Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para novembro, 2016

A despedida

Muito tempo se passou desde a última vez em que desempoeirei esse espaço, para escrever qualquer coisa sobre o que penso a respeito do cenário político / social / econômico / et coetera brasileiro. Muitos, inclusive este que vos fala, já haviam se esquecido da existência desse modesto espaço de opinião. Mas algo dentro de mim ainda falava: “não acabou”. Precisava acabar de uma forma digna. Sabe quando a vida de um bichinho de estimação se esvai, você fica triste e abandona o corpo no matagal próximo de casa mas depois fica pensando que ele merecia um final mais cerimonioso? Pois bem, aproveitando-se da coincidência “feriado prolongado / aniversário do blog” (sim, hoje faz seis anos do meu – ainda xodó – primeiro texto), eis que a despedida que eu esperava chegou.

Nunca consegui dizer com clareza para as (poucas, porém maravilhosas) pessoas amigas que me perguntavam o que havia acontecido com esse blog, que em uma determinada época havia atingido crescimento de influência e acessos digno de sites de maior popularidade, e por que eu havia encerrado as atividades. Nunca houve uma forma sucinta e coerente para que eu expressasse o que sentia com relação ao meu já saudoso BdQ. De forma que sempre pensei nesse site como “algo a ser visto posteriormente”, mas como num relacionamento amoroso / afetivo que se desgasta com falta de manutenção e compromisso, até quando postergaria esse “vai ou racha” que agora estou rachando? Conversando recentemente com uma grande amiga, daquelas de mais de uma década de trocas e carinho, ela me incentivou a escrever as linhas que agora esboço. Pelo menos por enquanto, é o fim.

Não que você, caro leitor amigo que sei lá se ainda está por aqui, precisasse disso: a vida de absolutamente todos continuou relativamente igual depois da suspensão de novos textos, mas se me permite um momento egocêntrico, quem precisava disso era eu. Não sei mais se neste momento estou ainda escrevendo para alguém: o que sei é que estou aqui redigindo essas palavras ao menos para mim. Mas caso você leitor ainda exista por este antigo espaço, agradeço se quiser continuar a ler abaixo, para entender meus motivos. Permite? Pela última vez quer vir comigo? Em nome dos velhos tempos, pegue daí um café bem doce e acompanhe:

1-) A internet mudou. Nos finalmentes de 2010, quando lancei esse sitezinho, o auge da blogosfera ainda dava resquícios de existência. Ainda parava-se para ler, refletir, e no meu caso, escrever alguma coisa. Textões, grandes, gigantes, foram produzidos por gente muito boa – e não, não estou me incluindo nessa. O que temos hoje, ao contrário, é uma internet muito mais visual, mais voltada para produção de conteúdo (também muito bom, diga-se) em outras mídias, especialmente vídeos. Ninguém mais tem tempo e paciência para parar e ler algo de tantos caracteres e infinitas clicadas na barra de rolagem. Fato é que eu não me adaptei, não saberia produzir outro tipo de mídia que não fosse ainda meus textos. E não vi atrativo algum em apelar para um “pseudo-vintage” e tentar resistir bravamente com minhas incontáveis dedadas nas teclas do meu notebook. C’est la vie.

2-) Eu mudei. Este que vos fala, e que vos falou tantas vezes por aqui, caro leitor, como você pode conferir na minha bio, é um geógrafo e professor de geografia de – hoje – trinta e três anos. Quando abri este ainda tão querido espaço do BdQ, passava por um momento conturbado da vida em que tinha disposição e principalmente tempo para despejar dedadas no meu teclado. Nunca escondi de ninguém que o BdQ foi absolutamente importante pra minha vida por razões muito pessoais, numa época em que muita coisa dava errado e as horas acumuladas dentro de um quarto sem muitos propósitos na vida eram cada vez mais numerosas. Assim como acontece com todos – e que bom que é assim -, o destino me proporcionou mudanças drásticas: consegui um emprego que me toma um tempo considerável, mudei de uma cidade pequena para a maior metrópole brasileira sem abandonar minha docência em dois cursinhos preparatórios nas proximidades da minha vila de nascimento, e vi meu tempo e minha capacidade cerebral em refletir profundamente sobre um tema se esvair em poucos meses. Não que tenha me tornado um alienado às causas e questões sociais, mas o amigo leitor deve entender o ritual: para que antes eu produzisse um texto do tamanho padrão que estava habituado, eu estudava o tema pela internet por horas, em alguns casos dias, e o mesmo tempo era gasto posteriormente para esboçar as reflexões que apresentei. Simplesmente não me era mais possível, ao menos não com a assiduidade que prometi a mim mesmo uns anos atrás. Além disso, não raro eu gestava uma ideia que me parecia digna de ser despejada, quando antes mesmo de começar a redigir deparava-me com um texto idêntico ao que havia planejado, escrito pelas mão muito mais habilidosas de um Leonardo Sakamoto, um Gregório Duvivier, um Matheus Pichonelli, e tantos outros profissionais da escrita que, por prática e com incentivos financeiros maiores que os meus -além de uma maestria infinitamente superior à minha parca habilidade -, publicavam antes que eu a ideia outrora tida, com uma proeza que me seria impossível sequer chegar perto. Qualquer esboço então pareceria um plágio involuntário e de péssima qualidade, e o texto que havia gestado não veria a luz. E assim, vi os textos rareando, e rareando, até que abandonei por completo a prática de produzir conteúdo por aqui. Espero mesmo que me entenda.

3-) Eu mudei (2). O leitor desse site, aqueles que ainda existem, bem como meus amigos mais próximos, sabem que eu, Rafael, independente de quaisquer observações acerca de talento ou falta dele para tal, sou um cara que sempre gostou muito de escrever. Sempre tive mais afinidade com a escrita em muitos casos que com minha própria oralidade, minha capacidade de transmitir uma ideia ou um sentimento verbalmente. Escrever sempre me foi libertador. Exprimo sentimentos pela caixa de atualizações do facebook com mais facilidade do que conversando pessoalmente com alguém. Tenho um site secreto de poesias. Esse meu gosto não mudou, amigo: o que está diferente é meu maior apreço por outros tipos de escrita. Em parte pelos motivos que você poderá conferir adiante, hoje em dia tenho mais vontade de escrever sobre coisas diferentes, propostas diferentes de textos que certamente não se encaixariam na proposta original do BdQ. Que me desculpem os que insistem (os quais eu agradeço muito, de coração), mas eu sou apenas um cara na casa dos trinta anos e que posso me dar o direito semi-egoísta de querer mudar. Simplesmente acontece, e – fora do meu controle – foi o caso. Desculpas desde já pedidas a quem achar que merece um pedido de desculpas por isso.

4-) O Brasil mudou. De tudo o que usei até então como motivo para o encerramento deste espaço, esta é com certeza a parte que mais me dói. Quando pensei com amigos num bar e criei o BdQ, nos idos de 2010, vivíamos num Brasil que me era incômodo por motivos bem diferentes dos que me afligem hoje. Pertencíamos a uma sociedade apática, vazia de engajamento político, que via sucessivamente escândalos e mais escândalos na televisão sempre de uma forma irritantemente passiva, tão passiva como com relação aos problemas sociais que todo mundo conhece mas ninguém se dá ao trabalho de encarar de frente. E por muito tempo minha maior bandeira foi que nos espelhássemos nos irmãos que guerrearam contra um sistema ditatorial como o dos anos 80 e conseguiram derrubá-lo às custas de muito suor e sangue, para que pudéssemos exercer nossa democracia e nosso poder popular que, até então, viu apenas um lampejo manipulado quando do impeachment de Fernando Collor no começo dos anos 90, e só. Muitos dos nossos irmãos de guerrilha perderam muita coisa, e nosso silêncio ao que nos acontecia parecia-me absurdamente injusto. Até 2013, os vinte centavos, as bandeiras em marcha em trocentas cidades Brasil afora, os black blocks. Algo estava acontecendo. Lembro-me do texto que mais teve acessos e compartilhamentos deste blog, quando, emocionado, convoquei nossos irmãos a unirem-se aos manifestantes da rua. Este blog nunca havia feito tanto sentido: parecia-me que um país novo estava para nascer, e certamente a sociedade precisaria de material para refletir sobre o “Brasil Novo” que nasceria a partir dali. O país que eu veria um tempo depois, no entanto, passou longe do que eu sonhei: lá em Brasília tudo continua nos mais perfeitos moldes engessados do bipartidarismo, com a diferença que – sabe-se Deus como – arrastamos para fora do Planalto Central um maniqueísmo político torpe e patético que me dá um desgosto danado!! Ninguém mais reflete, pensa, lê um texto de olhos e peito aberto: quando lê (se lê), o faz procurando mínima e toscamente traços de um posicionamento partidário que, no meu caso, nunca existiu. Já na segunda linha o leitor moderno me acusa de “petralha”, “comunista”, “vai pra Cuba”, “mama na Lei Rouanet” (bem que eu gostaria), “doutrinador”, “vagabundo”. E se antes esse estranho tipo de ataque acontecia em textos em que defendia uma ou outra ação subversiva à ordem, com o tempo eles começaram a acontecer até em reflexões sobre posicionamentos que sempre me pareceram muito mais consensuais e clichés: eu sou vagabundo até quando defendo coisas absolutamente triviais como o respeito à Constituição!! Mesmo os ~do meu lado~: ao que parecia meus textos eram mais compartilhados do que realmente lidos, como uma espécie de “munição” contra ataques dos que pensavam de forma oposta – justo eu, que sempre defendi que usassem as caixas de comentários de cada produção minha justamente para que os opostos aparecessem, e civilizadamente debatessem: sempre foram e continuariam sendo muito bem recebidos. Fatalmente passei a me perguntar: ainda fazia sentido para mim tentar ajudar o leitor a pensar quando este se ilude, quando ele considera como sua principal função apenas identificar minhas afinidades de pensamento e me escrachar por isso, abortando qualquer tentativa de reflexão já no segundo parágrafo? Pra que gastaria um tempo que já não me abundava, com algo que me traria mais desgosto do que a alegria de saber que estaria ajudando alguém a formar pensamento crítico? Talvez você, caro amigo, tenha razão em julgar-me como precipitado, afobado, como “o cara que desistiu muito fácil”, mas este Brasil que se mostrou meses, anos depois daquele inesquecível junho de 2013 definitivamente não era o que eu sonhei. Não era o que eu queria. Minha vontade de escrever foi se esvaindo. E o terrível ano de 2016, que certamente ficará marcado na história como um dos mais sombrios que a sociedade brasileira jamais terá visto, só faz confirmar o que eu já sentia: vontade de desistir do BdQ. Um final melancólico, mas infelizmente mais real do que consegui expressar nessas linhas.

O zumbi do que um dia foi esse site ficará no ar, por três motivos: primeiramente Fora Temer ele não é feito por apenas duas mãos, mas por seis, e tenho amigos que, muito embora não se manifestam por aqui há mais tempo do que eu, tem o direito de ver que o espaço ainda existe se um dia eventualmente quiserem retomá-lo. Segundo, as estatísticas da plataforma WordPress apontam que alguns dos textos que já foram publicados neste site  ainda são frequentemente consultados – não sei os motivos, mas se estiver ainda ajudando alguém, não tem porque fechá-lo oficialmente. E terceiro, talvez o mais importante, acho que ainda me resta beeeeeeeem lá no fundo um fiozinho de esperança, de que um dia algo mude, na minha vida pessoal ou no país, e eu retome de alguma forma as atividades deste espacinho: teria preguiça de fazer tudo de novo, domínio, layout, biografia. Não sei quanto a vocês, seja lá quem for o “vocês” que ainda insisto em me referir neste derradeiro desabafo, mas eu me diverti bastante por aqui: espero que vocês também tenham gostado. Houveram momentos memoráveis, ao menos para mim. Sentirei saudades de tudo, e certamente levarei como bagagem e experiência pra trocar com seja lá quem queira trocá-la comigo um dia.

Caros leitores (pela última vez referindo-vos desse modo), tenham sempre uma vida linda e repleta de realizações e felicidades!! E que Deus (o meu, o seu, o de todo mundo mesmo que Ele seja apenas nós mesmos) olhe por esse nosso país maravilhoso, amém.

Grande, forte, ENORME ABRAÇO!!  🙂

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