Crônicas de um país sem sobrenome

Todo trabalhador do terceiro setor sabe, caro leitor: lidar diretamente com o público é certamente uma experiência enriquecedora, e você sempre acaba se deparando com as coisas mais estranhas e – as vezes – divertidas. Se me permite, gostaria de começar relatando dois casos que há alguns anos me chamaram a atenção, da época em que eu, ainda adolescente quase entrando em fase adulta (não faz tanto tempo assim… tá?), trocava meu trabalho por dinheiro no balcão de uma video-locadora da minha terra natal.

Caso 1 – como poucos garotões de 20 anos sabem, o RedTube e o XVideos não são instituições que existem desde os tempos primórdios, e na época em que estive nesse trabalho (final da década de 90, começo dos anos 2000), os únicos “estímulos visuais para outros estímulos” eram disponíveis apenas em VHS (sim, sou da época da “multa por não rebobinar”). A locadora em que eu estava dispunha desses videos – arrisco dizer que eram responsáveis por quase 50% das locações diárias -, e não eram raros os casos em que a família ia à locadora e, escondido, o “pai” enfiava no meio das escolhas um desses “videos que a mãe não pode saber”… um dia, um menininho de uns 4 ou 5 anos me abordou e, perto do pai (sabidamente um “escondedor de fitas alternativas”), disse-me: “moço, você tem daquela fita que o homem pega a mulher e faz assim?” – por “assim”, entenda aquele típico gesto com as mãos cerradas e com o quadril que… ah, você sabe…

Caso 2 – os anos 90 eram bizarros, isso todo mundo sabe. Era a fase do É o Tchan e companhia estourando em tudo o que é lugar. Era a fase em que se deixasse, rolava um rala-rala na boquinha da garrafa até dentro de um velório – com ou sem o padre junto, tanto faz. E era a fase do shortinho e bustiê. Nada mais natural que a moda pegasse, num país tropical abençoado por Deus como o Brasil, e era engraçado como, por exemplo, embora fosse uma roupa que originalmente foi feita para exibir as curvas de uma garota (e esporadicamente do Jacaré), um bustiê e shortinho numa criança não fazia provocação alguma. Até o dia em que tive um choque de realidade: entra na video-locadora uma mãe, com sua filhinha de uns seis anos pelas mãos, que como várias menininhas que por ali passavam usava a combinação. No caso, um conjuntinho preto, com aquela clássica estampa dos olhos do Bad Boy, e escrito no espaço do bustiê onde no futuro provavelmente haveriam seios, em letras garrafais, de significado provavelmente desconhecido para a criança e para a própria mãe: “I´m a sex machine”

Faça dos casos relatados acima o que bem entender, caro leitor. Interprete-os como quiser: critique (ou não) esses pais a vontade por aí. Mas o fato é que existiu uma geração inteira, dos que hoje tem seus quase 30 anos, que cresceu entendendo que a sexualidade é algo constante e inerente à vida das pessoas. Ok, concordo, antes a coisa toda era mais declarada (que o diga as semanais sessões de colonoscopia que eram os ângulos e closes dos câmeras do Domingo Legal – que nem passava depois da meia noite).

O soft-porn da família brasileira

O soft-porn da família brasileira

Não que hoje a coisa seja diferente, em épocas de crianças e adolescentes 100% conectados e de falta de intervenção dos pais sob o conteúdo acessado pelos rebentos, os sites pornográficos são os novos Domingos Legais da criançada – muito mais explícitos, interativos e, potencialmente, prejudiciais. Mas hoje, caro leitor, não estamos aqui para discutir sobre pornografia e infância.

Cabe-nos perguntar para a discussão de hoje: isso tudo é necessariamente ruim? Já vimos anteriormente: a bunda brasileira é uma das maiores expressões nacionais mundo afora. Talvez as formas como se aprende sobre sexo hoje em dia sejam de fato nocivas, mas e quanto a essa inserção constante do sexo como algo corriqueiro e cotidiano do brasileiro? Ora, sexo é bom, é gostoso e saudável, faz bem pra pele e pras articulações e, se de forma consensual para as duas (três, quatro, cinco, ou apenas uma mesmo, whatever) partes, é sempre algo positivo e agregador na vida de cada um. O brasileiro é tradicionalmente visto como o povo mais sensual (e sexual) do mundo: amigos e mais amigos (e amigas também, diga-se) que se aventuram no exterior sempre voltam dizendo que, para “se dar bem” lá fora, não é raro que seja suficiente apenas dizer “I´m brazilian” – algum dia eu ainda faço isso. E, convenhamos, isso é algo que culturalmente sempre orgulhou muito nosso povo. Então, de onde vem o choque natural que temos ao ver coisas como o video abaixo?

Daí, mencionamos a criação do tal de Lulu. Originalmente um aplicativo para que as mulheres opinassem sobre os homens de forma anônima (e talvez por isso virou febre), entendendo “opinar” como “opinar sobre todas as características do sujeito”, mas que no final das contas resumiu-se a uma avaliação parcial do desempenho sexual do cara. Garanhões “eu como todas” em pânico, sem se tocar que, pra ter uma avaliação positiva no Lulu, basta não tratar as mulheres como “máquinas de masturbação sem as mãos”. Nós, brasileiros, fizemos do Lulu uma versão reduzida de si mesmo com caras de “cardápio do sexo”, e as usuárias, consultoras de boas trepadas. Longe de mim criticar as mulheres por isso, caro leitor: elas tem tanto direito de avaliar o comportamento sexual dos parceiros de forma aberta quanto todos os homens já o fazem, e é claro, é uma baita vingança contra a nova e repugnante moda do revenge-porn que vemos por aí. É quase um momento histórico, quando tenta-se inverter a relação “usuário-objeto” de uma sociedade tão patriarcal e machista quanto a nossa. São os sinais de que uma nova guerra dos sexos está se formando no país – e com ela, a elaboração de todo um novo “manual de conduta sexual” precisaria ser escrito. Justamente o país em que transar parece tão fácil, tão natural quanto dar “bom dia”…

Não é disso que estamos falando...

Não é disso que estamos falando.

Exagero? Nem tanto. Quando o assunto é sexo, nós os garanhões do planeta precisamos mesmo de um terapeuta sexual. E isso já é desde muito antes do Lulu. País do sexo fácil em que é natural andar mostrando o máximo possível em épocas de carnaval, e ao mesmo tempo o país mais cristão “castidade fidelidade contra-promiscuidade” do mundo. Não a toa, excetuando-se países em guerra civil ou situações similares que usam disso como “arma de guerra” ou qualquer aberração do tipo, lideramos com folga o ranking de país pacífico com mais casos de sexo não consentido (sim, estupro), única forma de sexo não saudável que pode (embora não deva JAMAIS) ser praticada.

Aprendemos a nos manifestar (pero no mucho, a gente sabe) em junho. E, claro, como tradicional “país da putaria” que somos, adoramos peitos a mostra – é bom lembrar que o Carnaval tá aí: na falta de uma fantasia adequada, apenas um band-aid tamanho família garante um tapa-sexo de qualidade. Mas misturar nudez e manifestação política, como as meninas do Femen Brazil fizeram há pouco tempo, aí é crime, é feio, é desnecessário, é pecado! E, falando em pecado, as cenas vistas pelo mundo quando da visita do Papa Francisco ao Brasil mostram que, visivelmente, temos problemas com nossa identidade sexual: brasileiros se masturbaram com crucifixos em praça pública, gerando debates e mais debates (sempre pouco produtivos) sobre a opressão que a religião cristã (marca indelével da nossa sociedade) causa na nossa sexualidade (outra marca tão indelével quanto). E é assim que se vê com tanta naturalidade, dentre outras coisas, pastor metrossexual de sexualidade duvidosa ganhando eleições (pois sim, ele nos representa) e tornando-se presidente de comissão de direitos humanos, pregando… homofobia! É no mínimo um caso de conflito pessoal, de não aceitação. Freud adoraria analisar-nos.

Ou o Padre Merrin, quem sabe.

E já que falamos de homofobia, é impossível não mencionar nossa terrível confusão mental quando resolvemos falar de formas de expressão sexual, digamos, “não cristãs convencionais” (mesmo que consensuais). Fato é que não fazemos a menor ideia se amamos ou odiamos nossos gays e lésbicas. Sabe aquele garotinho que fez pra mim o gesto de um filme pornô? Se ele de fato assiste esses filmes, cresceu vendo – e aprovando – duas garotas estimulando-se sexualmente. Isso, eu sei (pois é!), está em todo (repito: TO-DO) filme pornô que se preze – nossos professores do sexo, bom lembrar -, e os marmanjos adoram. A prática da homossexualidade não está necessariamente condenada na mentalidade do brasileiro (especialmente dos homens), mas por que de noite aplaudimos o lesbianismo explícito e de dia quebramos lâmpadas na cara de dois gays andando pela rua? Insegurança? Medo do “dominante” tornar-se o “dominado”? Pois se o argumento do típico macho-alfa é conhecer o funcionamento da mentalidade de outro homem (pensar em sexo 110% do tempo, pois é), seu repugno de gays demonstra nada menos que ele mesmo não sabe a diferença entre olhar libidinosamente e praticar atos não consentidos. Todo homofóbico seria, portanto, além de um inseguro da própria sexualidade (essa é clássica), um estuprador em potencial! Onde está seu Deus agora, macho-alfa?

Isso, claro, não tem a ver com os gays engraçados, que tanta gente acusa hoje na novela das oito como favorecedores da “ditadura gay” – o cara que inventou esse termo merece cadeia, pelo desserviço prestado. Damos risada com o Félix, demos risada com o Crô. Aliás, o Crô acabou de virar aposta de blockbuster nacional do ano! Nós gostamos de gays, e não é de hoje: o saudoso Jorge Lafond e a Vera-Verão que o digam. Desde que, claro, o Crô ou o Félix sejam estereótipos meramente comportamentais e sem qualquer expressão de sexualidade – não a toa, o Relatório Juventude e Sexualidade da UNESCO aponta que, no Brasil, um em cada dez (DEZ!!!) homens declarados heterossexuais são, na verdade, homo ou bissexuais enrustidos abdicando da plenitude de uma vida sexual feliz e saudável! Ah, evidentemente, é também importante que eles não sejam nossos filhos: filho nosso vê pornografia desde criança, aprende que aquilo sim é que é bom. O menino é condicionado a ser “machinho” ainda pequeno, nos mínimos estereótipos como até mesmo a prática de esportes – como já discutimos aqui. Até acredito que colocar uma roupa com dizeres eróticos em inglês seja algo “acidental” (embora o “sex” estampado seja algo meio linguisticamente universal), mas alguém duvida que, num país machista e homofóbico como o nosso, esfregar bocetas na cara de nossos filhos pequenos ainda seja uma artimanha de pais heteronormativos e que NÃO acontece “sem querer”?

Ok, então, como é que se desembola tudo isso? Eu, blogueiro, não sou terapeuta sexual nem nada parecido (e adoraria muito que surgisse o parecer de um profissional sobre os absurdos que escrevi aqui, ali embaixo no campo dos comentários), mas ainda acho que a primeira medida é – oh, novidade – a instrução pela educação. E não só no sentido escolar, aquela coisa de “dia de palestra sobre AIDS”: também a educação familiar, essa ideia de “filho, senta aqui, vamos conversar sobre sexo” mesmo! Educar sexualmente o filho não é simplesmente enfiar uma camisinha na carteira do guri, expô-lo ao sexo explícito e deixar o resto da tarefa com a TV e suas ideias erradas sobre a sexualidade humana – onde gordas são inúteis pra trepar, é normal foder em provadores de loja de roupas e gays insistem em gostar de comer mais mulheres que o Zé Mayer! O Relatório Juventude e Sexualidade da UNESCO mostrou: uma em cada três (TRÊS!!!) mulheres no Brasil não falam com suas filhas nem sobre menstruação! Um em cada dois (DOIS!!!) jovens homens brasileiros aprendem sobre sexo apenas na aula de biologia que disserta sobre a anatomia do sistema reprodutor – portanto isento de qualquer informação adicional sobre a expressão da sexua-LIDADE humana!

E pronto: toda informação necessária pra ser um adulto sexualmente saudável e feliz

E pronto: toda informação necessária pra ser um adulto sexualmente saudável e feliz

Claro, evidente, uma fórmula única não é suficiente para que todos nossos problemas de conduta sexual sejam resolvidos. Tão diferentes quanto a sexualidade de cada um são as opiniões de cada um sobre o assunto. Infelizmente, várias delas ainda carregadas de preconceitos, sexismos, “não-cristão-ortodoxo-fobias” e afins, mas infelizmente isso ainda é um direito. Tudo bem. Talvez – e principalmente – por isso, é importante que uma medida simples e prática, acessível a qualquer brasileiro comum, seja tomada com certa urgência: que tal se, ao menos, cada um começar a trabalhar na “revolução sexual do país do sexo” enfiando sua opinião apenas no seu próprio lulu?

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Comentários em: "Enfia no Lulu: notas sobre a necessária reforma sexual no país do sexo" (1)

  1. que bichona

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