feliz de, aos 30 anos, muita gente dizer aquele hipócrita “você ainda é jovem”. Nesse exato momento, querido, sinto-me velho. Eu era uma criança de fraldas quando meus pais viram pela TV o Diretas Já – e nunca vi nada sequer parecido em meu país. Papai conta que, quando da morte de Tancredo Neves após a redemocratização do Brasil, acordou minha mãe no sofá da sala para dar a notícia. Eu cresci, amigo, num mundo onde as coisas nunca fervilharam, longe de centros urbanos, aglomerações, manifestações. E ergo a mão aos céus pra dizer: tive uma infância feliz, sem muitas dificuldades, sem apertos financeiros. Hoje eu tenho carro, fruto do meu trabalho, fruto do meu estudo numa das melhores universidades do país. Eu sou um cara que, hoje, poderia dizer com convicção: não me pesaria tanto no bolso um aumento de R$0,20 na passagem.

Ao querer te abraçar, eu represento toda uma geração que nasceu nessa década de 80, jovem demais pra ter ranços da ditadura, velho demais pra ter esperanças de um país melhor. Minha infância, adolescência e primeira fase adulta foi permeada por um silêncio ensurdecedor do meu povo, que almeja, mais que tudo, trabalhar durante o dia e se trancar, exausto, em casa no fim da noite, assistindo TV com a família, vendo aí um modelinho perfeito de vida feliz – e assim, eu te entendo quando da sua irritação com os protestos, e a “baderna”, e o trânsito engarrafado, e o “vandalismo” que vê agora.

Mas sabe, caro amigo, preciso te contar um segredo. Mesmo banhado dessa “vida feliz” que eu consegui, a mim sempre rolou uma coisa estranha na garganta. Uma sensação esquisita, de apatia, um grande e indescritível mal-estar. Eu, do meu carro, vejo ao lado um ônibus degradado, com pessoas entaladas como sardinha lá dentro: eu estou mais confortável, sim, mas estou preso no trânsito, com o vidro fechado e rezando incessantemente para que nenhum revólver apareça na minha janela: consigo dizer que eu estou mais feliz que os caras ali da janela do enlatado? Eu não vejo a hora de chegar em casa: tenho pânico da rua! Sinto que vou morrer a qualquer momento por simplesmente estar no lugar errado na hora errada – e sinto, nem sei dizer ao certo qual é a “hora errada” e o “lugar errado”! Eu não sei se tenho mais pena ou medo daqueles que estão abaixo de mim! Eu tenho a vida que pedi a Deus, mas gostaria de perguntar ao Senhor dos Céus: Deus, por que não estou feliz?

Será mesmo que você, meu queridíssimo amigo, não compartilha disso comigo e nem sabe por que? Eu nunca tive chances de dizer isso pra ninguém, e você? Todos os dias eu vejo a violência aumentando, meu medo aumentando, o preço do meu plano de saúde aumentando, a mensalidade da escola de meus sobrinhos aumentando, e nunca deixei de me engasgar e pensar “mas eu já pago por educação e por saúde”. E assim, meu sentimento de “isso nunca vai mudar” vem sendo cada vez mais onisciente em minhas reflexões. Eu não estou feliz com o Brasil em que vivo, vejo rankings e mais rankings de educação, saúde, desemprego, carga tributária sendo cada vez mais devastadores de minhas esperanças. Vejo absurdos atrás de absurdos da parte dos caras que eu mesmo ajudei a colocar lá dentro dos prédios do poder: cada vez maiores, mais escandalosos – mas simplesmente parei de pensar a respeito: nada nunca mudaria! É assim desde que me dou por gente! É assim que me ensinaram. É assim que, infelizmente, viverei e morrerei nessa minha frágil “felicidade cotidiana”…

É só comigo, amigão? Por favor querido, quebre muitos de seus conceitos já tão introjetados em sua alma e veja lá no fundo do seu coração: tente por um segundo se questionar sobre sua felicidade em ser um brasileiro submerso nesse conceito de “felicidade-classe-média”, o qual eu também compartilho. Existe também um desânimo em seu espírito? Novamente: eu te entendo!

Mas pela primeira vez em toda a minha vida, eu senti algo que veio dar-me um mínimo acalento: companhia. Eu vejo as manifestações pipocando mundo afora por um país melhor: eu vejo a mim mesmo lá dentro. Mais da metade daqueles vagabundos, aparentemente, também não sentiriam tanto no bolso por R$0,20, assim como eu já confessei lá em cima. Eu vejo gente angustiada, com as mesmas angústias que sempre tentei colocar na beira de um copo de cerveja, e que sempre acabaram com um bufar desanimado e um “oh, paciência…”, seguido de qualquer outro assunto de mesa de bar. Eles podem não me representar pela mesquinharia de vinte centavos, mas me representam na indignação generalizada, que todo mundo sempre soube existir, mas que dessa vez – incrível, emocionante, maravilhoso – foi além do meu bufar na beira do copo!

Eu preciso te confessar, querido: estou de queixo completamente caído! Sonhei com esse dia sem sequer cogitar que ele podia acontecer de verdade! É como pedir alguém em casamento, é como sair do armário, é como passar no vestibular: estou, com ênfase em cada sílaba, completamente e-mo-ci-o-na-do com o que (me) vi nas manifestações desse já mítico junho de 2013! Pode ser que nada aconteça, como meu pessimismo de três décadas tende a pensar dentro do meu coração, mas apenas a esperança do “é possível viver sem tristeza” já me fará ver o Brasil com outros olhos daqui pro resto da minha medíocre vida: no mínimo, a partir de agora tenho certeza que não estou só!

Meu querido! Hoje, eu preciso ir ao teu encontro, pegar em tua mão, e com um sorriso embargado em lágrimas te convidar: sai de casa, desce do fretado, sai do seu carro e vem pra rua comigo? Vamos, nem que seja só por hoje, deixar a televisão (símbolo máximo da nossa felicidade leviana) de lado e encontrar a nós mesmos na multidão? Sim, eu sei, também penso que pode dar em nada, mas não consigo deixar de pensar também que nunca mais teremos outra chance como essa. Não estamos sós, e precisamos encontrar nossos parecidos, juntar nossas vozes, quebrar finalmente nossa eterna “inveja boa” da geração das Diretas Já. É algo grande demais para que, se der certo, eu tenha a vergonha de dizer aos meus futuros filhos e netos que não estive lá – e eu quero chorar por ter tentado e não conseguido, não por ter engasgado um insosso “não fui”. É uma chance boa demais pra ser deixada de lado: pense que, na pior das hipóteses, perdemos apenas uma noite de nossas vidas, uma noite que seria preenchida pela novela, ou pelo Datena, ou por qualquer outra coisa que certamente acontecerá de novo amanhã, e depois, e depois…

Meu irmão de tristeza, meu irmão de descrença: vamos? Nem que seja pra te encontrar lá e te dar um abraço apertado, e chorarmos juntos por essa vida que compartilhamos…

Deus acompanhe cada passo seu, querido! Eu vejo algo diferente no futuro: compartilhe dessa visão comigo, sim?

Atenciosamente,

Rafael Galeoti de Lima, 30 anos, classe média, geógrafo e professor.

O Manifesto e o Diálogo

Olá caro leitor imbuído de certezas petrificadas, condutas sacralizadas e convicções inabaláveis. Nesta breve introdução convido o interlocutor a uma árdua tarefa, repleta de intempéries, catarses e tremores em suas ideologias tão socialmente bem construídas. A tarefa consiste apenas em um passo básico: tomar conhecimento do diferente, do oposto, do contrário.

Acabo de ler a belíssima obra MANIFESTO DO NADA NA TERRA DO NUNCA, do sempre competentemente crítico Lobão, e me veio uma necessidade de escrever a respeito, primeiramente em repúdio às respostas oligofrênicas e escalafobéticas dos incautos não-leitores da obra, que se valem das únicas armas dos incapazes: a violência verbal e a desmoralização do autor, o taxando de drogado, decadente ou qualquer xingamento. Em segundo lugar este singelo texto procura dialogar com o próprio autor, exaltando o que, na minha concepção, são os pontos fortes da obra, mas também fazendo considerações que julgo importantes. Mas em momento algum colocarei em xeque o esforço intelectual do Lobão, pois considero seu Manifesto uma obra de extrema relevância sociológica, mesmo para os que não compartilham de suas opiniões.

E vivas ao Manifesto

E vivas ao Manifesto

Para entender o Manifesto é necessário ter algum conhecimento não tão superficial da trajetória musical e política de seu autor. O principal ataque dos idiotas detentores dos discursos alheios é de que Lobão se tornou um reacionário pró-ditadura. Isso é falta de leitura e conhecimento. A vida de Lobão é repleta de altos e baixos superados sem ajuda do Estado, sem lei Rouanet, apenas por sua genialidade de empreender o novo. Seus shows eram boicotados, sua plateia vítima de constrangimentos dos mais variados tipos. Tentaram impedi-lo de exercer seu trabalho, como se fosse um subversivo, um mal social. Era um perseguido político em plena era democrática. Frágil democracia. Mesmo assim prevaleceu e merece respeito por sua irrefutável capacidade inventiva e qualidade indiscutível como músico, compositor e escritor.

Agora vamos trabalhar a obra, mas sem polêmica, por favor. Vamos nos comportar civilizadamente e não como um bando de hienas procurando carniça onde não há. O livro é uma visão muito pessoal sobre os rumos da política, da sociedade e da classe artística brasileira. É uma viagem ao íntimo do pensamento do cidadão brasileiro e uma catarse contra a pasmaceira que nos rodeia. Portanto, mesmo se discorda, leia!

Lobão dedicou um capítulo a problematizar a dita Comissão da Verdade, sendo que está deveria se chamar Comissão da Meia Verdade, pois vitimiza os rebeldes e condena os militares do Estado. Ocorre que a própria Aliança Nacional Libertadora (ANL) cometia assassinatos,  justiçamentos de membros do grupo, assaltos, sequestros e, mesmo assim, não serão investigados, mas vitimizados e tratados como heróis que nunca foram de uma libertação que nunca ocorreu. Num mar de culpados a anistia irrestrita  não me soa como incoerente. Lobão não defende a ditadura, mas a coerência das atividades da Comissão, conforme o trecho a seguir:

“Os militares abusaram (e abusaram mesmo) do expediente de torturas e execuções dos guerrilheiros e de pessoas que nada tinham a ver com a guerrilha em questão, se aboletaram no poder, quebrando a promessa de devolvê-lo a um governo democrático, se afastando por completo da sociedade civil, cassando os principais líderes políticos da época, como Juscelino e Lacerda, e isso deve ser devidamente esclarecido. Mas nada justifica o acobertamento histórico de quaisquer outros fatos, independentemente do lado. É apenas a História do país que clama por ser contada de forma equânime, como assim exige qualquer espírito justo e democrático de um povo e de uma cultura.”

Nesse contexto da busca por culpados e vitimas, mocinhos e vilões, Lobão sinaliza que o governo brasileiro anseia formar uma nova aliança comunista para a América Latina, e essa é uma visão que particularmente discordo e entendo as relações do Brasil com Cuba não como uma tentativa da instauração de um governo ditatorial esquerdista condenador do lucro, das empresas e da iniciativa individual para a institucionalização latino americana do paternalismo, do Estado-babá etc. Encaro essa relação mais como uma política estratégica para quando Cuba abrir seu mercado ( que é questão de tempo). Um sinalizador importante para mostrar que o Brasil é um país capitalista integrado na dinâmica internacional é a nomeação de um brasileiro para o cargo mais importante do comércio internacional, a diretoria da OMC.

Da mesma forma vejo a aproximação do Brasil não somente com o Irã, mas com o oriente médio como um todo, como um importante passo nas relações diplomáticas e comerciais com os países árabes. É importante ressaltar que o comércio foi verdadeiramente fortalecido, visto que o último chefe de Estado brasileiro a visitar os países árabes antes do Lula foi o D. Pedro II. Também devemos reconhecer o trabalho da diplomacia brasileira, que nos últimos anos se consolidou como referência internacional pela qualidade de nossos diplomatas na mediação de conflitos fazendo com o que o Brasil dispute uma vaga no Conselho de Segurança da ONU. O impeditivo é relacionado a questões internas ao Brasil, como sistema prisional, muito bem descrito pelo Lobão, e pelo tratamento às cracolândias nas cidades brasileiras, em especial São Paulo.

Grande Lobo

Grande Lobo

Lobão, em seu manifesto, também demonstra seu descontentamento contundente com o ineficaz intervencionismo estatal na economia e nas normas de conduta social. Economicamente reforça a ideia da incompatibilidade da nossa carga tributária com os serviços prestados à população, em especial no tocante à educação, saúde e infraestrutura. E com razão! Mesmo com uma das maiores cargas tributárias do mundo, o Brasil acumula uma dívida pública  de quase 60% do PIB (O país emite títulos da dívida quando a arrecadação é menor que o gasto). A cobrança de impostos abusivos evita que as famílias tenham autonomia para escolher onde gastar seu dinheiro, fruto do seu trabalho. Há também a política de concessão de meia entrada em eventos culturais como forma de incentivo às pessoas de determinados segmentos sociais tenham acesso à cultura mais facilmente, no entanto isso não vem acompanhada com uma política de desoneração sobre quem presta o serviço.

Em relação à infraestrutura Lobão tece duras críticas ao estado deplorável das estradas federais, bem como à situação de descaso nas localidades mais afastadas do centro econômico. Leitores, compreendam uma coisa: RODOVIAS PAULISTAS NÃO REPRESENTAM O BRASIL. O caminho para sair do buraco é fazer concessões EFICIENTES, não BARATAS. Crucial é analisar a capacidade técnica das empresas que disputam os leilões das estradas. essa decisão evitaria que contratos fossem alterados, obras fossem paradas, serviços fossem de péssima qualidade e pedágios fossem incompatíveis com a qualidade oferecida. Mais importante que preço é qualidade.

Sobre a educação, Lobão afirma que há uma bancada para analisar a origem étnica do sujeito em detrimento do mérito, capacidade, ou dedicação e investimento em estudo básico com qualidade superior a das escolas públicas como forma de sanar uma dívida histórica, mas que só acentua reações extremistas, dos contrários e favoráveis. Bom, eu não vejo o sistema de cotas como uma forma de pagar dívida alguma, mas também acho que a forma de entrada nas universidades (via vestibular) não é uma forma eficiente de se medir conhecimento. Prova disso é que nem sempre as maiores notas do vestibular são os melhores alunos do curso. O bom desempenho no ensino médio não significa bom desempenho no ensino superior, e em algumas universidades alunos cotistas apresentam melhor aproveitamento que alunos que entraram pela concorrência ampla. Em momento algum defendo o sistema de cotas como um fim em si mesmo, é necessário ampliar a qualidade do ensino básico, mas não somente via construção de escolas e aumento salarial de professores. É sabido um dos responsáveis pela péssima qualidade do ensino básico público são daqueles alunos que depredam o patrimônio, que desrespeitam o professor, que tumultuam as aulas.

É importante também ressaltar que até 2003 o Brasil seguia a recomendação do Banco Mundial para  a não criação de universidades públicas no Brasil. Essa medida parece esdrúxula, mas tem uma lógica que infelizmente não se compatibiliza com a realidade brasileira: o Brasil deveria investir em edução BÁSICA  de extrema qualidade e deixar a educação superior na mão da iniciativa privada. Até 2003 o Brasil tentou fazer isso descentralizando a educação básica para estados e municípios (que categoricamente não fizeram seu trabalho eficientemente) e não criaram mais universidades públicas. Ocorre que o mercado brasileiro tende ao oligopólio, o que fomentou a formação de mercenários conglomerados educacionais gigantescos de qualidade pífia. A partir de 2003 o governo federal passou a criar novas universidades federais, destacadamente: Universidade Federal de São João del Rei, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e a Universidade Federal do ABC, sendo que esta última figura como a melhor universidade brasileira em impacto normalizado e excelência em pesquisa de sua produção científica, segundo ranking Scimago.

O último capítulo,  A UTOPIA ANTROPOFÁGICA REVISITADA — Carta aberta de Lobão a Oswald de Andrade, é uma dos textos mais bonitos e geniais que eu li nos últimos tempos. A forma afetuosa e até carinhosa como Lobão trata seu adversário ideológico deveria servir como diretriz das relações humanas, reconhecendo o outro como indivíduo e entrando no jogo democrático para entrar em contato com novas experiências de pensamento, e o reconhecimento de diferentes formas de ver o mundo, sem desqualificar o indivíduo, mesmo discordando de todo seu discurso. Mais que uma proposta de desconstrução do Manifesto Antropófago, Lobão apresenta com humor e irreverência suas idéias, de forma a não ofender, mas rebater amigavelmente os discursos sacralizados e cultuados e disseminados por rebentos sem linguagem própria.

O livro todo é permeado por essa aura idiossincrática e bem humorada do artista, contudo não pode cair no ostracismo de nossa curta memória social, tampouco ser solenemente ignorado por uma patrulha ideológica dominante. A relevância do Manifesto de Lobão é necessária e pertinente como um levante do indivíduo contra o sufocamento pela coletividade.

Não sabe brincar, não desce pro play

De todos os ditos populares que já ouvi por esse “Brasil do Que” que nós lidamos desde o começo desse blog, caro leitor, acredito que nenhum tenha me chamado tanta atenção como esse muito recente hit do vocabulário popular, que dá título a esse texto. Confesso, fico absurdamente intrigado toda vez que escuto alguém pronunciar essa frase. Mexe comigo. Me incomoda, me tira de minha zona de conforto. Balança meu senso de Brasil, meu ideário de “como as coisas são em nosso país”. Parece-me, “não sabe brincar, não desce pro play” é muito mais que um dito popular: é o símbolo máximo de uma verdadeira revolução na sociedade brasileira, algo que merece ser estudado, criticado, analisado com extremo cuidado.

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Todo dito popular, em síntese, é uma metáfora, que traz consigo uma conotação ou uma “lição” aprendida em algum pequeno gesto, e que vem necessariamente de alguma experiência ou vivência que está inserida fortemente na cultura popular, no cotidiano do cidadão comum. O dito popular que vem de um comportamento específico de alguma classe torna-se vocabulário de nicho, pra poucos falantes e principalmente poucos entendedores. Não me parece o caso deste, caro leitor. O Brasil todo fala “não sabe brincar, não desce pro play”: está definitivamente na boca do povo. E o revolucionário do dito em questão encontra-se não na mensagem que se quer passar: o que mais espanta é, de fato, a experiência ou vivência inserida na cultura popular.

Analisemos profundamente a experiência de descer pro play, independente de o indivíduo em questão saber ou não brincar. O “play”, ao que tudo indica, é o playground, o parquinho coletivo, onde as crianças (entendo ser as crianças pelo uso do “brincar”) se reúnem para atividades lúdicas com seus vizinhos. Em qual tipo de vizinhança temos o play? É claro, temos vários parques públicos espalhados Brasil afora, mas quase sempre são mal cuidados, mal iluminados, cheios de mato, daqueles lugares que parecem ter mais “vida” a noite que durante o período de luz – e a “brincadeira” praticada não é exatamente algo lúdico, muito menos infantil.

É, parece que não...

É, parece que não…

Assim, parece-me que falamos, aqui, de um parquinho fechado, daqueles dentro de condomínios. A propósito, arrisco ainda dizer se tratar de condomínios verticais, desses com portarias e torres e estacionamentos espremidos, quase sempre todos iguais: o fato de ter que “descer” pra se dirigir ao play indica minimamente a necessidade de uma escada, ou elevador. E se o dito popular é algo que vem de experiências cotidianas, é nesses lugares em que a maioria das crianças tem que descer para ir ao play. Parece correto.

Ora, de repente temos a constatação: “não sabe brincar, não desce pro play” nasceu dentro de condomínios! E, acima de tudo, se um dito popular é algo que nasce dentro de uma vivência cotidiana do povão, parece agora que o condomínio, esse mesmo que uns anos atrás era sinônimo de status e riqueza, está agora inserido na cultura do povão! É cada vez mais aceitável que o cidadão comum está agora também nos condomínios! Não há maior símbolo do novo poder de consumo e da redistribuição da riqueza nacional que este mais novo e incrível hit dos ditados populares Brasil afora! É um povão que, se antes se amontoava nos bairros de média e baixa renda, agora se acomoda em novas moradias verticais, com poder de consumo suficiente pra morar num condomínio com elevadores e plays – e filhos que precisam descer até lá pra, caso saibam usar os equipamentos disponíveis, realizar suas recreações! Haveria como ser mais fantástico?

O novo centro formador de filosofias nacionais.

Muita filosofia num só pneu rosa.

Só que, se no meio das crianças elas mais ou menos se acertam e aprendem a brincar corretamente nas possibilidades que o play oferece, no mundo dos adultos que voltam pra seus apartamentos no fim da noite é drasticamente diferente. Não deixa de ser fantástico – e merece ser sim muito noticiado – esse novo cenário de redistribuição de renda, mesmo que ainda bastante tímida. É algo sem precedentes na história da nação, indubitavelmente mas que deixou de vir acompanhada de uma vasta gama de aparatos necessários pra que a vida nesse novo play da nova classe média fosse lugar mais seguro pra essas “crianças”. Sem educação financeira, sem planejamento familiar… sem educação no geral (naquele sentido “escola de qualidade” que sempre me referi), os recordes de distribuição de renda e de novo poder de consumo veio acompanhado de outros recordes colaterais, certamente menos mostrados na clássica mídia brasileira. Dentre eles, os recordes de cheques sem fundo por ano, de inadimplência, de cadastrados nos serviços de proteção ao crédito. O brasileiro nunca ganhou tanto na vida – e nunca foi tão caloteiro!

Flecha subindo sempre parece uma coisa legal, né?

Flecha subindo sempre parece uma coisa legal, né?

Motivos? Vários. Desde o sonho de consumo fácil (o famoso “dar o passo maior que a perna”), até falta de preparo com a nova realidade, vinda tão drasticamente pra todos. Atire a primeira pedra quem nunca assinou um contrato qualquer, sem ter lido todas as linhas miúdas antes do espaço da assinatura, pra comprar algum móvel nas Casas Bahia ou pra arrumar um novo financiamento naquele banco camarada… e só descobre que concordou com as normas que acabaram de o prejudicar quando vai atrás dos pormenores dos causos! O brasileiro não lê, muito menos em grande quantidade, muito menos em letras tão pequenas e em juridiquês ou financeirês! E parar o cidadão comum do condomínio ir de crediário a devedor, e de devedor para “super-devedor”, é algo tão rápido quanto sua ascensão à nova classe média. Deram-lhe dinheiro: não lhe ensinaram o quanto vale, nem a gastar com prudência.

E já que falamos agora de “quanto vale o dinheiro”, é a hora de falarmos de mais um fenômeno que colabora em muito para tudo isso. O novo poder de consumo da classe média, agora com mais dinheiro no bolso (e sem instrução de como gastá-lo, lembre-se), vê em sua frente a chance de uma vida que jamais sonhou há alguns anos e décadas atrás. Não só é possível ter um apê em condomínio com play, mas também mobiliá-lo, com geladeira novinha, fogão de seis bocas e mesa de jantar! Só que essa mobília gera novas necessidades, e a partir daqui, o poder de consumo cria todo um novo padrão de consumo desses novos gastadores nacionais. O filho vai ter danoninho todos os dias. O dispenser de cerveja tem que ter latinhas todo final de semana. A gaveta de legumes terá sempre tomates frescos (oh, tomates…). Daí, bate a tal da inflação, e se mal houve preparo para que o cidadão comum pudesse aprender a gastar, menor ainda é a sua capacidade de reduzir seu padrão de consumo: com os mesmos hábitos gasta-se cada vez mais, e se antes o endividamento era oriundo de gastos excessivos, agora ele se dá simplesmente pelos novos gastos básicos do cidadão. Viver traz dívidas!

Sim, eu leio a SUPER.

Sim, eu leio a SUPER.

Oh não, não acabou, leitor. Além de tudo isso, a nova classe média está total e historicamente desacostumada com outros gastos não menos importantes: a manutenção do poder de consumo. De cara, lembremos dele: o famigerado Leão do Imposto de Renda. Entendeu bem? Imposto de Renda! Você paga imposto apenas pelo simples fato de ter renda! Mas se esse ainda é algo a ser “esquecido” ao longo do tempo (e recordado com ódio no meio do ano), temos outros amigos impostos, vários. Apenas em janeiro que o novo endinheirado lembra que aquele Novo Corsa Zero que comprou ano passado tem o tal do IPVA mais DPVAT, que o cara nem sabe o que significa a sigla mas que tem que ser pago, sob o risco de perder o bem. O condomínio tem a taxa básica mensal, além do IPTU. Algo que pode ser guardado ao longo do ano, para que no temível mês dos impostos tenha-se como acertar as dívidas governamentais, certo? Errado: o brasileiro não guarda! Sobrou dinheiro no fim do ano? Viagem, pacote CVC em 45 prestações (e aquela entrada que leva todas as suas economias) pra algum país do Mercosul. Divertido, todos voltam felizes – e falidos.

Um sorriso a mais no rosto de uma criança (e um endividado a mais batendo a foto)

Um sorriso a mais no rosto de uma criança (e um endividado a mais batendo a foto)

São tantas as formas que o mesmo Governo que redistribuiu a renda tem para tirar do brasileiro a mesma renda que deu, que algumas delas chegam a beirar o absurdo. Observe o caso dos moradores de Pirituba, em São Paulo: bairro de ruas íngremes (e nós sabemos que “ruas íngremes” e “gente pobre” tem associação direta nesse nosso Brasil), os moradores agora podem comprar mais carros. E isso gera a necessidade de refazer a fachada da casa, para adaptar uma garagem. Só que, para que o carro entre na garagem, a calçada em forma de ladeira precisa ser reconstruída em degraus, para que minimamente o carro acesse a nova garagem, certo? Errado novamente: calçada irregular gera multa um belo valor de três dígitos por metro linear de calçada! Ou seja: vc gastou pra fazer sua calçada, terá que gastar novamente pra desfazer a sua calçada, e ainda entrega ao Governo um salgado quatro dígitos pelo “erro” que ninguém informou!

Para que o morador possa andar... pobre.

Para que o morador possa andar… pobre.

Pra encerrar, caro amigo: o que fica claro, aqui, é que se existe uma óbvia redistribuição de renda, propagandeada aos quatro ventos por quem interessa propagandear, embora isso seja algo fantástico traz consigo efeitos colaterais bastante imprevisíveis. Se você pensou em “educação” como solução pra tudo isso, eu também digo que sim. Mas o fato é que, por enquanto, ninguém está ensinando essa gente toda como se usa corretamente e com responsabilidade os brinquedos deslumbrantes desse novo play – e todos estão morrendo de vontade de descer e brincar…

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PS:  É bem provável que este autor que vos fala tenha que dar uma espaçada sensivelmente maior no tempo que demoro para jogar coisa nova aqui nesse espaço, caro leitor. Mas ao menos o motivo é nobre: eu e mais uma amiga assinamos a nova Coluna do CES no Jornal A Verdade, de Várzea Paulista. O panfleto semanal já tem duas edições com textos meus que, embora menores e mais simples que esses colocados no BdQ, demandam uma periodicidade bem rígida, um compromisso inadiável – diferentemente do meu compromisso por aqui, onde (oh, que arrogante: desculpe!) posto quando quiser.

Acompanhe minhas neuras por lá também! É um outro tipo de texto, mas com temáticas bem parecidas com as abordadas neste nosso modesto blog. Clique aqui pra ver o site do jornal, e clique nas edições para entrar no navegador virtual. A Coluna do CES existe desde a edição de 24 de maio, você a encontrará sempre na página 2!

Ah, e se não sabe o que é o CES, esse novo projeto de vida que está me dando muito prazer e realizações pessoais e profissionais, clique aqui pra conhecer! 😀

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