Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para julho, 2013

O Fator Spoleto, ou: onde o gigante pegou a curva errada no caminho do progresso

Uma das coisas que eu sempre disse quando conversava, umas semanas atrás, com quem me perguntasse sobre as manifestações do junho de 2013, era que algum dia aquilo tudo iria ser bem analisado e descrito pelos futuros historiadores nacionais e mundiais. Admito, caro leitor: essa foi uma bela saída para que eu disfarçasse um atravessado “não sei”. E era fato, eu realmente não sabia o que estava acontecendo. Me pergunto, agora com poeiras mais assentadas (mas não paradas, diga-se), se naquela época (oh, parece já estar virando passado) alguém tinha já alguma noção do que se passava…

E não, não haverá tão cedo uma imagem mais simbólica e "bocaberteante" que essa!

E não, não haverá tão cedo uma imagem mais simbólica e “bocaberteante” que essa!

Ha um mês atrás, eu estava nas ruas com amigos, andando por avenidas largas de uma cidade do interior de SP, com cartazes nas mãos e gritos de ordem e patriotismo, algo que minha geração nunca sequer cogitara ver. Na época, tinha comigo um gosto que existia esperanças num Brasil realmente diferente, mais justo e igualitário, com correções de problemas históricos e crônicos da nossa sociedade sendo finalmente sanados de alguma forma. Por sinal, usei esse espírito pra escrever o texto que seria o maior hit da história do BdQ, com assombrosa repercussão por amigos e redes sociais, algo nunca visto por esse blogueiro. Mas, é verdade, acho que ninguém tinha muita ideia sobre o tamanho da coisa toda. O que afirmo agora, talvez, é que parece haver um consenso sobre como tudo isso terminou. É verdade, muitos avanços foram conseguidos. Mais importante, é evidente que um recado claro foi dado pela sociedade aos seus representantes, e isso por si só já é fantástico! Seria, no entanto, somente eu a sentir daqui um gosto de “bom, mas poderia ter sido melhor”? O que raios aconteceu nesse insano inverno de 2013, caro leitor? Será que alguém já consegue fazer o papel de “historiador do presente”, e dar dicas de como interpretar com realidade tudo isso?

Este blogueiro aqui tem uma opinião, feita com muito tempo de reflexão e, claro, com os pés atolados até as canelas em manteiga. Veja, caro amigo: é uma opinião, de alguém que também não teve até agora muita certeza do que estava falando, e que não tem certeza até agora se está dando pitacos certeiros nisso tudo. Na verdade, não sei nem se é uma opinião original, de repente alguém já pensou algo muito parecido com isso e eu não sei… mas, talvez, ajude a explicar um pouco desse gostinho agridoce pós-loucuras de um junho inesquecível. Me permite? Discorde a vontade (aliás, faça-me o enorme favor de discordar) nos comentários, se quiser: me ajude a fabricar uma interpretação minimamente plausível de por que “o nosso gigante está cochilando”…

Proponho que usemos, a partir desse ponto, algumas perguntas e respostas para desencadear o raciocínio. No melhor estilo “meme do face”, começo:

1 – Quem somos?

Uma coisa óbvia desde o começo das manifestações, e que qualquer um que tenha ido às ruas ou ligado sua TV nesse mês que se passou é: nem de longe as passeatas espalhadas Brasil afora tiveram membros de todas as “classes sociais” da sociedade brasileira. É um equívoco dizer que era “o povo” se manifestando, afinal: era apenas uma parte do povo. E essa parte, todos sabem, é a classe média brasileira. Mas isso é senso comum… agora, resta-nos a pergunta: O que é a classe média brasileira? Se você acha que aqui eu usarei Marx pra tentar explicar… você está certo!

Uma divisão clássica de sociedade, inspirada / chupinhada dos textos marxistas, apontam para três distintas “castas” sociais: a aristocracia, a burguesia e a classe operária. A primeira, a aristocracia, diz respeito aos “melhores” (sim, tradução do grego que originou a palavra), aqueles com maior influência política e territorial (pensou nos nossos intocáveis? Pensou certo!). A burguesia, por sua vez, é a classe detentora dos meios de produção. Hoje, seriam nossos empresários, banqueiros, administradores… E claro, no Brasil há uma confusão entre aristocracia e burguesia, mas o importante é: a nossa classe média não entra em nenhum deles. A classe média brasileira, caro leitor, é formada em sua grande maioria por pessoas que, em Marx, se encaixariam na tal da classe operária. Indivíduos que não detém poder algum de produção, nem de administração, nem de “relevância política” num cenário mais abrangente. Mas, com vimos mês passado, essa galera fez um barulho danado… de onde veio essa força barulhenta e tão ressoante da classe média nacional?

E a resposta é perturbadora, leitor: esse poder veio dele, o capitalismo. O que caracteriza o brasileiro comum como “classe média” é pura e simplesmente seu poder de consumo que, como sabemos, tem aumentado gradativamente nos últimos anos – e isso é bom. O que caracteriza o brasileiro comum como “classe média” nada mais é do que sua nova capacidade de, as vezes, ir com a família no shopping comer no Spoleto, e se sentir importante por ter ali na mesa um prato feito exatamente por sua preferência de ingredientes, não mais com aquela frieza fordista de um marmitex.

"Quantas porções de  transporte público, senhor?"

“Quantas porções de transporte público, senhor?”

E com essa capacidade em mãos (precisamente, no bolso), o brasileiro aprendeu consequentemente a reclamar. O cliente tem sempre razão, e ele está pagando pelo produto personalizado, “espoletizado” que agora ele pode consumir – claro, caso esteja detalhadamente de acordo com seu gosto.

Guarde essa informação, ela será útil mais adiante. Por agora, vamos a próxima “pergunta-meme”:

2 – O que queremos?

Poderia, nesse ponto da reflexão, despejar todos os motivos pelos quais as pessoas saíram às ruas naqueles dias memoráveis. Você sabe, você viu: todo tipo de cartaz apareceu, em meio a sequências grotescas de gritos e trechos do hino nacional. O brasileiro sabe que paga impostos demais, por serviços públicos que muito se deixa a desejar (ou, se preferir, compra um produto de qualidade e recebe outro inferior).

Talvez, aqui o gigante tenha ligado a seta do carro, indicando sua intenção de pegar a curva errada que o tiraria do melhor caminho rumo ao “Novo Brasil”. A partir desse exato ponto do raciocínio, a classe média manifestante fatalmente começou a entender que o serviço público era um produto, e seu imposto era o preço a ser pago pelo mesmo. Era impossível ser diferente, caro leitor: esse cara sempre teve única e exclusivamente seu direito de reclamação associado ao consumo de uma ou outra coisa. Esse cara nunca sentiu o poder das ruas como palco político, e em contrapartida é um velho conhecido dos SACs das empresas as quais consome. Quando menos se viu, a Avenida Paulista deixou de ser o “grande palco das revoluções”, e se transformou num megalomaníaco, inusitado e bizarro “Procon Social” gigante, em que cada um despejou uma bandeja cheia de reivindicações ao mesmo tempo.

Algo assim.

Algo assim.

E a partir daqui, com a mentalidade consumista que lhe dá o direito de exigir da “loja” o “produto” com as exatas especificações de seu agrado, o movimento manifestante único começou a se desintegrar, para movimentos menores em que cada um defende a pauta que, para si, é mais urgente. Se na mesma grande roda haviam “os caretas” e “o grupo das 4:20”, vemos o primeiro racha, com o foco de uma parte da multidão focada exclusivamente no movimento pró-legalização da maconha. Se no mesmo mar de gente há os “evangeliconsumistas” e os homoafetivos, mais um grupo se destaca da multidão para novas passeatas em prol apenas do casamento igualitário. Cada um defendendo a causa que lhe é mais urgente individualmente – para desespero dos pró-pautas comuns, mais crônicas / estruturais e com maior margem para divagação, como a saúde e a educação, gritadas a plenos pulmões por multidões frenéticas e extasiadas apenas alguns dias antes.

Até aqui, falamos do período “pré-susto dos governantes”. E é fato que os caras realmente se assustaram (e esse é o grande e indiscutível legado positivo de tudo o que aconteceu), e começaram a tomar medidas urgenciais que, grosso modo, satisfariam o clamor popular um pouco mais, especialmente naqueles problemas que nós chamamos há pouco de estruturais. Mas por que ainda deu “meio errado”? Talvez, seja hora da próxima “pergunta-meme”:

3 – Como queremos?

Essa “mentalidade consumista” dessa classe média que saiu as ruas teve efeitos ainda mais devastadores nas manifestações no período “pós-susto” dos governantes. Nem é o caso de se referir, aqui, ao tal do “pleberendo” que ninguém entendeu e que foi “semi-esquecido” logo em seguida – a propósito, graças a Deus. Não vejo num futuro tão próximo a possibilidade de uma tomada coletiva de decisões que sejam eficientes para os problemas do Brasil: falta senso crítico (desculpe, leitor antigo, eu tive que falar novamente da educação…) para esse povo poder pensar a complexidade social e política brasileira. Mas voltemos ao raciocínio anterior, que a coisa é mais embaixo.

Se esse “Fator Spoleto” teve antes efeitos positivos ao empolgar o povo a ir pras ruas, em seguida ele foi o estopim para que a coisa degringolasse logo em seguida, caro leitor. É impossível, a curto prazo, estabelecer melhorias estruturais nos diferentes serviços sociais sem que fatalmente algum grupo tenha a privação de alguns (poucos, verdade) privilégios individuais: é errado pensar em saúde, transporte e educação com essa mentalidade. Investir em transporte público para desfazer o nó da mobilidade urbana é também pensar em políticas de “desincentivo” ao carro, como o projeto do pedágio urbano (terror de muitos motoristas da classe média) e os corredores de ônibus, das maiores reclamações de quem está, logo ao lado, preso no congestionamento –  e aqui, a categoria dos “possuidores de carro” ganham um inevitável prejuízo individual. Esse cara, ao notar uma situação que para ele é mais desconfortável, vai fatalmente ser contra tais propostas. E, na lógica da atuação política como algo que deve satisfazer todas as suas mínimas vontades, como dizer que esse cara é um filho da puta?

O mesmo, a propósito, se aplica ao bizarro caso, atualíssimo, das reações adversas da classe médica às propostas do Mais Médicos, programa recém-lançado por Brasília para levar doutores a todos os cantos do Brasil. É fato que a proposta parece tentadora a quem hoje critica ferrenhamente a postura da classe (mesmo que crie, assim, mais um baita racha na “grande roda”): salários altíssimos e emprego garantido logo após a formatura – o Governo Federal, afinal, está falando exatamente a língua que essa classe média brasileira entende: dinheiro, poder de consumo. Mas confesse, caro amigo: qual seria a sua vontade de, mesmo com o bolso cheio, trabalhar sob condições precárias e sem aparatos básicos, em alguma cidade condenada dos cafundós da nação? Você se sentiria “espoleteado” sob essas condições?

"Sim, nós queremos nosso Spoleto! E sim, nós comemos de jaleco!"

“Sim, nós queremos Spoleto! E sim, nós comemos de jaleco!”

E esse é o gancho perfeito para a última “pergunta-meme” do dia:

4 – Pra quando queremos?

Aqui, caro leitor, entra outro pulo do gato nessa discussão toda. Para que se faça as melhorias que todos nós ansiamos quando do começo das manifestações, infelizmente temos que pensar em dois fatores: tempo e qualidade. Pegando ainda o exemplo da saúde, parece impossível que se haja um plano que, ao mesmo tempo, atenda todas as demandas “espoléticas” de todos os grupos envolvidos, doutores e pacientes moribundos dos cafundós, de forma rápida e eficaz. O Brasil é um país de proporções continentais que inviabiliza o transporte rápido de materiais, mesmo que simples, a todas as UBS existentes e em projeto país afora. E não adianta culpar os desvios de dinheiro e a corrupção: aqui, falamos de logística mesmo, algo terrível para qualquer planejador público em qualquer escala de análise – que dirá, o Brasil todo!

O problema é que, como consumidores que acionam o Procon, queremos sempre a solução rápida dos problemas, e enquanto ela não vem, o tal gigante começa a bocejar novamente. As passeatas de dezenas de milhares de pessoas tornaram-se cada vez mais escassas. Mesmo as manifestações menores sentem já o peso do desânimo: com um anseio absolutamente imediatista (que não surpreende ninguém, a propósito), o brasileiro perdeu um pouco do pique de sair às ruas: falta-lhe paciência para esperar algo que não seja um milagre – talvez por já ter esperado demais, quem sabe, mas enquanto isso o gigante já está andando sob o acostamento, esterçado rumo à saída errada da rodovia para o sucesso absoluto…

Para que se evite o gosto agridoce do “sucesso que não foi muito sucesso”, caro leitor, é hora de mudar um pouco o enfoque da nossa participação política: o recado já foi dado, o susto já foi sentido. O momento agora é de, ao mesmo tempo, continuar com as pequenas demandas, sim, mas também de acompanhar criteriosamente cada passo dado pelos governantes, em sua cidade, no seu estado, em Brasília.

Talvez, caro leitor, veremos um Brasil melhor em breve. Algumas vitórias significativas já foram sentidas, é um fato. O importante é que as coisas precisam mudar: o clima de pessimismo, infelizmente, está gradativamente voltando. Por ora, enquanto ainda não se bate o martelo decretando-se o encerramento desse “junho louco”, talvez seja hora de, por que não, nos esforçarmos num exercício coletivo para cancelar um pouco do nosso “Fator Spoleto” totalmente inadequado para um pensamento social como o que se tentou fazer nas últimas semanas, e trabalhar um pouco mais com outra campanha publicitária famosa, essa sim, mais condizente com melhorias que sejam para a sociedade em sua totalidade:

Pense nisso!

Talvez possa, sim…

Como eu disse, caro amigo, as linhas que precedem foram escritas com um enorme senso de incerteza. Terei, portanto, um grande prazer em ver aí embaixo suas críticas, concordantes ou não com o pensamento que tentou-se desencadear aqui. Fique a vontade, sim? Ajude o blogueiro / brasileiro aqui a entender melhor as coisas. Daqui, espero também ter te ajudado a entender um pouquinho do que aconteceu…

Forte abraço e até a próxima!

A locomotiva da nação

Nota inicial: este texto, leitor, não foi escrito originalmente para o BdQ, mas por motivos de força maior, aqui ele veio parar. Você vai notar que este texto tem um estilo (e principalmente um tamanho) bem diferente do que se é habituado por aqui, e a explicação é: este texto originalmente foi escrito para uma coluna de jornal, com direito a normas editoriais e limite de caracteres, e por isso precisava ser mais direto e sucinto.

Por algum motivo alheio a meu conhecimento, a Coluna do CES, publicada no Jornal A Verdade Regional semanalmente, não saiu na sexta feira passada, dia 12. Acompanhe o calendário, amigo leitor: este texto, na verdade, foi escrito no dia 7, fazendo referência ao feriado do dia 9, e seria publicado no dia 12. Como não foi, publico-o aqui no dia 15. E é por isso que você vai notar coisas “estranhas”, como eu me referir ao nove de julho como “essa semana”. Tá aí a explicação.

Aproveito a ocasião para te pedir desculpas, caro leitor. Este projeto que abracei, da Coluna do CES, muito embora anda me sendo bastante prazeroso, anda ocupando boa parte do meu “espaço criativo”, e por isso, infelizmente, tive que deixar o BdQ um pouco às traças, e isso não é nada bom. Tenho saudades de poder escrever aqui mais vezes: é como se publicar esse texto aqui no blog fosse apenas um “plano B”. É chato isso! O BdQ é meu xodó antigo, poxa!

Prometo que ainda volto com força total, ok? As coisas precisam se acentar antes na vida, em vários planos. Conto com sua compreensão, sim? Se você não conhece a Coluna do CES, onde o autor aqui anda aparecendo com muito mais frequência, clique aqui para conferir as edições passadas, em um registro que ando fazendo em meu perfil do facebook (não é vaidade, apenas gosto de ter meus filhos devidamente documentados). Aproveite e clique aqui para conhecer o trabalho do CES, que anda me apaixonando gradativamente. Ah, e clique aqui para ler todo o Jornal A Verdade Regional, que sai todas as sextas em Várzea Paulista.

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Você, leitor, que tem em mãos hoje essa nova edição do JV, deve ter ficado feliz ao constatar que essa semana foi “mais curta”. Ao trabalhador é sempre um deleite – e nós, paulistas, sabemos como ninguém o que é trabalhar exaustivamente para poder gozar de um feriado como esse. Tem ainda o gostinho de “bem feito aos preguiçosos outros povos da nação” que sentimos, ao lembrar que o Nove de Julho é o feriado estadual da Revolução Constitucionalista de 1932, um dos episódios mais sangrentos e ufanistas de nosso Estado ao longo do tempo. Não faremos do texto de hoje uma aula de história, caro leitor: o espaço desta coluna seria insuficiente. Mas hoje aproveitamos a ocasião e sugerimos uma pauta: o que afinal é “ser paulista”?

Certamente o leitor já ouviu por aí certas frases de efeito quando o assunto é o papel de São Paulo para o resto do Brasil. “São Paulo é a locomotiva da nação”, uns dizem. “São Paulo seria melhor se fosse independente”, comum ouvir. É fato que os indicadores econômicos amplamente divulgados nas escolas e em quaisquer fontes oficiais mostram uma aglomeração de riqueza em São Paulo que, conclusões óbvias, dão a entender que teríamos no “País São Paulo” um núcleo de prosperidade econômica e social, fruto do “povo mais trabalhador da nação” como teimosamente gostamos de frisar.

No entanto, e isso também não é nenhuma novidade, boa parte do esforço, da mão de obra, das riquezas e recursos consumidos em São Paulo hoje e sempre é indiscutivelmente originado de outras unidades da federação brasileira. O leitor sabia, por exemplo, que a cidade com maior número de nordestinos no Brasil todo é a capital paulistana? Esses, ao que consta, dão duro todos os dias como qualquer “nativo”, e merecidamente também se deleitaram com o feriadinho. O mesmo se aplica aos “nossos” gaúchos, italianos, nortistas, latinos, mineiros, japoneses, cariocas. Faz sentido que, hoje, continuemos tratando com preconceito e deboche toda essa gente que ajudou e ainda ajuda a locomotiva a andar?

O que é ser paulista, caro leitor? É ser trabalhador, é lutar cada dia por seu sustento e fazer a locomotiva puxar o trem. Se nós paulistas somos locomotiva, porém, agradecemos hoje por termos em mãos todo esse carvão forasteiro, do resto do Brasil e do mundo, sem o qual jamais andaríamos.

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