Crônicas de um país sem sobrenome

De todos os ditos populares que já ouvi por esse “Brasil do Que” que nós lidamos desde o começo desse blog, caro leitor, acredito que nenhum tenha me chamado tanta atenção como esse muito recente hit do vocabulário popular, que dá título a esse texto. Confesso, fico absurdamente intrigado toda vez que escuto alguém pronunciar essa frase. Mexe comigo. Me incomoda, me tira de minha zona de conforto. Balança meu senso de Brasil, meu ideário de “como as coisas são em nosso país”. Parece-me, “não sabe brincar, não desce pro play” é muito mais que um dito popular: é o símbolo máximo de uma verdadeira revolução na sociedade brasileira, algo que merece ser estudado, criticado, analisado com extremo cuidado.

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Todo dito popular, em síntese, é uma metáfora, que traz consigo uma conotação ou uma “lição” aprendida em algum pequeno gesto, e que vem necessariamente de alguma experiência ou vivência que está inserida fortemente na cultura popular, no cotidiano do cidadão comum. O dito popular que vem de um comportamento específico de alguma classe torna-se vocabulário de nicho, pra poucos falantes e principalmente poucos entendedores. Não me parece o caso deste, caro leitor. O Brasil todo fala “não sabe brincar, não desce pro play”: está definitivamente na boca do povo. E o revolucionário do dito em questão encontra-se não na mensagem que se quer passar: o que mais espanta é, de fato, a experiência ou vivência inserida na cultura popular.

Analisemos profundamente a experiência de descer pro play, independente de o indivíduo em questão saber ou não brincar. O “play”, ao que tudo indica, é o playground, o parquinho coletivo, onde as crianças (entendo ser as crianças pelo uso do “brincar”) se reúnem para atividades lúdicas com seus vizinhos. Em qual tipo de vizinhança temos o play? É claro, temos vários parques públicos espalhados Brasil afora, mas quase sempre são mal cuidados, mal iluminados, cheios de mato, daqueles lugares que parecem ter mais “vida” a noite que durante o período de luz – e a “brincadeira” praticada não é exatamente algo lúdico, muito menos infantil.

É, parece que não...

É, parece que não…

Assim, parece-me que falamos, aqui, de um parquinho fechado, daqueles dentro de condomínios. A propósito, arrisco ainda dizer se tratar de condomínios verticais, desses com portarias e torres e estacionamentos espremidos, quase sempre todos iguais: o fato de ter que “descer” pra se dirigir ao play indica minimamente a necessidade de uma escada, ou elevador. E se o dito popular é algo que vem de experiências cotidianas, é nesses lugares em que a maioria das crianças tem que descer para ir ao play. Parece correto.

Ora, de repente temos a constatação: “não sabe brincar, não desce pro play” nasceu dentro de condomínios! E, acima de tudo, se um dito popular é algo que nasce dentro de uma vivência cotidiana do povão, parece agora que o condomínio, esse mesmo que uns anos atrás era sinônimo de status e riqueza, está agora inserido na cultura do povão! É cada vez mais aceitável que o cidadão comum está agora também nos condomínios! Não há maior símbolo do novo poder de consumo e da redistribuição da riqueza nacional que este mais novo e incrível hit dos ditados populares Brasil afora! É um povão que, se antes se amontoava nos bairros de média e baixa renda, agora se acomoda em novas moradias verticais, com poder de consumo suficiente pra morar num condomínio com elevadores e plays – e filhos que precisam descer até lá pra, caso saibam usar os equipamentos disponíveis, realizar suas recreações! Haveria como ser mais fantástico?

O novo centro formador de filosofias nacionais.

Muita filosofia num só pneu rosa.

Só que, se no meio das crianças elas mais ou menos se acertam e aprendem a brincar corretamente nas possibilidades que o play oferece, no mundo dos adultos que voltam pra seus apartamentos no fim da noite é drasticamente diferente. Não deixa de ser fantástico – e merece ser sim muito noticiado – esse novo cenário de redistribuição de renda, mesmo que ainda bastante tímida. É algo sem precedentes na história da nação, indubitavelmente mas que deixou de vir acompanhada de uma vasta gama de aparatos necessários pra que a vida nesse novo play da nova classe média fosse lugar mais seguro pra essas “crianças”. Sem educação financeira, sem planejamento familiar… sem educação no geral (naquele sentido “escola de qualidade” que sempre me referi), os recordes de distribuição de renda e de novo poder de consumo veio acompanhado de outros recordes colaterais, certamente menos mostrados na clássica mídia brasileira. Dentre eles, os recordes de cheques sem fundo por ano, de inadimplência, de cadastrados nos serviços de proteção ao crédito. O brasileiro nunca ganhou tanto na vida – e nunca foi tão caloteiro!

Flecha subindo sempre parece uma coisa legal, né?

Flecha subindo sempre parece uma coisa legal, né?

Motivos? Vários. Desde o sonho de consumo fácil (o famoso “dar o passo maior que a perna”), até falta de preparo com a nova realidade, vinda tão drasticamente pra todos. Atire a primeira pedra quem nunca assinou um contrato qualquer, sem ter lido todas as linhas miúdas antes do espaço da assinatura, pra comprar algum móvel nas Casas Bahia ou pra arrumar um novo financiamento naquele banco camarada… e só descobre que concordou com as normas que acabaram de o prejudicar quando vai atrás dos pormenores dos causos! O brasileiro não lê, muito menos em grande quantidade, muito menos em letras tão pequenas e em juridiquês ou financeirês! E parar o cidadão comum do condomínio ir de crediário a devedor, e de devedor para “super-devedor”, é algo tão rápido quanto sua ascensão à nova classe média. Deram-lhe dinheiro: não lhe ensinaram o quanto vale, nem a gastar com prudência.

E já que falamos agora de “quanto vale o dinheiro”, é a hora de falarmos de mais um fenômeno que colabora em muito para tudo isso. O novo poder de consumo da classe média, agora com mais dinheiro no bolso (e sem instrução de como gastá-lo, lembre-se), vê em sua frente a chance de uma vida que jamais sonhou há alguns anos e décadas atrás. Não só é possível ter um apê em condomínio com play, mas também mobiliá-lo, com geladeira novinha, fogão de seis bocas e mesa de jantar! Só que essa mobília gera novas necessidades, e a partir daqui, o poder de consumo cria todo um novo padrão de consumo desses novos gastadores nacionais. O filho vai ter danoninho todos os dias. O dispenser de cerveja tem que ter latinhas todo final de semana. A gaveta de legumes terá sempre tomates frescos (oh, tomates…). Daí, bate a tal da inflação, e se mal houve preparo para que o cidadão comum pudesse aprender a gastar, menor ainda é a sua capacidade de reduzir seu padrão de consumo: com os mesmos hábitos gasta-se cada vez mais, e se antes o endividamento era oriundo de gastos excessivos, agora ele se dá simplesmente pelos novos gastos básicos do cidadão. Viver traz dívidas!

Sim, eu leio a SUPER.

Sim, eu leio a SUPER.

Oh não, não acabou, leitor. Além de tudo isso, a nova classe média está total e historicamente desacostumada com outros gastos não menos importantes: a manutenção do poder de consumo. De cara, lembremos dele: o famigerado Leão do Imposto de Renda. Entendeu bem? Imposto de Renda! Você paga imposto apenas pelo simples fato de ter renda! Mas se esse ainda é algo a ser “esquecido” ao longo do tempo (e recordado com ódio no meio do ano), temos outros amigos impostos, vários. Apenas em janeiro que o novo endinheirado lembra que aquele Novo Corsa Zero que comprou ano passado tem o tal do IPVA mais DPVAT, que o cara nem sabe o que significa a sigla mas que tem que ser pago, sob o risco de perder o bem. O condomínio tem a taxa básica mensal, além do IPTU. Algo que pode ser guardado ao longo do ano, para que no temível mês dos impostos tenha-se como acertar as dívidas governamentais, certo? Errado: o brasileiro não guarda! Sobrou dinheiro no fim do ano? Viagem, pacote CVC em 45 prestações (e aquela entrada que leva todas as suas economias) pra algum país do Mercosul. Divertido, todos voltam felizes – e falidos.

Um sorriso a mais no rosto de uma criança (e um endividado a mais batendo a foto)

Um sorriso a mais no rosto de uma criança (e um endividado a mais batendo a foto)

São tantas as formas que o mesmo Governo que redistribuiu a renda tem para tirar do brasileiro a mesma renda que deu, que algumas delas chegam a beirar o absurdo. Observe o caso dos moradores de Pirituba, em São Paulo: bairro de ruas íngremes (e nós sabemos que “ruas íngremes” e “gente pobre” tem associação direta nesse nosso Brasil), os moradores agora podem comprar mais carros. E isso gera a necessidade de refazer a fachada da casa, para adaptar uma garagem. Só que, para que o carro entre na garagem, a calçada em forma de ladeira precisa ser reconstruída em degraus, para que minimamente o carro acesse a nova garagem, certo? Errado novamente: calçada irregular gera multa um belo valor de três dígitos por metro linear de calçada! Ou seja: vc gastou pra fazer sua calçada, terá que gastar novamente pra desfazer a sua calçada, e ainda entrega ao Governo um salgado quatro dígitos pelo “erro” que ninguém informou!

Para que o morador possa andar... pobre.

Para que o morador possa andar… pobre.

Pra encerrar, caro amigo: o que fica claro, aqui, é que se existe uma óbvia redistribuição de renda, propagandeada aos quatro ventos por quem interessa propagandear, embora isso seja algo fantástico traz consigo efeitos colaterais bastante imprevisíveis. Se você pensou em “educação” como solução pra tudo isso, eu também digo que sim. Mas o fato é que, por enquanto, ninguém está ensinando essa gente toda como se usa corretamente e com responsabilidade os brinquedos deslumbrantes desse novo play – e todos estão morrendo de vontade de descer e brincar…

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PS:  É bem provável que este autor que vos fala tenha que dar uma espaçada sensivelmente maior no tempo que demoro para jogar coisa nova aqui nesse espaço, caro leitor. Mas ao menos o motivo é nobre: eu e mais uma amiga assinamos a nova Coluna do CES no Jornal A Verdade, de Várzea Paulista. O panfleto semanal já tem duas edições com textos meus que, embora menores e mais simples que esses colocados no BdQ, demandam uma periodicidade bem rígida, um compromisso inadiável – diferentemente do meu compromisso por aqui, onde (oh, que arrogante: desculpe!) posto quando quiser.

Acompanhe minhas neuras por lá também! É um outro tipo de texto, mas com temáticas bem parecidas com as abordadas neste nosso modesto blog. Clique aqui pra ver o site do jornal, e clique nas edições para entrar no navegador virtual. A Coluna do CES existe desde a edição de 24 de maio, você a encontrará sempre na página 2!

Ah, e se não sabe o que é o CES, esse novo projeto de vida que está me dando muito prazer e realizações pessoais e profissionais, clique aqui pra conhecer! 😀

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