Crônicas de um país sem sobrenome

Cajamar/SP, 17 de junho de 2013.

Meu querido, estimado amigo!

Essa mensagem é pra você que, como muitos que eu conheço e conheci, estão nesse momento descrentes do que pode/irá acontecer, dentro de todas essas manifestações pipocando MUNDO afora em prol de um melhor país. Essa mensagem também é pra você, que está bravo aí dentro do seu carro/ônibus parado há horas, sem poder andar pelo trânsito travado causado por esses “vagabundos”. Essa mensagem é pra você, que por seus diversos motivos, acha que não deve se misturar. Acompanhando pela TV aberta, vê uma realidade a qual, acha, está descolado. E quer, acima de tudo, acompanhar a Copa das Confederações.

Meu amigo! Queria estar aí contigo e te dar um abraço! Sabe por que? Porque, embora tanta gente esteja nesse momento condenando-te por sua postura (a)política, eu te entendo. De verdade. Eu sei o que se passa aí em seu coração. E eu sei, porque tenho que te confessar: o meu coração também tentou me dizer a mesma coisa.

Eu nasci, caro amigo, numa cidadezinha do interior, no longínquo ano de 1983 – e sim, fico feliz de, aos 30 anos, muita gente dizer aquele hipócrita “você ainda é jovem”. Nesse exato momento, querido, sinto-me velho. Eu era uma criança de fraldas quando meus pais viram pela TV o Diretas Já – e nunca vi nada sequer parecido em meu país. Papai conta que, quando da morte de Tancredo Neves após a redemocratização do Brasil, acordou minha mãe no sofá da sala para dar a notícia. Eu cresci, amigo, num mundo onde as coisas nunca fervilharam, longe de centros urbanos, aglomerações, manifestações. E ergo a mão aos céus pra dizer: tive uma infância feliz, sem muitas dificuldades, sem apertos financeiros. Hoje eu tenho carro, fruto do meu trabalho, fruto do meu estudo numa das melhores universidades do país. Eu sou um cara que, hoje, poderia dizer com convicção: não me pesaria tanto no bolso um aumento de R$0,20 na passagem.

Ao querer te abraçar, eu represento toda uma geração que nasceu nessa década de 80, jovem demais pra ter ranços da ditadura, velho demais pra ter esperanças de um país melhor. Minha infância, adolescência e primeira fase adulta foi permeada por um silêncio ensurdecedor do meu povo, que almeja, mais que tudo, trabalhar durante o dia e se trancar, exausto, em casa no fim da noite, assistindo TV com a família, vendo aí um modelinho perfeito de vida feliz – e assim, eu te entendo quando da sua irritação com os protestos, e a “baderna”, e o trânsito engarrafado, e o “vandalismo” que vê agora.

Mas sabe, caro amigo, preciso te contar um segredo. Mesmo banhado dessa “vida feliz” que eu consegui, a mim sempre rolou uma coisa estranha na garganta. Uma sensação esquisita, de apatia, um grande e indescritível mal-estar. Eu, do meu carro, vejo ao lado um ônibus degradado, com pessoas entaladas como sardinha lá dentro: eu estou mais confortável, sim, mas estou preso no trânsito, com o vidro fechado e rezando incessantemente para que nenhum revólver apareça na minha janela: consigo dizer que eu estou mais feliz que os caras ali da janela do enlatado? Eu não vejo a hora de chegar em casa: tenho pânico da rua! Sinto que vou morrer a qualquer momento por simplesmente estar no lugar errado na hora errada – e sinto, nem sei dizer ao certo qual é a “hora errada” e o “lugar errado”! Eu não sei se tenho mais pena ou medo daqueles que estão abaixo de mim! Eu tenho a vida que pedi a Deus, mas gostaria de perguntar ao Senhor dos Céus: Deus, por que não estou feliz?

Será mesmo que você, meu queridíssimo amigo, não compartilha disso comigo e nem sabe por que? Eu nunca tive chances de dizer isso pra ninguém, e você? Todos os dias eu vejo a violência aumentando, meu medo aumentando, o preço do meu plano de saúde aumentando, a mensalidade da escola de meus sobrinhos aumentando, e nunca deixei de me engasgar e pensar “mas eu já pago por educação e por saúde”. E assim, meu sentimento de “isso nunca vai mudar” vem sendo cada vez mais onisciente em minhas reflexões. Eu não estou feliz com o Brasil em que vivo, vejo rankings e mais rankings de educação, saúde, desemprego, carga tributária sendo cada vez mais devastadores de minhas esperanças. Vejo absurdos atrás de absurdos da parte dos caras que eu mesmo ajudei a colocar lá dentro dos prédios do poder: cada vez maiores, mais escandalosos – mas simplesmente parei de pensar a respeito: nada nunca mudaria! É assim desde que me dou por gente! É assim que me ensinaram. É assim que, infelizmente, viverei e morrerei nessa minha frágil “felicidade cotidiana”…

É só comigo, amigão? Por favor querido, quebre muitos de seus conceitos já tão introjetados em sua alma e veja lá no fundo do seu coração: tente por um segundo se questionar sobre sua felicidade em ser um brasileiro submerso nesse conceito de “felicidade-classe-média”, o qual eu também compartilho. Existe também um desânimo em seu espírito? Novamente: eu te entendo!

Mas pela primeira vez em toda a minha vida, eu senti algo que veio dar-me um mínimo acalento: companhia. Eu vejo as manifestações pipocando mundo afora por um país melhor: eu vejo a mim mesmo lá dentro. Mais da metade daqueles vagabundos, aparentemente, também não sentiriam tanto no bolso por R$0,20, assim como eu já confessei lá em cima. Eu vejo gente angustiada, com as mesmas angústias que sempre tentei colocar na beira de um copo de cerveja, e que sempre acabaram com um bufar desanimado e um “oh, paciência…”, seguido de qualquer outro assunto de mesa de bar. Eles podem não me representar pela mesquinharia de vinte centavos, mas me representam na indignação generalizada, que todo mundo sempre soube existir, mas que dessa vez – incrível, emocionante, maravilhoso – foi além do meu bufar na beira do copo!

Eu preciso te confessar, querido: estou de queixo completamente caído! Sonhei com esse dia sem sequer cogitar que ele podia acontecer de verdade! É como pedir alguém em casamento, é como sair do armário, é como passar no vestibular: estou, com ênfase em cada sílaba, completamente e-mo-ci-o-na-do com o que (me) vi nas manifestações desse já mítico junho de 2013! Pode ser que nada aconteça, como meu pessimismo de três décadas tende a pensar dentro do meu coração, mas apenas a esperança do “é possível viver sem tristeza” já me fará ver o Brasil com outros olhos daqui pro resto da minha medíocre vida: no mínimo, a partir de agora tenho certeza que não estou só!

Meu querido! Hoje, eu preciso ir ao teu encontro, pegar em tua mão, e com um sorriso embargado em lágrimas te convidar: sai de casa, desce do fretado, sai do seu carro e vem pra rua comigo? Vamos, nem que seja só por hoje, deixar a televisão (símbolo máximo da nossa felicidade leviana) de lado e encontrar a nós mesmos na multidão? Sim, eu sei, também penso que pode dar em nada, mas não consigo deixar de pensar também que nunca mais teremos outra chance como essa. Não estamos sós, e precisamos encontrar nossos parecidos, juntar nossas vozes, quebrar finalmente nossa eterna “inveja boa” da geração das Diretas Já. É algo grande demais para que, se der certo, eu tenha a vergonha de dizer aos meus futuros filhos e netos que não estive lá – e eu quero chorar por ter tentado e não conseguido, não por ter engasgado um insosso “não fui”. É uma chance boa demais pra ser deixada de lado: pense que, na pior das hipóteses, perdemos apenas uma noite de nossas vidas, uma noite que seria preenchida pela novela, ou pelo Datena, ou por qualquer outra coisa que certamente acontecerá de novo amanhã, e depois, e depois…

Meu irmão de tristeza, meu irmão de descrença: vamos? Nem que seja pra te encontrar lá e te dar um abraço apertado, e chorarmos juntos por essa vida que compartilhamos…

Deus acompanhe cada passo seu, querido! Eu vejo algo diferente no futuro: compartilhe dessa visão comigo, sim?

Atenciosamente,

Rafael Galeoti de Lima, 30 anos, classe média, geógrafo e professor.

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Comentários em: "Carta aberta aos descrentes da revolução" (15)

  1. Fernando Puertas disse:

    Poutz esse texto com toda certeza me emocionou, parabéns pelas palavras, parabéns por expressar de maneira tão bela o sentimento de tanta gente nesse momento de luta, de virada.
    Não sei se isso nos levará a algum lugar, mas quinta-feira também estarei nas ruas, não posso deixar de participar disso!!

  2. Ah… entendi! Essa “revolução” é contra a tristeza das vossas vidas! Apoiado! Vá lá abraçar as pessoas, colocar pra fora o sentimento repreendido causado pela falta de afeto, característico da geração pós-80. Vocês precisam disso! Só espero que não se tornem massa de manobra dos espertinhos de plantão, doidos para “retomar” o poder… fiquem espertos!!!!

    • Rafael Galeoti disse:

      Isso te representa um problema, amigão? E você, está satisfeito com sua vida como brasileiro? Minha tristeza vem exatamente do seu medo: eu JÁ SOU massa de manobra e nunca nem percebi!
      E você, já percebeu?

      • Não, nenhum problema. Aliás, até disse que apoio a “revolução”, desde de que não se torne, como está me parecendo que está se tornando, massa de manobra daqueles que estão de olho numa “brecha” para voltar, entendeu? A satisfação plena nunca deve nos atingir, temos sempre que buscar mais, algo melhor. Não digo materialmente apenas. É preciso sempre estar inquieto. Mas, te digo, estou muito mais satisfeito com meu país hoje do que em tempos não muito pretéritos. Por isso, minha preocupação com os rumos que esse movimento pode tomar. Bom movimento à todos!!! Com a história nas mãos!!!

      • Rafael Galeoti disse:

        E é exatamente daí que eu fico feliz de ver meus parceiros de indignação e entalamento na garganta enxotando bandeiras na manifestação. Eu realmente acredito, e fico feliz de estar acreditando junto contigo!

        Forte abraço! 😀

      • Não tinha conseguido ler a parte final de sua resposta. Os atentos percebem quando a manobra é grande, por isso não são massa. Manobras sutis são mais difíceis de perceber. Por isso, é preciso atenção. Evidente que somos todos massa de manobra sutis, de uma forma ou de outra, desde de que nascemos. Vivemos em sociedade. Porém, analisar amplamente os fatos, e permanecermos centrados nas nossas vontades, nos dá um sentimento, talvez errôneo, de independência, de individualidade. Não fique triste pelo medo que acha que sinto, há muito motivos mais para tristeza. Não me torne objeto de sua revolução, encontre algo mais concreto!

      • Rafael Galeoti disse:

        Oh, não se preocupe comigo também, pois já encontrei: ser sociedade NÃO implica necessariamente em ser massa de manobra, perdi recentemente esse seu conformismo, amigo! Com todo o respeito, seria pequeno e mesquinho demais de minha parte protestar por quem discorda de mim…

  3. Vanessa Pires disse:

    É importante lembrar que tudo o que vc faz na sociedade é um ato político. Até ser apolítico é uma atitude política. Mas pra que todo esse papo de manobra? Todo esse movimento não tem partido, esse movimento é um coletivo de insatisfações. As pessoas que fazem parte dele podem ser partidárias, podem defender visões políticas. Mas quem acompanha as discussões sobre passe livre há mais de 15 anos (como eu), sabe muito bem que isso sempre foi uma reivindicação dos estudantes seja de que partido fosse. E agora não é diferente. Mas limitar a “fúria” do povo em 0,20 centavos é coisa de alma pequena, e de quem morreu e esqueceu de deitar. Me permita Rafael, lembrar aos leitores e a quem compartilha das conversas (não posso dizer que é pensamento) do leitor Denilson, infelizmente MORREU E ESQUECEU DE DEITAR! Abraço!

  4. Vanessa Pires disse:

    (publiquem esse comentário, pois está completo…)

    É importante lembrar que tudo o que vc faz na sociedade é um ato político. Até ser apolítico é uma atitude política. Mas pra que todo esse papo de manobra? Denilson, por favor, elenque os manobristas aqui… mas sem palavras como “os poderosos”, os “manipuladores”, a “turma da esquerda”, a “turma da direita”, a “coluna do meio”, os “manobristas”, os “dominadores”, os “ladrões de consciencia”, porque já cansei. Quero NOMES!!!
    Todo esse movimento não tem partido, esse movimento é um coletivo de insatisfações. As pessoas que fazem parte dele podem ser partidárias, podem defender visões políticas. Mas quem acompanha as discussões sobre passe livre há mais de 15 anos (como eu), sabe muito bem que isso sempre foi uma reivindicação dos estudantes seja de que partido fosse. E agora não é diferente. Mas limitar a “fúria” do povo em 0,20 centavos é coisa de alma pequena, e de quem morreu e esqueceu de deitar. Me permita Rafael, lembrar aos leitores e a quem compartilha das conversas (não posso dizer que é pensamento) do leitor Denilson, infelizmente MORREU E ESQUECEU DE DEITAR! Abraço!

    • Ah, não, não, pára!!!! tá doendo de tanto rir… Quer dizer então que, porque você “já cansou”, não existem mais manipulações por parte da imprensa, de partidos, de entidades, etc… Que o povo brasileiro é esclarecido e não se deixa levar. Ah… que bom!!! Ué, quer dizer então que a UNE e a UBES, para citar duas entidades que doem no calo do MPL, não manipulam? Que a Globo só expõe os fatos? Sei… não falemos mais nisso, aceito vosso decreto. Agora, estou aguardando uma manifestação do MPL sobre os rumos desse movimento. Cadê? Será que fugiu ao controle? Só espero que não estejam comemorando essa redução demagoga das tarifas, porque isso é um tiro no pé!!! Claro que vocês já devem ter percebido isso, né? Não é nada disso que vocês querem, não? Redução com desoneração? Provavelmente com queda na qualidade dos serviços? Chiii… a coisa tá piorando em vez de melhorar!!! Claro, o objetivo é muito maior do que esse!!! Então, me diga, qual é? Exponha as reivindicações e as soluções que vocês propõem, com clareza! Vou ajudar… o fim da corrupção é uma delas, certo, apoiado! Como fazer isso? Tirar o Renan Calheiros da presidência do Senado? Que piada! (estou dizendo isso porque vi um vídeo em que elencavam 5 causas (???!!!) do movimento, e a primeira delas era essa). Aguardo sua resposta, embora já saiba o conteúdo dela, mas será divertido ler aqui, na solidão do meu caixão!!!

  5. Ninguém pediu para existir uma única versão dos fatos, ou para todos pensarem iguais, isso não é um conflito, e sim uma forma de protesto contra algo que não vem sendo bom. Os meus miúdos 18 anos de vida não me impede de dizer com toda a certeza do mundo, de que todos sabemos disso, TODOS vemos, vivemos e ouvimos o quanto a população precisa lutar por qualquer mudança que queira que aconteça, e não é só porque pagamos os nossos impostos e queremos um retorno disto, é porque o governo está ai para gerir um país que é de todos, nós colocamos esses representes lá, é o nosso dever cobrar pela qualidade disso. Sabemos que 0,20 centavos de cada cidadão desta nação pode ajudar e MUITO os problemas que enfrentamos, mas esse dinheiro não vai pra isso, vai ? E é por isso que há luta, porque sabemos para onde esse dinheiro vai. Há vândalos, policiais corruptos e gente de má fé nessa manifestação, e também há pais de família, estudantes, professores, há trabalhadores, há uma população que usa o transporte pública e não quer e nem pode deixar esse aumento acontecer, seja pela ideia por trás da causa, seja pelo aperto no bolso no final do mês, seja por não baixar a cabeça e fingir que não vê para onde seu dinheiro vai, enquanto concorda com tudo que o Datena diz no final do dia. A manifestação acontece porque há uma ideia, não porque os 0,20 é muito ou pouco, é porque todos que estão lá, decidiram dizer “não” para alguma coisa.

    18 anos, classe média baixa, estudante de geografia em uma das melhores universidades do país através do estudo em escola pública e cursinho popular.

  6. Fabiana Araujo disse:

    Parabéns pelo texto, Rafael!
    Acho que muita gente tem dúvidas, mas acho muito mais importante ter esperança!
    Ficou show!!

  7. Ziraldo Felas disse:

    Belo texto, onde somente um ser grande mas doce (gay) consegueria escrever

  8. insatisfeito e ofendido disse:

    Você e geógrafo tudo bem mas professor nao

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