Crônicas de um país sem sobrenome

Pois que toda boa história começa com “era uma vez”. E, na história ora contada, pelo menos hoje é “era”, e não “é”. Então, vamos nós: era uma vez uma ponte. Ponte é aquele negócio que serve pra ligar duas coisas. Nesse caso, ligava duas avenidas. Que ficavam numa cidade.

Não, isso ainda diz pouco. Há magnitude na história ora contada. Era uma vez, uma cidade: não qualquer cidade, mas a maior cidade do Brasil, São Paulo. Em São Paulo, todos sabem, há várias avenidas, inúmeras: era uma vez a Avenida do Estado, importante corredor de circulação da zona leste de São Paulo, e a Marginal Tietê. Só isso. A maior avenida, da maior cidade do país. Nove faixas em três vias. Pega-se a Marginal Tietê para ir à quase qualquer lugar de São Paulo. Circulam ali aproximadamente 900 mil veículos por dia. Por dia!

E, olhem só, isso ainda diz pouco: não estamos aqui falando de qualquer uma das 29438905 pontes da Marginal Tietê. A ponte em questão, caro leitor, é a Estaiadinha, ligação entre a Avenida do Estado e a tal gigante via de circulação, a ponte mais bonita de toda a “faraonicidade” da Marginal Tietê, e a segunda mais bonita de São Paulo (perde apenas pra sua irmã mais velha, a Estaiada, na Marginal Pinheiros, a qual já criamos polêmica por aqui). Feita para facilitar o trânsito sempre afogado da região. Feita também para ser vista, apreciada, admirada pelos incontáveis passantes da Marginal Tietê. Coisa linda de se ver: se você vai ao aeroporto (tem copa chegando, lembra?), cruza a Estaiadinha. Se vai para o Vale do Paraíba, passa pela Estaiadinha. Se está na Rodoviária do Tietê (que também falamos por aqui), dá de cara com a Estaiadinha.

E claro, se você é um leitor do BdQ de fora de São Paulo, ei-la: a Estaiadinha!

E claro, se você é um leitor do BdQ de fora de São Paulo, ei-la: a Estaiadinha!

A Estaiadinha é um enorme símbolo da modernidade que se tenta passar da cidade de São Paulo. Certamente será (seria?) uma das recordações visuais que os zilhares de turistas em visita à São Paulo na Copa levarão. Um Itaquerão bonito precisa de uma cidade bonita que o acolha, certo? E no caso da Estaiadinha, alia-se a beleza das formas da ponte com a importância dela para que São Paulo não pare. E mesmo assim, tá quase parando…

Acontece que, enquanto o desavisado deslumbrado chega na Estaiadinha e olha pra cima, algumas pessoas menos desacostumadas com São Paulo chegaram lá e olharam pra baixo. E viram (dã), a Estaiadinha tem um pé de concreto. E o pé de concreto está num terreno. E o terreno é relativamente grande, e estava absolutamente sem uso algum. O que acontece com uma área como essa, numa cidade hiperpovoada como São Paulo que carece urgentemente de espaço para acomodar tanta gente? Pois que, rápido como um relâmpago na terra da garoa (desculpem, piada infame), surge, bem ali colado na pista Local da Marginal Tietê, um novo elemento: tem a ponte, tem a pista, tem os estaios deslumbrantes e, agora, tem-se uma favela. Bem vindo, caro leitor, a recém-fundada Favela Estaiadinha, aparecida no meio de 2013 no terreno da soleira da ponte!

Parecia óbvio.

Parecia óbvio.

E foi.

E foi.

PA-RA-TU-DO! Gente morando na Estaiadinha NÃO-PO-DE! Não que gente morando (literalmente) embaixo da ponte seja lá uma graaande novidade em São Paulo. Ao contrário, são inúmeros os levantamentos, sempre imprecisos obviamente, de indigentes e favelados na cidade, mas na Estaiadinha NÃO! Quem quiser morar em barraco, que vá pra mias longe, não na Marginal Tietê, e em pleno vão da ponte mais bonita da cidade: que diabos acontece se o turista, em direção ao aeroporto ou ao Itaquerão, não focar só pra cima?  Não pode, não pode e não pode!

Em cinco meses da existência da Favela Estaiadinha, o que se viu foi um recorde absoluto de “tentativas de reintegração de posse” do terreno. Engraçado pensar em “reintegração de posse” quando o terreno é público, como no caso da Estaiadinha: quem é o dono? Se é público, é meu? É seu? É dos que estavam morando ali? Não importa: alega-se falta de segurança (“poooobres criancinhas correndo pra lá e pra cá, podem cair na pista e se machucar…”), alega-se até possíveis danos futuros ao pé da ponte! Sabe como é, apoiar dois madeirites em QUINZE METROS DE CONCRETO ARMADO pode comprometer. Ou pode ser assim também:

#MijoSulfúrico

#MijoSulfúrico

Cinco meses de sai-não sai, sai-não sai. Era hora de dar fim à história. O último episódio da novelinha se deu agora, no feriadão. Sabe como é, né? Menos gente na cidade, e quem ficou ficou vendo na TV a prisão dos caras do Mensalão (entenda mais sobre o episódio do Mensalão: Clique aqui). E não há melhor fim de história que soltar os pit-bulls: força do hábito, talvez. A Justiça determina a reintegração de posse forçada, o Choque chega à Favela Estaiadinha. Certamente teriam poucas pessoas vendo. É importante.

Pelo menos dessa vez o cenário é bonito.

Pelo menos dessa vez o cenário é bonito.

Só que, se os caras da PM já são aqueeela coisa que já estamos acostumados, pedir pro nego fazer trabalho externo em feriado prolongado que o sujeito não pôde viajar com família pra Praia Grande por estar de plantão na corporação é pedir pra coisa sair mal feita. No meio da saída “pacífica” dos moradores (desculpe, leitor, perdemos a conta de quantas vezes a mídia usou o termo “pacífica” no episódio em questão), onde evidentemente todos tinham pressa de resolver logo a parada, surgiu o imprevisto: FOGO NA FAVELA! Na beira da Marginal Tietê! E com gente correndo lá dentro! Aí, amigo, não há feriado que segure o batalhão de fotógrafos, repórteres e afins, e o novo point de SP virou a Favela Estaiadinha!

Olhar pra cima e ver FUMAÇA.

Olhar pra cima e ver FUMAÇA.

Foram nada menos que TRÊS (!!!) incêndios em DOIS (!!!!!!) dias na Favela Estaiadinha. Tudo no meio de um feriado. A versão oficial da PM é a de que o fogo foi tocado por moradores desconsolados pelo abandono compulsório do local de moradia. Faz sentido: se você não tem nada, só meia dúzia de tábuas e cinco telhas (e quer morar debaixo delas), nada melhor para um bom recomeço que tocar fogo em tudo o que se tem, certo?

Certo.

Certo.

Mas, o mais inacreditável, ainda estaria por vir. O que, certamente, deflagrou o embasbacamento da situação toda. O que NINGUÉM esperava é que ela, a Ponte Estaiadinha, símbolo máximo da modernidade paulistana em plena Marginal “mais movimentada do planeta” Tietê, era mais frágil do que parecia. Como madeirite é combustível, as labaredas dos incêndios “que os moradores descontentes provocaram” chegou aos alicerces da pista estaiada da estrutura (!!!!!!!!), e COMPROMETEU A SEGURANÇA DA PONTE (!!!!!!!!!!!!!!)

#morri

#morri

E a população? Bom, os ex-moradores da ex-favela Estaiadinha estão do outro lado do Rio Tamanduateí, há poucos metros de onde era a ocupação original, na Avenida do Estado. Estão no meio da calçada, debaixo de lonas improvisadas, esperando alguma solução. Mas pelo menos estão em relativa paz. Está ainda mais esteticamente feio que antes, na ocupação do terreno da ponte, mas pelo menos não está na Marginal Tietê, portanto longe das vistas do caminho do aeroporto.

Se perdeu, leitor? Calma lá então, que a gente recapitula: tentou-se garantir a circulação (pra isso existe a ponte), e a estética da coisa (pra isso extingue-se a ocupação). Só que a coisa toda foi feita com tanta pressa – e claro, descaso – que nesse momento a ponte está INTERDITADA POR TEMPO INDETERMINADO, causando ainda mais trânsito na região. A copa está chegando. Adeus, circulação!

Pelo menos a querida ponte / elemento agregador de valor ao camarote resiste, certo? Sim, claro. Está lá, perdeu sua função de ligação entre duas coisas e por isso não dá pra afirmar com certeza tratar-se ainda de uma ponte. Agora é só uma paisagem. Ainda bela, é claro, DESDE QUE o turista desavisado e deslumbrado com São Paulo passe com relativa velocidade por debaixo da ponte, e assim não tenha tempo de reparar no escurecimento de alguns dos estaios.

Coisas de Brasil

Coisas de Brasil

E fim. Brasil do que mesmo?

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PS: caro leitor, começou de novo a campanha do Papai Noel dos Correios, a qual eu sou grande entusiasta. Já existem cartinhas a serem adotadas em várias unidades, corre lá e pegue a sua! Faça uma criança carente mais feliz nesse natal!

Mais detalhes: CLIQUE AQUI.

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