Crônicas de um país sem sobrenome

É com satisfação que, mais uma vez, digo (volto a dizer) por aqui: boa noite, caro leitor! Andei sumido, é verdade: o último texto ainda é de antes do ano-novo. É quase um crime deixar um blog às traças como deixei: aclimatação a um novo ambiente, a um novo trabalho (cargo público, cargo estadual! Amém por isso!), a uma nova casa, a uma nova cidade! E não apenas uma cidade: é São Paulo, sonho de consumo deste humilde blogueiro desde criancinha! O menino da roça, ao que parece, finalmente chegou!

Pois soma-se essa nova vida, essa nova rotina, esse novo-tudo que ando passando, mais um certo desânimo em prosseguir com o blog (cada vez menos parece ter assunto), eu sumi. Peço, humildemente, seu mais sincero perdão, e proponho-nos um novo recomeço. Pois, sim, tive motivo: São Paulo, onde as coisas acontecem. E eu enfiei meu nariz nesse pique de “centro do mundo”, e claro, não pude perder (embora acho que perdi, como explicarei posteriormente) a primeira chance de circular por minha primeira passeata contra ela: a temida Copa do Mundo! Em formato diferente, talvez: esse blog privilegia o tom dissertativo em detrimento do relato, mas acho uma boa tentativa de reengreno… me permite? Posso voltar à absurda pretensão de produzir pseudo-análises sobre o Brasil?

Tudo começou quando, por facebook, a Vanessa Bárbara, a colunista mais odiada da Folha de São Paulo (mas nem de longe isso se reflete em sua qualidade, ao contrário) tascou em sua timeline que hoje haveria mais um Ato Não Vai Ter Copa, bem ali no vão do Masp (ou, na minha língua, “do ladinho do meu novo serviço”). E, é claro, aceitei o convite: caminhei após o expediente por uns cinco minutinhos, numa garoa daquelas danadas de fria, e me dirigi à até então pequena concentração no famoso vão livre do museu. E, ao que senti, ao dar o primeiro passo nos paralelepípedos daquele lugar, entrei em outra dimensão surreal – ao menos pra esse rapaz caipira aqui. Sim, caro leitor: sou maior de idade, moro agora longe da família e pago minhas contas, mas ainda há – e sempre haverá – um quê de interior dentro de mim, que me fez muito estranhar as coisas que presenciei (e que antes havia mais ou menos visto apenas pela TV).

De cara, avisto vários grupos devidamente agasalhados (sim, estava frio) e… mascarados. E o ato nem tinha começado. Eu, pé-vermelho que sou, arrepiei com a necessidade de, antes mesmo que o ato começasse, usar algo que tapasse o rosto dos manifestantes. Pra que? Qual era o receio? Vou além: é receio ou é cultura? Não entendi. E foi só o primeiro ponto que não entendi…

Estava sozinho, não tive com quem conversar – e não sou de se enturmar com completos estranhos logo de cara (ou, nesse caso, sem-cara). Mas eles se conheciam, por debaixo dos panos identificavam seus amigos, os abraçavam, gritavam seus nomes em direção ao encontro um do outro – e eu querendo saber como raios conhece-se alguém só com os olhos de fora… Queria ter encontrado a Vanessa, para ter com quem conversar e, claro, para agradecer pessoalmente o maior ápice que este blog já atingiu, ser citado uma vez na Folha de São Paulo, mas não tive como fazê-lo. Resolvi circular, estudar o terreno. Avisto vendedores de capa de chuva, amendoim, lanches naturais. Uma bela jovem pichando uma faixa amarela, a escrever os dizeres “Fifa Go Home” – no meio de um turbilhão de fotógrafos. De repente, os fotógrafos correm para um canto do vão livre: há uma aglomeração ali. Mascarados levantam cartazes: “não vai ter copa”. No meio da roda, uma fumaça: algo está queimando, aos gritos e urros dos sem-rosto. Vejo um pedaço de pano verde voando em brasas, e reconheço: era uma bandeira do Brasil. Eu, em minha opinião estritamente pessoal, repudio qualquer atentado à bandeira nacional – não por algum tratado militarista-ufanista-código criminal, mas por não partilhar desse sentimento: eu conheço, sim, vários problemas do meu país, mas ainda o amo. Sempre amarei minha pátria. Na minha modesta interpretação, queimar o símbolo da nação é como renegar a nação, e isso eu jamais farei….

Levanto os olhos mais um pouco: a turba já é significativamente maior que quando cheguei – deve ter durado uns 10 minutos no máximo esse intervalo. Avisto bandeiras vermelhas: partidos políticos. Bandeiras da causa homossexual. Um caixão de papelão, com dizeres que, na posição onde estava, não consegui ler. Cartazes frescos espalhados pelo chão (tinham algum dono?), armando uma roda no meio da, a essa altura do campeonato, já uma multidão. Pergunto a dois mascarados qual o itinerário da passeata (queria ter perguntado sobre a necessidade da máscara – faltou-me coragem), no que fui prontamente ignorado. Avisto outra bela moça, a única que, ao cruzar o olhar comigo, me encorajou a abordagem: ela também não sabia o que iria acontecer. Resolvi apenas ficar por ali…

Aos poucos, avisto: um policial, dois policiais. Uns dez metros adiante, dois mascarados a encará-los, fixamente, como se os conclamasse à provocação mútua. Súbita tensão abateu-me. Tentei ver se os policiais tinham identificação no colete: não consegui. Mas vi um deles com uma câmera acoplada ao colete – nem sabia que eles faziam isso. É verdade, diga-se, nada aconteceu enquanto estive ali. Mas senti na pele que a coisa poderia, sim, piorar muito – e isso numa manifestação que teria tudo pra ser “pacífica”, como a mídia que sempre me chegou à minha pitoresca Cajamar sempre disse. Fico ainda mais tenso ao ver, uns cinco metros de mim, dois fotógrafos e uma mocinha portando microfone vestindo um colete identificando-os como imprensa, além de um… capacete de ciclista! E não haviam bicicletas com eles por ali! O menino da roça que quer a todo custo abraçar SP sentiu um calafrio na espinha que há tempos não sentia! Cristo…capacetes???

Começam as batucadas. E merecem um capítulo a parte… uma verdadeira bateria, muito bem ensaiada e ritmada, entoa gritos de ordem de rimas relativamente simples – bem que a Vanessa orientou-me sobre a pobreza das rimas -, quase inaudíveis no meio de tanta percussão. Gritavam sobre a presença indesejável da Fifa, sobre “o enfermeiro que vale mais que o Neymar” (cantei a mesmíssima coisa em junho, mas era o professor o cara mais valioso), sobre o sonho do poder popular. Confesso que, na minha ingenuidade, não entendi muita coisa: em teoria, a democracia é o poder dos governantes, sim, mas legitimados pelo popular.

Estava amedrontado, confuso, com frio, fome e sozinho. Senti-me acuado. E logo em seguida fui embora, pois tremi de medo: dois mascarados, uns dois metros à minha direita, apontaram pra mim (!!!!), e seus olhos disseram não aprovar o que viam. Eu, um cara quieto, observando a multidão, de braços cruzados e dois metros de altura, e… com um bendito crachá do meu serviço pendurado à minha cintura! Foi quando me dei conta do enorme vacilo que cometi: o crachá identifica “Governo do Estado de São Paulo”! Não foi a toa que gerei desconfiança! Encarei a chuva já forte e, sem demoras, rumei-me ao metrô mais próximo: nessa concepção, misto de confusão mental com vacilo aparente com caipirice típica de quem acabou de chegar ao miolo da sociedade brasileira (São Paulo! Tudo acontece ali!), achei mais seguro correr pra casa!

Quais as lições de hoje, caro leitor? Muitas. Mesmo. Mesmo com essa “quase-experiência” frustrada por ingenuidade que tive no meu primeiro  Ato Contra a Copa. Para fins didáticos – leia-se, para não enrolar demais -, enumero-as:

1-) O espírito está vivo! Eu, até então morador do interior de SP, via as coisas ainda acontecendo apenas pela TV e pela mídia impressa, mas desde junho senti-me muito angustiado por perceber que aquela surrealidade do inverno de 2013 parecia ter morrido. Estar lá, mesmo que quase não estando, me fez perceber que sim, o brasileiro ainda não desaprendeu a reivindicar! E isso é lindo! Foi só por isso que eu paguei R$3,00 para voltar pra casa, e não R$3,20. Devo lembrar-me disso a cada vez que embarcar no metrô! Devo, acima de tudo, agradecer aos mascarados que, como vimos lá em 2013, mantiveram vivo esse pique fantástico das manifestações.

2-) Ainda falta um quê de propósito. A exemplo do que foi o ano passado. Ainda percebo aquele Fator Spoleto quando vejo uma manifestação contra a Copa com a pauta “saúde” (é contra a Copa ou a favor da saúde?). Quando vejo bandeiras de outras causas e partidos políticos em meio à turba – há que lembrar-se, os partidos eram abertamente rejeitados no Junho Insano…

3-) Mesmo nas manifestações chamadas “pacíficas”, o clima é sempre tenso. Muito mais tenso do que se imagina. É claro, isso é a interpretação de um novato metido à blogueiro descolado pela turba, mas é indiscutível que não havia “paz” (no sentido literal da palavra) no ar. Se por acaso resolver embarcar numa dessas algum dia, caro leitor, vá preparado. Vá sabendo disso. Amanhã eu confiro os veículos de mídia pra saber se eu estava ou não num lugar “pacífico”…

4-) Ainda há quem ache que a Copa não deve acontecer. Eu, particularmente, quero SIM que a Copa aconteça, acho de verdade que o tempo de manifestar-se contra a Copa ficou muito atrás, quando ainda éramos os apáticos brasileiros de 2010.  Agora, com todos os bilhões já desperdiçados e vidas que já se foram, que ao menos um tímido retorno seja sentido: é melhor um elefante branco que fora usado uma vez que um elefante branco sem nunca ter sido usado. Mas isso, claro, é apenas a minha opinião: sinta-se completamente a vontade para discordar de mim nos comentários, querido leitor! 😀

5-) São Paulo é difícil. Não é para os fracos. Enfiei-me num turbilhão de acontecimentos quando ainda nem sei em qual ponto desço quando pego o busão pra casa! Preciso esperar, pegar a manha, ter a malícia. Preciso aprender ainda a comer decentemente sem dar um rim na hora da conta, a saber descer no ponto certo sem ter que perguntar pra algum outro passageiro, a discernir que um cutucão involuntário na bolsa nem sempre é motivo pra se checar o zíper, a andar no metrô sem segurar nas barras (acho lindo, a primeira vez que vi isso quase sugeri ao sujeito que se inscrevesse no Se Vira Nos 30). Tenho mais medo da Paulicéia Desvairada do que imaginava. Acho que, no fundo, sempre serei um brasileiro, blogueiro, semi-politizado, mas indiscutivelmente caipira…

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Comentários em: "O que não fazer numa manifestação pacífica, ou: o retorno desconcertante do blogueiro" (2)

  1. Nozesqueavoa disse:

    faliu?

  2. Carlos Santos disse:

    Nada mais de atualização? mais de UM ano e nada.

    Blog falido

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