Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para setembro, 2013

Eles, mimados: sobre médicos, universidades não universais e investimentos sem retorno

O sujeito ralou. E ralou muito. Foi um ano, dois anos, três anos estudando como um condenado, perdendo quase que toda a sua adolescência, para finalmente obter o êxito sonhado: passar no vestibular, no curso que ele sempre quis, numa universidade pública, das mais conceituadas do Brasil e do mundo. O novo orgulho da família, com certeza.

Lá adiante, parece que já dá pra ver o futuro: um emprego decente, com um ótimo salário. Muitos olheiros já estão esperando os recém-formados: serão pegos quase que “no laço”. A vida se inicia, enfim. Passou o trote. Passou as festas. A universidade começou a “apertar”. Cada vez mais, o sujeito deixa de ter vida social novamente e, tal qual um vestibulando, pega-se novamente debruçado em livros e mais livros. As provas, os trabalhos e seminários ficando cada vez mais pesados. O terrível TCC está chegando.

O futuro é um sonho.

O futuro é um sonho.

E daí, subitamente, o Governo Federal resolve intervir. Cria novas regras para que esse sujeito se forme. Os claros horizontes parecem mais distantes. E depois de quatro, cinco, seis anos de estudos intermináveis, noites e mais noites debruçado em livros, incontáveis almoços e jantares no intragável bandejão da universidade, festas e mais festas perdidas, vida social quase zero novamente, eis que a “liberdade” tardará mais algum tempo. Frustrante, decepcionante. Mesmo que essa intervenção governamental seja para uma melhoria social.

Sim, eu sei, caro leitor. Você pensou imediatamente no caso dos médicos leite-com-pera e todo esse estardalhaço que os “doutores mimados” andam fazendo, antes com os novos projetos de graduação em medicina, e agora com a chegada dos cubanos. Leia novamente os parágrafos que antecedem, caro amigo: reparou que em momento algum eu citei que o curso que “o sujeito” fez era medicina? E isso se dá pelo fato de que, sejamos francos, visualizo o mesmo cenário para qualquer formação disponível nas universidades públicas brasileiras. E digo mais: isso não é um problema da “criação leite-com-pera” do futuro médico. Isso é um problema da universidade como um todo.

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Aos desavisados: a universidade pública brasileira, sejam elas federais ou estaduais, muito embora tenha um altíssimo custo para a sociedade com o pagamento de seus impostos, nem de longe foi feita, foi planejada para ser um centro de formação de profissionais para a sociedade. O profissional ali formado está de fato pronto para o mercado – e o mercado esforça-se para absorver safras fresquinhas, ano a ano, de novos engenheiros, médicos, biólogos, geógrafos, cientistas em geral. Nenhum deles, no entanto, encontra na universidade uma formação filosófica para o trabalho direto com a sociedade.

Os pouquíssimos projetos que se formam dentro do mundo acadêmico neste sentido, ou é de iniciativa própria dos alunos – e o apoio, filosófico e financeiro, das pró-reitorias universitárias é sempre ínfimo, não raro, é zero -, ou é de alguma pró-reitoria obscura e que ninguém conhece, quase sempre com uma sigla que poucos sabem o que significa, e que no rateio de verbas da universidade quase sempre pega a menor fatia do bolo. Neste caso, ninguém quase nunca fica sabendo; no primeiro caso, boa parte dos que assim trabalham o fazem para “engrossar currículo” com trabalhos voluntários. Quando não, são estigmatizados, com estereótipos que insistentemente (sabe-se lá por que) são colocados negativamente, como “maconheiros” ou “utopistas patéticos”.

Enfim, é esse cara aqui...

Enfim, é esse cara aqui.

Ora, é sabido que muitos dos investimentos feitos dentro da universidade pública vem de agentes privados, os mesmos caras prontos a capturar qualquer formando de qualidade, mas é inconteste que grande parte do dinheiro que circula e mantem as atividades acadêmicas em pleno funcionamento é essencialmente público, vem da absurda carga tributária brasileira despejada na cabeça do cidadão comum: a universidade não deveria ter um claro papel social? Estima-se que o aluno universitário gaste em média dois mil reais mensais dos cofres públicos (faça a conta para quatro anos, leitor), para que este sujeito tenha as melhores condições possíveis de tornar-se futuramente um profissional de gabarito: mais da metade das famílias brasileiras vive com renda mensal abaixo disso! E em “renda mensal”, caro leitor, ainda contamos apenas o “salário líquido”, o que sobrou depois das incontáveis tributações retidas na fonte: a enorme arrecadação de impostos no valor final de cada produto consumido com esse “menos de dois mil” aí, é sabido, ainda arranca um belo pedaço do bolso do brasileiro comum.

É claro que, com conhecimento de causa, posso afirmar que a vida na universidade pública de fato não é as mil maravilhas que o vestibulando imagina. O Bandejão é de fato sem sabor, as bibliotecas nem sempre tem todos os títulos procurados, os professores não estão sempre disponíveis com sorrisos no rosto, assim por diante. De forma alguma, no entanto, pode-se negar que, em relação ao que acontece ali perto, logo após as saídas dos campi Brasil afora, a universidade pública é um verdadeiro oásis de prosperidade e riqueza. São dois mil reais mensais, entre aparatos públicos e bolsas e benefícios e pagamento de professores e funcionários, apenas para que esse sujeito estude.

E digo mais: o oásis é privado, não é de livre acesso a todos os que o construíram. Algumas das universidades públicas mais conceituadas do Brasil tem custos fixos bastante significativos com a tal “segurança”, práticas pensadas para que o espaço da universidade – por essência público – seja restrito apenas aos “do meio acadêmico”. Alambrados e mais alambrados cercam os campi Brasil afora, cada vez mais abundantes, cada vez mais altos. E não só o espaço é de benefício dos poucos ali presentes: em qual outro lugar do Brasil é possível comer uma comida (não saborosa, é verdade) balanceada, cuidada diretamente por nutricionistas, por dois reais ou menos? Se um brasileiro não vinculado à universidade tentar almoçar no bandejão, é obrigado a pagar preço de visitante, que sempre é ao menos o triplo disso. Em qual outro lugar do Brasil o jovem tem acesso a milhares, milhões de títulos para ler e retirar a vontade, em prateleiras e mais prateleiras sem fim? Se o jovem não universitário (a grande maioria) tentar retirar um livro, simplesmente é barrado. Em muitos casos, ele nem pode entrar na biblioteca. E está pagando caro por isso. Assim como os de lá de dentro, assim como todo o Brasil.

Acima: como é a USP. Abaixo: como o cara da USP vê a USP

Acima: como é a USP. Abaixo: como o cara da USP vê a USP

A pergunta que fica nesses incríveis dias de maior reflexão sobre a realidade da sociedade brasileira é: ela, a sociedade brasileira, repleta de carências em praticamente todos os quesitos (os médicos são apenas o mais evidente no momento), ainda tolera um investimento de tão grande porte sem praticamente nenhum retorno? A universidade e os universitários não teriam que, por filosofia, encarar as mazelas sociais brasileiras – inúmeras – como algo a ser minimamente refletido e trabalhado na formação de seus profissionais? Se o conceito de “patrão” implica em quem paga o seu salário, quem são os verdadeiros patrões dessa nova mão de obra qualificada? Por que, nesse meio altamente dependente de verba pública, o aluno universitário é coagido, por anseios individuais e também pela filosofia do meio acadêmico, a focar-se somente em sua formação, e seu futuro, e seu coeficiente de rendimento que lhe trará uma bolsa da Fapesp ou do CNPq (sem nem se dar conta de que, respectivamente, o “esp” e o “N” das siglas indicam que isso também é dinheiro público)?

Meio do curso.

Meio do curso.

É inaceitável que a formação do universitário brasileiro seja apenas calcada em formação profissional e mais nada. O trabalho comunitário precisa, sim, ser encarado filosoficamente como parte da formação de qualquer estudante da rede pública superior. A sociedade anseia urgentemente por profissionais qualificados, por gente que meta a mão na massa, que eduque, que trabalhe, que tenha iniciativa de ajudar a amenizar, ou que ao menos reflita sobre as tantas problemáticas que ultimamente foram evidenciadas pelas manifestações populares no Brasil. O conhecimento científico, o know-how passado ao aluno na universidade, deve ser encarado antes de mais nada como um investimento social no mesmo – e como qualquer investimento, por princípio carece de retorno.

Da mesma forma, é inaceitável que o universitário fique trancafiado no campus por tantos anos, muitas vezes com acesso irrestrito a leituras e mais leituras que justamente trabalhem as mazelas sociais, e em momento algum resolva olhar para o lado de fora do alambrado – e ver na prática o que está sendo teorizado há tantas páginas. Sua passagem pela universidade pública tem que obrigatoriamente ser marcada por projetos sociais que, mesmo de forma pontual, tenham por princípio a mitigação de tantos problemas. Cada linha lida numa mesa de biblioteca só está ali porque algum brasileiro desconhecido comprou um litro de leite para seus filhos – e na enorme maioria dos casos esses filhos jamais pisarão nessa biblioteca. Cada clique no mouse dos computadores dos diversos laboratórios de informática da universidade só é possível porque algum trabalhador anônimo tirou parte de seu orçamento para pagar a condução – e sabe que dificilmente alguém da sua família pegará algum dia a linha que vai para o campus.

O país carece de pontes

O país carece de pontes

Você condenou a postura dos médicos brasileiros sobre os fatos atuais, caro leitor? Eu também. Mas saiba de antemão que, de fato, eles simbolizam uma postura bastante difundida de onde eles saíram: locais almejados, sagrados, sonho de consumo de todo brasileiro. E muitos dos meus leitores, eu sei, estão nesse exato momento tentando se enfiar justamente ali, nesse tal “meio acadêmico”, querendo ser médicos que não medicarão para a sociedade, engenheiros que não construirão para o Brasil, cientistas que não pesquisarão para corrigir problemas sociais, educadores que não quererão ensinar as massas. O buraco é mais embaixo. De novo!

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