Crônicas de um país sem sobrenome

De todos os ditos populares que já ouvi por esse “Brasil do Que” que nós lidamos desde o começo desse blog, caro leitor, acredito que nenhum tenha me chamado tanta atenção como esse muito recente hit do vocabulário popular, que dá título a esse texto. Confesso, fico absurdamente intrigado toda vez que escuto alguém pronunciar essa frase. Mexe comigo. Me incomoda, me tira de minha zona de conforto. Balança meu senso de Brasil, meu ideário de “como as coisas são em nosso país”. Parece-me, “não sabe brincar, não desce pro play” é muito mais que um dito popular: é o símbolo máximo de uma verdadeira revolução na sociedade brasileira, algo que merece ser estudado, criticado, analisado com extremo cuidado.

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Todo dito popular, em síntese, é uma metáfora, que traz consigo uma conotação ou uma “lição” aprendida em algum pequeno gesto, e que vem necessariamente de alguma experiência ou vivência que está inserida fortemente na cultura popular, no cotidiano do cidadão comum. O dito popular que vem de um comportamento específico de alguma classe torna-se vocabulário de nicho, pra poucos falantes e principalmente poucos entendedores. Não me parece o caso deste, caro leitor. O Brasil todo fala “não sabe brincar, não desce pro play”: está definitivamente na boca do povo. E o revolucionário do dito em questão encontra-se não na mensagem que se quer passar: o que mais espanta é, de fato, a experiência ou vivência inserida na cultura popular.

Analisemos profundamente a experiência de descer pro play, independente de o indivíduo em questão saber ou não brincar. O “play”, ao que tudo indica, é o playground, o parquinho coletivo, onde as crianças (entendo ser as crianças pelo uso do “brincar”) se reúnem para atividades lúdicas com seus vizinhos. Em qual tipo de vizinhança temos o play? É claro, temos vários parques públicos espalhados Brasil afora, mas quase sempre são mal cuidados, mal iluminados, cheios de mato, daqueles lugares que parecem ter mais “vida” a noite que durante o período de luz – e a “brincadeira” praticada não é exatamente algo lúdico, muito menos infantil.

É, parece que não...

É, parece que não…

Assim, parece-me que falamos, aqui, de um parquinho fechado, daqueles dentro de condomínios. A propósito, arrisco ainda dizer se tratar de condomínios verticais, desses com portarias e torres e estacionamentos espremidos, quase sempre todos iguais: o fato de ter que “descer” pra se dirigir ao play indica minimamente a necessidade de uma escada, ou elevador. E se o dito popular é algo que vem de experiências cotidianas, é nesses lugares em que a maioria das crianças tem que descer para ir ao play. Parece correto.

Ora, de repente temos a constatação: “não sabe brincar, não desce pro play” nasceu dentro de condomínios! E, acima de tudo, se um dito popular é algo que nasce dentro de uma vivência cotidiana do povão, parece agora que o condomínio, esse mesmo que uns anos atrás era sinônimo de status e riqueza, está agora inserido na cultura do povão! É cada vez mais aceitável que o cidadão comum está agora também nos condomínios! Não há maior símbolo do novo poder de consumo e da redistribuição da riqueza nacional que este mais novo e incrível hit dos ditados populares Brasil afora! É um povão que, se antes se amontoava nos bairros de média e baixa renda, agora se acomoda em novas moradias verticais, com poder de consumo suficiente pra morar num condomínio com elevadores e plays – e filhos que precisam descer até lá pra, caso saibam usar os equipamentos disponíveis, realizar suas recreações! Haveria como ser mais fantástico?

O novo centro formador de filosofias nacionais.

Muita filosofia num só pneu rosa.

Só que, se no meio das crianças elas mais ou menos se acertam e aprendem a brincar corretamente nas possibilidades que o play oferece, no mundo dos adultos que voltam pra seus apartamentos no fim da noite é drasticamente diferente. Não deixa de ser fantástico – e merece ser sim muito noticiado – esse novo cenário de redistribuição de renda, mesmo que ainda bastante tímida. É algo sem precedentes na história da nação, indubitavelmente mas que deixou de vir acompanhada de uma vasta gama de aparatos necessários pra que a vida nesse novo play da nova classe média fosse lugar mais seguro pra essas “crianças”. Sem educação financeira, sem planejamento familiar… sem educação no geral (naquele sentido “escola de qualidade” que sempre me referi), os recordes de distribuição de renda e de novo poder de consumo veio acompanhado de outros recordes colaterais, certamente menos mostrados na clássica mídia brasileira. Dentre eles, os recordes de cheques sem fundo por ano, de inadimplência, de cadastrados nos serviços de proteção ao crédito. O brasileiro nunca ganhou tanto na vida – e nunca foi tão caloteiro!

Flecha subindo sempre parece uma coisa legal, né?

Flecha subindo sempre parece uma coisa legal, né?

Motivos? Vários. Desde o sonho de consumo fácil (o famoso “dar o passo maior que a perna”), até falta de preparo com a nova realidade, vinda tão drasticamente pra todos. Atire a primeira pedra quem nunca assinou um contrato qualquer, sem ter lido todas as linhas miúdas antes do espaço da assinatura, pra comprar algum móvel nas Casas Bahia ou pra arrumar um novo financiamento naquele banco camarada… e só descobre que concordou com as normas que acabaram de o prejudicar quando vai atrás dos pormenores dos causos! O brasileiro não lê, muito menos em grande quantidade, muito menos em letras tão pequenas e em juridiquês ou financeirês! E parar o cidadão comum do condomínio ir de crediário a devedor, e de devedor para “super-devedor”, é algo tão rápido quanto sua ascensão à nova classe média. Deram-lhe dinheiro: não lhe ensinaram o quanto vale, nem a gastar com prudência.

E já que falamos agora de “quanto vale o dinheiro”, é a hora de falarmos de mais um fenômeno que colabora em muito para tudo isso. O novo poder de consumo da classe média, agora com mais dinheiro no bolso (e sem instrução de como gastá-lo, lembre-se), vê em sua frente a chance de uma vida que jamais sonhou há alguns anos e décadas atrás. Não só é possível ter um apê em condomínio com play, mas também mobiliá-lo, com geladeira novinha, fogão de seis bocas e mesa de jantar! Só que essa mobília gera novas necessidades, e a partir daqui, o poder de consumo cria todo um novo padrão de consumo desses novos gastadores nacionais. O filho vai ter danoninho todos os dias. O dispenser de cerveja tem que ter latinhas todo final de semana. A gaveta de legumes terá sempre tomates frescos (oh, tomates…). Daí, bate a tal da inflação, e se mal houve preparo para que o cidadão comum pudesse aprender a gastar, menor ainda é a sua capacidade de reduzir seu padrão de consumo: com os mesmos hábitos gasta-se cada vez mais, e se antes o endividamento era oriundo de gastos excessivos, agora ele se dá simplesmente pelos novos gastos básicos do cidadão. Viver traz dívidas!

Sim, eu leio a SUPER.

Sim, eu leio a SUPER.

Oh não, não acabou, leitor. Além de tudo isso, a nova classe média está total e historicamente desacostumada com outros gastos não menos importantes: a manutenção do poder de consumo. De cara, lembremos dele: o famigerado Leão do Imposto de Renda. Entendeu bem? Imposto de Renda! Você paga imposto apenas pelo simples fato de ter renda! Mas se esse ainda é algo a ser “esquecido” ao longo do tempo (e recordado com ódio no meio do ano), temos outros amigos impostos, vários. Apenas em janeiro que o novo endinheirado lembra que aquele Novo Corsa Zero que comprou ano passado tem o tal do IPVA mais DPVAT, que o cara nem sabe o que significa a sigla mas que tem que ser pago, sob o risco de perder o bem. O condomínio tem a taxa básica mensal, além do IPTU. Algo que pode ser guardado ao longo do ano, para que no temível mês dos impostos tenha-se como acertar as dívidas governamentais, certo? Errado: o brasileiro não guarda! Sobrou dinheiro no fim do ano? Viagem, pacote CVC em 45 prestações (e aquela entrada que leva todas as suas economias) pra algum país do Mercosul. Divertido, todos voltam felizes – e falidos.

Um sorriso a mais no rosto de uma criança (e um endividado a mais batendo a foto)

Um sorriso a mais no rosto de uma criança (e um endividado a mais batendo a foto)

São tantas as formas que o mesmo Governo que redistribuiu a renda tem para tirar do brasileiro a mesma renda que deu, que algumas delas chegam a beirar o absurdo. Observe o caso dos moradores de Pirituba, em São Paulo: bairro de ruas íngremes (e nós sabemos que “ruas íngremes” e “gente pobre” tem associação direta nesse nosso Brasil), os moradores agora podem comprar mais carros. E isso gera a necessidade de refazer a fachada da casa, para adaptar uma garagem. Só que, para que o carro entre na garagem, a calçada em forma de ladeira precisa ser reconstruída em degraus, para que minimamente o carro acesse a nova garagem, certo? Errado novamente: calçada irregular gera multa um belo valor de três dígitos por metro linear de calçada! Ou seja: vc gastou pra fazer sua calçada, terá que gastar novamente pra desfazer a sua calçada, e ainda entrega ao Governo um salgado quatro dígitos pelo “erro” que ninguém informou!

Para que o morador possa andar... pobre.

Para que o morador possa andar… pobre.

Pra encerrar, caro amigo: o que fica claro, aqui, é que se existe uma óbvia redistribuição de renda, propagandeada aos quatro ventos por quem interessa propagandear, embora isso seja algo fantástico traz consigo efeitos colaterais bastante imprevisíveis. Se você pensou em “educação” como solução pra tudo isso, eu também digo que sim. Mas o fato é que, por enquanto, ninguém está ensinando essa gente toda como se usa corretamente e com responsabilidade os brinquedos deslumbrantes desse novo play – e todos estão morrendo de vontade de descer e brincar…

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PS:  É bem provável que este autor que vos fala tenha que dar uma espaçada sensivelmente maior no tempo que demoro para jogar coisa nova aqui nesse espaço, caro leitor. Mas ao menos o motivo é nobre: eu e mais uma amiga assinamos a nova Coluna do CES no Jornal A Verdade, de Várzea Paulista. O panfleto semanal já tem duas edições com textos meus que, embora menores e mais simples que esses colocados no BdQ, demandam uma periodicidade bem rígida, um compromisso inadiável – diferentemente do meu compromisso por aqui, onde (oh, que arrogante: desculpe!) posto quando quiser.

Acompanhe minhas neuras por lá também! É um outro tipo de texto, mas com temáticas bem parecidas com as abordadas neste nosso modesto blog. Clique aqui pra ver o site do jornal, e clique nas edições para entrar no navegador virtual. A Coluna do CES existe desde a edição de 24 de maio, você a encontrará sempre na página 2!

Ah, e se não sabe o que é o CES, esse novo projeto de vida que está me dando muito prazer e realizações pessoais e profissionais, clique aqui pra conhecer! 😀

Pra começar essa reflexão, caro leitor, explicito um diálogo que tive recentemente com minha mãe (sempre muito querida), quando botava a chave na maçaneta da porta de casa, a noite, para me divertir com amigos num determinado final de semana. Segue transcrição, é válido:

– Rafael, não deixe sua mãe muito preocupada, sim? Nossa rua é erma, não volte muito tarde.

– Mas por que a senhora fica tão preocupada quando saio a noite de casa?

– Você sabe como anda a violência por aí, tem muita gente ruim vagando pela rua a noite só esperando no escuro pra fazer maldade com gente de bem…

(e agora, leitor, veio o xeque-mate do meu argumento. Não a convenceu, é verdade, mas ajudou a encerrar o diálogo de forma “amistosa”)

– Mãe, eu concordo com a senhora que a coisa anda feia por aí. Mas eu acho contra-filosófico me trancar em casa por isso. Não me privarei de vida social por medo. Penso que, se o cidadão de bem se trancar em casa, o mal terá vencido, não?

Acho desnecessário lembrar ao leitor que já me conhece de tempos aqui no BdQ, que não necessariamente concordo com o que eu mesmo disse: você sabe que não gosto desse maniqueísmo de “gente boa” e “gente ruim”, não acredito que ele exista. Todos temos, afinal, potencial pra sermos “bons” ou “ruins” no sentido que ela quis dizer: do meu ponto de vista, tudo depende das oportunidades que cada um teve. Precisava, no entanto, argumentar com mamãe para mostrar meu ponto de vista, e pra isso usei de certas crenças que ela – exemplificando muitas pessoas incutidas na nossa sociedade do medo – sempre teve, sem que no entanto tivesse qualquer parcela de culpa nisso.

Veja também:

E tudo isso pra dizer que nesse final de semana, São Paulo viu mais uma edição da tal Virada Cultural. Vinte e quatro horas, ininterruptas, de atrações culturais no coração da maior cidade da América Latina. Transporte público funcionando, policiamento reforçado. Tudo isso para que o paulistano e os visitantes do evento pudessem se esbaldar com muita cultura, a escolha do consumidor.

Nas outras noites do ano, essa rua tem “The Walking Dead”…

Paremos pra pensar agora, caro leitor, no que de fato a Virada Cultural significa. Qual é, afinal, a grande sacada do evento, que atrai milhões de pessoas às ruas vermelhas da cidade naquela noite em específico? Ora, todos sabem que São Paulo é indubitavelmente o maior núcleo de efervescência cultural do Brasil como um todo, portanto, será que é apenas a  promoção da cultura que atrai tanto público para regiões que, em outras ocasiões, devem ser “evitadas” pelo “cidadão de bem”? A Virada cultural promove cultura onde já a tem, ao que me parece: talvez, apenas camuflada por um cotidiano acelerado de dia e trancafiado a noite.

E se “o acelerado do dia” é algo que não se pode optar, sobra à Virada Cultural ter a sacada da noite. Ora, parece-me que é pela noite que o evento encontra seu grande trunfo! A Virada Cultural é uma grata surpresa: o paulistano descobre que a cidade continua existindo depois do habitual “bater dos cadeados reforçados” da casa, e com nuances noturnas absolutamente inusitadas que, em ocasiões normais, jamais são reveladas quando encobertas pela tranca e pela televisão como única janela aberta do mundo – janela esta que, não raro, te aconselha a se entregar por completo ao monopólio do acesso ao mundo quando insiste em mostrar as “coisas feias que acontecem pra lá da cerca elétrica”…

Sábia decisão pra nome do novo quadro, Faustão!

Sábia decisão pra nome do novo quadro, Faustão!

Você ainda pode discordar de mim se quiser, caro leitor. Você ainda pode apontar a gratuidade dos eventos da Virada Cultural como outro atrativo para o paulistano arriscar se destrancar de sua casa. É fato que a Virada Cultural jamais seria o sucesso que é se o visitante tivesse que pagar por cada atração que escolhe: muita gente desistiria (eu, inclusive). Mas preciso perguntar: a Virada Cultural é a única ocasião em que há essa tomada do espaço público de forma gratuita? Se já vimos que a sacada da Virada Cultural é mais a noite que a cultura, nas outras noites é preciso pagar pra andar nas ruas, sentar numa calçada, observar uma pracinha com sua família, ou amigos ou relacionamento? Parece-me que não. Admito, no entanto, que deixo de ter argumentos quando se coloca um ponto-chave da Virada Cultural: o tal do policiamento reforçado

A paz é imposta nas ruas. Mas se é imposta, é paz?

A paz é imposta nas ruas… mas se é imposta, é paz?

Sim, as ruas tornam-se mais “a prova de gente ruim” em noites especiais, e isso é um fato. Mas é um fato que, nessa altura da reflexão, não me permite pensar diferente do que te mostrarei adiante:

Lá em cima, mostrei à minha mãe que não quero que “o mal vença”, e prefiro tomar o meu espaço público noturno (que no parágrafo anterior vimos que não deixa de ser público quando noturno) que me enclausurar em casa apenas absorvendo passivamente as informações despejadas da minha TV. Preciso imaginar, caro leitor: e se todos fizessem a mesma coisa? A “rua erma” de mamãe continuaria erma com cada vizinho prostrado em sua calçada, interagindo com o próximo e vendo as crianças brincarem até tarde? Qual é afinal a grande sacada da Virada Cultural, o que faz com que o clima de medo noturno da cidade seja esvaído de sentido nessa única noite do ano? É a cultura? É o policiamento reforçado? Ou seria o simples excesso de gente, um aglomerado de “cidadãos de bem” que, quando se reconhecem como tal, sentem-se mais seguro na coletividade contra os “gente do mal”?

A rua era assim no passado. Pode voltar a ser no futuro?

A rua era assim no passado. Pode voltar a ser no futuro?

Parece um plano arriscado, caro leitor. E admito, sei que para muitos essa “Virada Cultural de cada um ao coletivo”, ou “Virada Cultural da massa para a massa”, o resultado imediato não seria tão positivo quanto parece (aspas do Datena? “O mal sempre acha um jeito de proliferar”…). Mas o que temos como sociedade a perder ao longo prazo ao reivindicarmos juntos as ruas da noite? Já não estaríamos hoje, nessa histeria coletiva desproporcional à qualquer precedente, perdendo o suficiente de nossa qualidade de vida? Pessoalmente, e espero ansiosamente aí embaixo por seus comentários a respeito, o benefício me parece extremamente mais alto que o custo: esvairia-se o medo excessivo, aproveitaria-se melhor as 24 horas do dia, reduziria-se assim o estresse e a fadiga da correria cotidiana,  interagiria-se com outros seres humanos, fugiria-se da TV…

Dá o play aí embaixo, que a música é boa e tem tudo a ver com isso. Tenho a impressão que você deve ter cantarolado esses versos mentalmento ao longo do texto mesmo, rs…

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Espero seu comentário, amigo leitor! Forte abraço! 😀

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PS: boa parte da minha conclusão neste texto se deu quando tive o privilégio de participar de um debate, organizado por uma “nova porém já grande” amiga, no Cursinho CES, outro projeto que recentemente tenho a honra e o privilégio de me envolver e atuar. O tema do debate era violência, e as diversas facetas que essa palavra carrega. Foi certamente uma ocasião extremamente produtiva, saí de lá muitíssimo satisfeito com os resultados! Clique aqui e conheça esse belo projeto de membros ativos da comunidade de Várzea Paulista, “interior-quase-que-não” de São Paulo.

O paradoxo da caxirola

Uma semana se passou: ninguém disse ou escreveu uma linha sequer sobre os 513 anos do Descobrimento do Brasil. Nem o Fantástico, reduto-mor da TV brasileira para assuntos de não tão grande destaque, que era minha última esperança de ver ao menos alguma menção a este que, segundo alguns, poderia bem ser mais um feriado nacional – e por este ano ter caído numa segunda feira, aposto que ninguém reclamaria de um feriado prolongado a mais, certo?

Tenho a impressão que a história brasileira é cercada por assuntos-tabu. Daqueles desagradáveis de se contar. Nas escolas país afora, o MEC aprova um currículo que permite que se conte uma “história dos vencedores”, em que os detalhes sórdidos – dos quais a história do Descobrimento do Brasil é cheia – são encobertos: mostram vergonha, mostram um histórico de ignorâncias com determinadas populações, que hoje convenientemente são ditas como “parte importante da nossa incrível diversidade”… não duvide, caro amigo: os índios que ganharam espelhos não viram apenas um mundo doente: fizeram parte dele. O mundo doente empurrou os dominadores do território pré-colônia à terras absolutamente confinadas, em cantos espremidos e cheios de disputas de interesse. Muitas tribos morreram, muitas línguas morreram. Tipo de coisa que todo mundo já ouviu falar (se de fato ouviu falar) porque o professor “mencionou um certo dia” em sala de aula – se é que houve aula de história na escola. É passado, não importa. Mais.

Talvez, o 22 de abril não tenha sido feriado por simbolizar o nascimento de um país que, na versão oficial dos fatos, nasceu 322 anos depois. O que foi descoberto lá naquele 22 de abril de 1500 não foi um país, foi um território. É essa a visão predominante, quem sabe? E num passe de mágica, resolva-se enaltecer uma história começada lá num certo chilique da independência – e que a barbárie anterior tenha sido esquecida, por fim. Em 1822, o índio já é parte do “povo brasileiro”. Sessenta e seis anos depois, foi a vez do negro ser tortamente inserido na recém-formada ~sociedade tupiniquim~. E pronto: tá aí o país da aceitação à diversidade, onde ainda se espanta com a presença do “índio-povo” reivindicando seu espaço na “casa do povo” – proporcionando as cenas mais lindamente constrangedoras do século, olha aí embaixo – e ainda reluta a elaborar políticas de inclusão das etnias como se isso não fosse absolutamente necessário…

#VergonhaAlheia

Mas não, caro leitor. Hoje estou aqui pra falar da caxirola. Faz uma pausa estratégica, pega um gole de café extra-forte, e faz um buraco no chão pra enfiar a cabeça tal qual um avestruz, que a história a seguir pede, e muitas vezes!

Era uma vez, um tal de Carlinhos Brown…

... que de tão legitimamente "brasileiro orgulho afro-baiano" não se chama "Negro Carlos", optou por Carlinhos BROWN

… que de tão legitimamente brasileiro-orgulho-afro-baiano não se chama “Negro Carlos”: optou por Carlinhos BROWN

… que, num lapso de sabedoria infinita e legitimidade de suas influências na ~cultura brazuca~ – e claro, com um leve apoio de um governinho doido pra fazer média na Copa – resolve criar o que viria a ser o “instrumento-símbolo” da diversidade brasileira. Inspirado no caxixi indígena (chocalho tribal feito de palha seca e sementes diversas), criou a caxirola, para ser usada pela torcida nas partidas de futebol mais ou menos como foram usadas as vuvuzelas na África do Sul, três anos atrás.

Ou seja, Carlinhos Brown transformou isso:

Nisso:

A Dilma deu like. Fez um discurso cheio de palavras-chave, e com pérolas como “liderança na sustentabilidade no mundo” (aspas porque é uma citação, sério). A Dilma chacoalhou a caxirola e encerrou com um lheando “a caxirola vai nos levar a gols”… tá com o riso preso? Assista isso!

#SaudadesVanusa

A FIFA por sua vez, que é quem tem o maior martelo e a quem se quer agradar por tudo o que há de mais sagrado nesse mundo, não gostou muito da caxirola. Eles não ouviram p*¨%#$ nenhuma dos “sons da natureza e do mar” que o Brown disse. Ainda estavam com o zumbido da vuvuzela ecoando nos ouvidos, talvez. E avisaram: vai dar merda. Ninguém ouviu.

Nesse final de semana, Carlinhos Brown resolveu testar a caxirola. Esperava a primeira “ola sonora” – sim, ele disse isso, eu juro – da história. O que o Carlos Marrom não sabia, era que não se mexe com instrumentos tribais com toda uma bagagem cultural e religiosa sem que se conheça ou estude todos os simbolismos e efeitos que cada ritual pode provocar. O caxixi do Gugu veio incorporado por feitiços indígenas milenares e misteriosos, e os efeitos colaterais que ninguém conhecia deram as caras no primeiro teste:

O agitar das caxirolas provocou chuva.

O agitar das caxirolas provocou chuva.

Agora, ao que me consta, parece que a caxirola vai ser de fato proibida – para o pânico da Grow, que já devia ter encomendado pelo menos uns mil fardos em alguma fábrica obscura dos recôncavos da China. É uma pena, já que ao que se é dado em versão oficial, a caxirola viria exatamente pra simbolizar a diversidade cultural que todos nós, na visão dos gringos, amamos a exaustão (oh, estereótipos…). Se não a diversidade cultural da forma como ela é, aceitando as diferenças culturais entre os diferentes povos como patrimônios culturais intocáveis, ao menos essa versão pasteurizada, processada a 180°C, antisséptica e embalada em TetraPak.

Vivemos a era da pasteurização cultural, caro leitor. Chegamos num momento histórico em que, talvez só exemplificado quando do Descobrimento do Brasil, o mundo está com os olhos voltados para as ~terras tupiniquins~. Esses elementos precisam sim ser incorporados: vai vender camiseta, cartões postais, fotos no ~feice~ da gringaiada. Mas pra isso, todo um tratamento, uma photoshopada quase espiritual é necessária, pra ser agradável, digerível, e passar uma sensação de harmonia que, talvez, sequer exista. Pasteurizado. Enquanto se agita um chocalho plástico, o trato dado às minorias indígenas sequer chega no foco, entende? CDHM não importa: IMAGEM importa. E a coisa começa aqui, no nosso círculo, tentando convencer antes o “inimigo interno” sem identidade da incorporação desses elementos fakes da nossa ~uhuuul diversidaadzzZZzzZZzzZZZzzz~: não duvide! Basta ver como isso

… é bonito, é cool, é descolado enquanto isso

… é feio, “coisa de pobre”… “coisa de preto”. O de cima, para todos os efeitos, deve ser considerado “coisa de brown“, talvez?

Porque a cultura original é digna de provocar fugas maravilhosas de engravatados no Congresso Nacional, dá medo, relembra vergonhas. Índio bom é o do Gugu: esse sim, deve ser mostrado como ícone da nossa “aceitação das diferenças”. Engraçado como, paradoxalmente, tanta gente comenta por aí: “Índio na internet? Desde quando índio de verdade usa bermuda?”… até onde me consta – e eu posso estar redondamente enganado – o índio original usava palha e semente no caxixi…

O texto de hoje não é destinado à família de Victor Hugo Deppman, brutalmente assassinado aos 19 anos na porta de casa semana passada por um delinquente à beira da maioridade civil, em caso de grande repercussão midiática por esses dias, caro leitor. Não posso pedir a eles, num momento em que sequer me arrisco a dizer o que está se passando em suas mentes, em suas almas, que tenham a racionalidade para digerir as linhas que seguem. A eles, na verdade, me cabe apenas o respeito e a necessidade de compreender a revolta que, é natural e humano, seus pais amigos e familiares devem estar sentindo.

O texto de hoje, na verdade, é para você que, como eu, nunca passou por situação parecida (bato na madeira e levanto as mãos para os céus). Aliás, prefiro deixar adiantado: se para você o fato de eu ser alguém que nunca perdeu um ente querido por modos violentos me traz desmérito na discussão, peço por gentileza que feche esta aba do seu navegador. Finja que nunca esteve aqui, neste texto. Daqui, prometo que não te julgo: até acho (só acho) que te entendo. Aceite minhas desculpas e volte em breve, sim?

Veja também:

Era sexta feira, dia 12, naquele momento do dia em que o céu insiste em permanecer claro mesmo sem sol. Estava eu de frente a uma TV: passava o Brasil Urgente (outro nome que ficaria legal neste blog), de um José Luiz Datena, pra variar, revoltado. Era a repercussão do caso Victor Hugo Deppman, e a discussão sobre a maioridade criminal: a manchete era que o assassino do garoto completaria 18 anos apenas três dias após o crime, no entanto teria que ser julgado pela legislação vigente a menores de idade (de acordo com quando o crime foi cometido). Datena conversava ao telefone com um fonologicamente irreconhecível Zezé di Camargo, que disparava freneticamente uma sucessão infindável de clichês opinião pessoal sobre o caso – independentemente de qual relevância possa ter a opinião de um cantor sertanejo para a discussão da maioridade penal.

"Eu faço os maiores agudos do país, meus bíceps são bem trabalhados pra minha idade. Eu posso discutir complexidade social".

“Eu faço os maiores agudos do país, meus bíceps são bem trabalhados pra minha idade. Eu posso discutir complexidade social”.

O microfone foi aberto ao Zezé di Camargo, no melhor estilo “quando o cara é famoso tem propriedade pra falar sobre tudo” (mas qual teria sido a diferença se ele fosse dado a qualquer um de nós?). Confere aí, é sério!

Isso me leva, caro leitor, a evidenciar uma realidade que até então parece ofuscada da discussão sobre a tal redução da maioridade penal, sempre em voga em momentos de crimes brutais como esse cometidos por um menor de idade. Até que ponto nós, teoricamente “sociedade decente”, temos plena consciência da realidade daqueles que, a partir do momento em que cometem um erro fora da lei como é o caso, temos consciência de quem é esse público de “desintegrados sociais” os quais temos medo, os quais exigimos medidas drásticas?

Vamos começar por quem eles de fato são. Quem é o “garoto de 16 anos que sabe o que está fazendo”? Independente de discutirmos aqui a idade-corte para consciência ou não de seus atos, nota-se que, em sua grande maioria, o jovem que hoje integra a Fundação Casa (adoraria poder chamar de FEBEM, soa-me nos ouvidos como algo pouco mais próximo do que de fato é aquele lugar) vem de classes sociais inferiores, de famílias desestruturadas, em bairros suburbanos, com pouca ou nenhuma estrutura estatal que nós, daqui do nosso “lado”, entendemos como básicos para a sobrevivência: saneamento básico, luz, casa própria. O menino que “comete crimes bárbaros pra aproveitar da brecha da idade” foi a uma escola que, na verdade, tanto fazia que fosse ou não: não preparou-o pra absolutamente nada. Viu seu pai ou sua mãe (quase sempre apenas um deles) trabalhar o dia todo em troca de um salário bem apertado e com cada vez menos poder de consumo. Cresceu num ambiente em que uma pedra de crack é mais fácil de ser conseguida que um pacote de feijão de boa qualidade. Você pode conferir mais nesse excelente post que encontrei na net recentemente: foque-se nos dados apresentados, riquíssimos, e deixe a discussão de lado por um momento, sim?

Ele tem opção: ele tem internet.

Ele tem opção: ele tem internet.

O que chamo a atenção aqui, caro leitor, é que há ali uma realidade que, além de familiarmente desestruturada, carece fortemente de uma presença do Estado desde bem antes da “atrocidade cometida”: onde estão as escolas? Onde está o transporte público? onde está a oferta de emprego? E por que, afinal, exigimos agora que esse mesmo Estado ausente exerça um caráter punitivo, tome conta do “depois”, e não exigimos que haja um aporte preventivo sobre a vida desse menino-criminoso? Eu vejo o tanto que se discute sobre como ele será julgado, mas não vejo ninguém até então apontando o dedo nos motivos que fizeram esse menor de idade tornar-se um delinquente… será mesmo que mudar as leis no que compete as consequências dos atos, ajudará a amenizar as causas dos mesmos? Confesso, não sei se não teria os mesmos comportamentos que muitos jovens delinquentes apresentam hoje, caso minhas condições de vida desde minha infância fossem dessa forma cruéis. E você? Suponha pertencer a uma realidade sem figuras maternas ou paternas, sem instrução e sem perspectiva de vida, mas com as mesmas necessidades básicas e sociais que todo mundo por aí… consegue dizer com convicção que jamais seria um jovem criminoso?

Pois é.

Pois é.

Agora, por favor, retorne ao vídeo do Datena e do Zezé di Camargo… o ponto de vista deles corresponde perfeitamente ao julgamento que a maior parte da sociedade faz em momentos de escândalo como esse. Chama a atenção alguns trechos, de ambos os membros do diálogo, que quero, com sua permissão, destacar e analisar com cuidado. Posso?

“Está na hora de eu, você, seus colegas de televisão e os artistas fazerem um levante” (Zezé di Camargo)

Aparentemente, o famoso que tem propriedade pra falar sobre tudo também deve achar ter poder pra se manifestar sobre tudo. Opa, isso todo indivíduo tem, é fato, mas algo entre os “famosos” diz que quem tem voz apurada e dinheiro na conta tem mais influência. Não sei a parte da voz apurada, mas o resto… não discuto.

“Nossa constituição penal (??) foi feita em 1940, quando o moleque não tinha acesso à internet, quando se dava mais valor à vida, quando a morte não era banalizada, não tinha crime estampado na televisão, quando o moleque não sabia o que era crime (…)” (Zezé di Camargo)

Desconte o fato de que, ao jogar a tal “TV-Sangue” como uma das culpadas da tal “banalização da morte”, Zezé di Camargo sem querer acabou de denunciar o próprio Datena, até segunda ordem conhecido como um dos maiores paladinos do combate ao crime no Brasil. Deixe passar esse ato-falho (gargalhe com ele se quiser, no entanto). Desconte também o lance da “constituição penal”, que não existe. Repare, apenas, no fato de que Zezé di Camargo aponta o “moleque” como um ser único: toda criança é igual no Brasil de hoje, absorvendo o crime pela TV e tendo acesso frequente à internet. E que isso, por si só, garantiria a “integridade moral” do futuro possível delinquente juvenil.

“A Constituição tá sempre mudando em benefício deles [bandidos], e nunca em benefício da população” (Zezé di Camargo)

Ora, é simples. Se toda criança é igual, todo adulto portanto tenderá a crescer igual, certo? Todos dentro da tal “população”. Mas eu preciso perguntar, caro leitor: o que é “população” na concepção zezedicamargosiana? Se eles, os bandidos, não fazem parte da população, de que grupo multidimensional do cosmos eles fazem parte? Nossa maldita mania de achar que o criminoso é um ente desligado da sociedade, que me faz perguntar: se o criminoso é um ente desligado da sociedade, este desligamento se deu quando? A partir do momento em que cometeu seu crime? Ou já bem antes?

“Um dos princípios básicos de direito é você colocar medo em quem comete o crime. Esse é o princípio coercitivo da pena. Se você matar, estuprar, roubar, você vai pagar caro, e ficar na cadeia, e por muito tempo” (Datena)

Não sei, de verdade, mas me parece que, em síntese, todo mundo meio que sabe disso. Num país todo católico moralista como o Brasil, me recuso a acreditar que o criminoso – um ente destacado da população, lembra? – nasce sem essa capacidade de assimilação do fato de que um crime é passível de punição. O que me leva, evidentemente, a pensar: estaria Datena insinuando que o criminoso, portanto, é um criminoso por opção própria, aquela coisa de “índole maligna” que faz com que, por exemplo, o adolescente que matou Victor Deppman tenha intencionalmente pensado em pegar o celular, puxar o gatilho – e nesse caso em específico “sambar na cara” da sociedade, algo como “aháá, estou livre, faço niver essa semana”? Será mesmo uma discussão simples/simplista sobre índole?

“A aplicação da pena pressupõe a recuperação do réu. Que nada! Nesse Estado incompetente que temos o cara entra lá só pra se juntar ao PCC – e sair pior do que entrou” (Datena)

Aparentemente, a concepção de criminoso do nosso apresentador é a daquele sujeito irredutível na conduta do crime, que realmente sorri ao passar anos encarcerado. Como se a prisão brasileira fosse de fato esse paraíso em que “se come de graça às nossas custas” (oh, clichê). Como se a gente só precisasse de comida pra ser feliz na vida. Ou, evidente, como se todo criminoso fosse opcionalmente um criminoso: aparentemente seus problemas tem um cunho muito mais moral que social. Na “terra das oportunidades iguais para todos” que se supõe que o Datena acredita, o criminoso só o é por má índole. Sim, confirmamos a hipótese anterior.

“Quem criou o PCC não foi bandido, foi incompetência de gestão política” (Datena)

Parece que finalmente concordamos em algo, Sr. Datena. Estados paralelos surgem apenas onde o Estado majoritário não apareceu antes. E a gente já falou sobre isso por aqui.

“Você sabe quantas vezes os direitos humanos visitaram meu irmão quando ele foi sequestrado? Nenhuma!” (Zezé di Camargo)

Outra frase bastante difundida: o suposto “privilégio” que “os direitos humanos” prestam ao prisioneiro. Independente de qual o suporte dado ao irmão de Zezé di Camargo: o fato de ele não ter sido assistido, faz com que os prisioneiros serem assistidos pelos direitos humanos seja algo errado? O erro está na assistência ao prisioneiro ou na “não-assistência” à vítima? Uma coisa leva necessariamente a outra? Ora pois, prisioneiro não é humano, cabe recordar… e se duvida, é só prestar atenção na frase abaixo:

“Confundiram os direitos humanos com os direitos dos bandidos”. (Zezé di Camargo)

Pronto. E se eu ainda não te convenci, se você acha que ele ainda assim está falando em nome de uma população de verdade, preste atenção no que eu, simples blogueiro, considero a frase mais emblemática do diálogo todo:

“Eu tive a oportunidade de ficar uma semana nos Estados Unidos, e lá a gente ainda tem a oportunidade de poder andar com a capota do carro aberta” (Zezé di Camargo).

Victor Hugo Deppman morreu, caro leitor. Foi um crime hediondo, bárbaro, e que levantou discussões (boas, é verdade) sobre a maioridade penal: o criminoso completaria dezoito anos em alguns dias – o que, segundo a visão de alguns, “abriu margem” para que indiscriminadamente ele cometesse o crime em questão. De lá pra cá, eu já vi algumas dezenas de vezes: a cena do assassinato gravada pela câmera de segurança do condomínio, fotos do garoto sorrindo com os amigos, até um vídeo dele jogando video-game: “ele era um garoto bom, trabalhador, tinha seus hobbies, o que mais gostava era jogar video-game”. Mereceu até manifestação em seu nome carregado por balões brancos. E na Paulista ainda.

Enquanto isso, três ou quatro jovens são assassinados na periferia todas as semanas: viram notas de rodapé. Ou viram takes de alguns segundos no mesmo programa do Datena – e ninguém nunca vai saber quais eram seus hobbies. O que é ruim, talvez não só pela valorização da vida que esses jovens indubitavelmente também mereceriam, mas também pelo fato de que a estratégia parece não estar dando certo: ao mesmo tempo que essa galera toda é ignorada, pela mídia e pelo poder público, a tal “escalada de violência” que assusta quem não pode andar com a capota do carro aberta anda aí, aumentando a passos largos…

Ela concorda.

Ele também.

Ele também.

Ela então, nem se fale!

Ela então, nem se fale!

Eu sinto pela família de Victor Deppman. O Brasil sente pela família de Victor Deppman – e discute sobre a atrocidade cometida “por causa” da quase maioridade penal do assassino frio desse caso. Esse garoto tornou-se um “não-humano”, num ideário popular que desconsidera o fato que assim ele o é já há algum tempo, desde que nasceu, desde antes de seu crime. De forma alguma apoio o ato cometido por esse sujeito, mas penso ser a discussão bem maior do que o apresentado até então. Enquanto isso, continuemos não discutindo o que faz com que Zezé di Camargo tenha medo, revolte-se com os direitos humanos e com os “desintegrados da sociedade”, e por fim não possa andar, aqui no Brasil, com a capota de seu carro aberta:

“Será que eles [os políticos] não veem TV?” (Zezé di Camargo)

Zezé querido… eu até te respeito muito como cantor, mas sinceramente? Eu realmente espero que não.

Sim, ele representa.

O raciocínio de hoje é simples, caro leitor: prometo. E peço de ti também que me faça uma promessa: reflita sobre seus pensamentos, sobre suas opiniões, sobre seu papel na sociedade. Promete? Então vamos lá…

Tenho observado há um tempo as reações absortas, de pessoas e grupos bem/mal definidos da sociedade, sobre a posse do Pastor Marcos Feliciano, um dos deputados mais polêmicos da nossa Brasília, à presidência da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias (CDHM), sem que muito se compreenda sobre o que faz, afinal, um defenestrador nato de comentários racistas e homofóbicos numa entidade governamental que, via de regra, teria como pilar principal justamente o combate de pensamentos racistas, homofóbicos e em geral depreciadores das tais “minorias”, grupo que, ao menos em teoria, abarca negros, homossexuais, índios, quilombolas, praticantes de religiões de origem africana – toda essa gente, brasileiros como qualquer um de nós, grupos historicamente prostrados em posições sociais “inferiores” ao que aqui eu chamo de “O Brasileiro Perfeito”. bem aqui, no “país da diversidade – e de tantos clichês“.

Pastor, deputado, pop-star, rico, metrossexual, sexy-symbol e sabe-se Deus mais o que!

Nosso “O Brasileiro Perfeito”, por sua vez, você conhece: é aquele cara isento de quaisquer dos mais clamados preconceitos/pré-conceitos existentes na nossa sociedade – não negue amigo, eles existem e estão por aí. “O Brasileiro Perfeito” não tem cara, nem nome: tem características, e essas são, sim, bem-definidas: branco, homem, heterossexual, magro, cristão (antes era o católico, agora pode ser apenas o “cristão”), classe média. Acrescente aí uma dose de “comportamentos sociais bem vistos”, se quiser: o cara é casado, trabalha das sete as cinco, cria seus filhos dignamente e os manda pra catequese (está aplaudindo de pé o Papa Argentino – e seu discurso de superioridade masculina), assiste o Jornal Nacional e se sente bem informado por isso. Tem casa própria. Anda de trem e ônibus, sim, mas tem o sonho do “carro-zero”.

"Olha mãe, eu jogo água fora porque somos perfeitos!"

“Olha mãe, eu jogo água fora porque somos perfeitos!”

Você, leitor, você conhece esse cara. Você admira esse cara. E tenta ao máximo ser esse cara – confesse. E sabe quem é o maior representante desse cara? Sim, ele mesmo: Pastor Marcos Feliciano. Democraticamente eleito deputado, pelo maior colégio eleitoral do país – e isso certamente significa alguma coisa… Você se revolta, mas no fundo você o admira. Você quer ser como ele. Eu posso apostar contigo, caro leitor: você não se enquadra em todas as características que fazem o “O Brasileiro Perfeito” – veja bem, pra ser “O Brasileiro Perfeito” você tem que se enquadrar em toda a descrição – e em algum aspecto você seria supostamente defendido pela CDHM…

Mas não. Você foi historicamente condicionado a apertar as mãos na alça da bolsa quando vê um “negão mal encarado”, estou certo? Que importa o fato de sua avó, bisavó ou qualquer ancestral da sua família ter sido escravo? Sua pele é branca, e isso te faz ter medo do “negão”. Você se revolta com o fato de existir o Dia da Consciência Negra – “não existe o Dia da Consciência Branca, cadê?” – e simplesmente não entende todos os fatores históricos e sociais que fizeram/fazem com que ser negro seja ainda motivo de vergonha no Brasil – algo que o branquinho nunca jamais saberá. Amigo, desculpa ser eu a te falar, mas Marcos Feliciano te representa.

(apalpadinha no bolso da carteira...)

(apalpadinha no bolso da carteira…)

Você está acompanhando os fatos, pelo Jornal Nacional, sobre a desapropriação do Museu do Índio no Rio de Janeiro, e seu pensamento flutua entre “fodam-se os índios”, “índio é tudo vagabundo” e “e esses desocupados fazendo manifestação? Vão trabalhar, minha gente”. Você nem sabe (o JN não te falou sobre isso) que toda aquela área era reserva indígena antes de a urbanização do “O Brasileiro Perfeito” ter chegado. Você acha estranho andar de cocar na rua, dançar pedindo chuva e usar saia de palha. Sabe Deus se você teve um ancestral indígena – provavelmente teve – mas que importa? Desculpa cara, mas eu preciso te dizer: Marcos Feliciano te representa.

Pois é.

Pois é.

Você é contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Isso é uma “abominação social”, você diz. Lá no fundo, você tem nojo de gay: jamais vai esquecer o dia em que “um viadinho” te passou uma cantada, e você quase foi ignorante com o sujeito. Adotar crianças, então, nem pensar: “família tem que ter pai e mãe”, certo? E daí que você excluiu todos os milhões de brasileiros órfãos de pai ou mãe nessa sua frase? Ou, melhor ainda: “A Bíblia condena o homossexual, como pode afinal isso ser coisa de Deus?” – e já que você desconhece completamente o conceito de Estado Laico, concorda que a lei seja feita de acordo com a Bíblia. Exatamente o que pensa a bancada evangélica, da qual, orgulhosamente, Marcos Feliciano é parte.

Você chama, pejorativamente, seus amigos de “viado”. Volta e meia se depara, entre seus amigos na mesa do bar, com aquele comentário do tipo “acho que fulano queima a rosca, credo que absurdo” – e pondera todo e qualquer gesto ou comentário que possa fazer com que você seja o alvo dos “olha lá o viadinho” por parte de seus conhecidos… pouco importa, pra você, o fato de que individualmente a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo não alterará em absolutamente nada a sua vida, o seu cotidiano e seus dogmas religiosos seja lá quais eles forem… Mas você se opõe, afinal é “socialmente imoral” – independentemente do fato de você não saber exatamente como um casal gay fere a integridade da sociedade – e você se torna aqui o guardião da verdade e da moral brasileira. Só é valido que as leis sejam feitas e voltadas pensando única e exclusivamente nele/em você, nosso “O Brasileiro Perfeito”… Quer saber? Marcos Feliciano te representa.

"Você antes / você depois de chegar perto de mim e dar um sorrisinho oferecido"...

“Você antes / você depois de chegar perto de mim e dar um sorrisinho oferecido”…

De forma alguma, leitor, defendo a permanência desse crápula na presidência da CDHM. Acho, sim, um passo retrógrado na luta pela igualdade tão discursada nesse “país da diversidade que tudo aceita”, de “povo hospitaleiro alegre e feliz”, e tantos clichês e mais clichês que não passam disso e apenas isso: discursos. Discursos que encobrem uma realidade engessada na sociedade brasileira desde os tempos do descobrimento: “O Brasileiro Perfeito” é o cara, e apenas ele é digno do futuro. Mas de forma alguma, como uma partícula inserida nessa sociedade a qual (felizmente, amo o Brasil) pertenço, posso afirmar com tanto afinco que Marcos Feliciano não me representa. O que nos difere do Pastor Marcos Feliciano “O Brasileiro Perfeito”, em sua luta por seus cada vez maiores e exclusivos direitos, é o fato de este estar em um cargo público, que por definição deve defender todos os brasileiros independente de raça, sexo, sexualidade e religiosidade. Mas como pessoa, será mesmo ele tão diferente de cada um de nós?

Infelizmente, caro amigo, Marcos Feliciano é apenas um subproduto de um processo social, histórico e político que moldou a cara da nossa gente exatamente dessa forma: reconhecendo as diferenças como ameaças, não como uma entidade formada por indivíduos que, assim como eu e você, paga seus impostos e vota, o que o torna um brasileiro tão qualificado como nós mesmos. Atire-me na testa a primeira pedra quem se diz livre de todo e qualquer preconceito/pré-conceito. E de mãos abaixadas e atadas ao corpo (mas com esperanças que nossos filhos e netos possam me apedrejar), questionemos a legitimidade deste abominável senhor na presidência da CDHM: homem errado no cargo errado – e isso é de fato um retrocesso – mas homem certo quando nos é espelho. Sim, saio sem quaisquer machucados. E sim, ele nos representa.

Infelizmente.

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Veja também:

Não é mais um dia de congestionamento e interminável fila de caminhões desregulados na Marginal Tietê, daqueles que fazem o Aquecimento Global rir da sua cara nas três horas de engarrafamento entre as pontes do Piqueri e do Limão. Também não é mais um incêndio em galpão clandestino de muambas da 25 de março. Muito menos algum foco de incêndio em alguma boate irregular. Mas o Brasil volta seu olhar para a fumaça preta.

Habemus... cof... Habem... cof, cof,  cof, blergh!

Habemus… cof… Habem… cof, cof, cof, blergh!

Com a renúncia do Bentinho XVI, o mundo contempla a chance de, pela primeira vez na história, o Vaticano ter na maior cadeira um não-europeu para a chefia. E, dentre os potenciais a serem promovidos – muito embora se esforcem cada vez mais em dizer que isso é mais um “fardo” que uma “promoção” – o Brasil particularmente olha para Dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo. Na verdade, é o mundo quem olha pra Dom Odilo: o Brasil torce, é diferente. Tá todo mundo imaginando o Galvão Bueno gritando “É do Brasil” ao ver Dom Odilo de chapelão naquela sacada da Praça São Pedro. “Habemus Papam”, e começa o tema do Ayrton Senna, imagina só! Alguém aí prevê trocar a hóstia por um pão francês fresquinho? O vinho por uma bela caipirinha?

Eu, daqui, só fico torcendo pra que, caso a torcida uniformizada do Dom Odilo (pense num nome legal pra isso) encontre qualquer outra torcida por aí (também católicos, by the way), não haja violência. Que ninguém acenda nenhum sinalizador naval pra cima dos ganeses torcendo pro Papa Negro, ou pros gringos comedores de hambúrguers (hambúrgueres?) torcendo pro Papa Modernoso do Twitter… e se morre algum fiel? Roma vai punir o Brasil, dois meses de missas em Aparecida com as portas fechadas. A não ser, claro, que alguns poucos fiéis com muito tempo hábil tumultuem ainda mais o Judiciário Brasileiro atrás do “direito de ver a missa de Aparecida” – e por tabela, tornem-se os católicos mais almofadinhas da nação. Até que alguém apresente um coroinha-não-traumatizado ao Supremo Tribunal Vaticanês (Vaticanense? Vaticanano?): o menino é de menor, vai embora todo mundo e esquece o assunto!

Cara de santo disfarça a mochila com sinalizadores embaixo da batina

Cara de santo disfarça a mochila com sinalizadores embaixo da batina

Se Dom Odilo não for papa, aguarde a enxurrada de críticas. Como acontece com qualquer outro esportista: ouvirá em coro no caminho pra casa o famoso PI-PO-QUEI-RO! Especialmente quando o esporte não é o futebol. Perder pra Itália e o Arcebispo de Milão pode até ser compreensível, tem toda a tradição, não é time pequeno… mas o Brasil é o país do catolicismo, poxa! É a cereja que falta no bolo do nosso “Estado-Laico-só-que-não“! Perder pros Estados Unidos, onde bonito é ser protestante e o futebol é esporte de mulherzinha? Perder pra Gana, que ninguém nunca ouviu falar sobre a população católica e se surpreende só pelo fato de imaginar que lá existe uma população, quanto mais com religião? Alguém proteja Dom Odilo no aeroporto, por favor!

E se não for Dom Odilo, alguém arriscaria um novo nome pro Papa da Copa? Em redes sociais por aí, as piadas não param (eita, país católico!): Papa Nicolau, Papa Goku, Papa Tudo (esse é velho pacas!), Papa João de Santo Cristo, Papa Rapaparapatchibum… piadas ruins a parte, eu daqui tenho uma sugestão, e acredito ser a mais perfeita pra um papa brasileiro: Toninho do Diabo!

A capa já está até pronta, falta só trocar o chapéu!

A capa já está pronta, só o chapéu que não combina!

Por que o espanto, leitor? O Brasil é o novo líder mundial no que corresponde a “tratamento de choque” quando o assunto é poder, e tradição é tradição: Tiririca é da pasta da Educação, pastor homofóbico e racista lidera a CDHM, Blairo Maggi preside o Meio Ambiente e Renan Calheiros está há uns tempos na presidência do Senado. E isso porque eu nem contei a escola que emburrece

Educação, minha gente. Não foram poucas as vezes em que, aqui no BdQ ou em discussões pessoais, com alunos ou em rodas de bar, fui um entusiasta da ideia de que o estarte para qualquer (repito: QUAL-QUER) mudança social no Brasil é a melhora da educação no país. Quantas vezes soei repetitivo, quantas vezes desviei o assunto e me vi batendo sempre, sempre, SEM-PRE nessa mesma tecla. Perdi muitas discussões por vê-las cortadas ao meio, por gente que não entendeu meu ponto de vista. Também, ganhei muitos adeptos dessa teoria, gente que nunca havia parado pra pensar a respeito, e que me fez voltar pra casa com um sentimento de vitória – não por “ter ganhado” uma discussão, mas por estimular o senso crítico do meu interlocutor. De certa forma, talvez seja isso mesmo que eu e os outros loucos nos propusemos ao fundar este modesto blog – e por sinal, sinto-me seguro o suficiente para falar por todos: ficamos orgulhosíssimos todas as (poucas) vezes que tocamos o pensamento de alguém com essas mal escritas reflexões.

Pra mim, a ideia é bastante clara: é estimulando o pensar das coisas que criamos cidadãos mais conscientes, tanto na hora de perceber a sua realidade – o que é tarefa cotidiana, é fato – como na hora de usar o maior poder que o cidadão brasileiro tem de mostrar sua indignação e desejo de mudança para com as mazelas atuais, sejam elas quais forem: o voto, mesmo a eleição sendo todo esse circo que estamos acostumados, mesmo a eleição sendo esse festival de decepções de dois em dois anos. É importante, sim. E seria ainda mais importante se houvessem, diante das urnas, cidadãos de senso crítico formado, com opiniões bem fundadas – não no sentido acadêmico da coisa, mas do cotidiano mesmo. Todo mundo tem, em si, o potencial pra ser um grande pensador da sua própria realidade, um grande teórico do cotidiano, um potencial intelectual. E tudo isso passa, claro, pela educação.

Caro leitor: é na escola, pela figura sagrada e amplamente desvalorizada do professor, que se encontra o estopim para qualquer evolução – com ou sem aquele “R que muda tudo” antes da palavra. É na escola que se garante aquilo que a Constituição Brasileira de 1988 diz:

“A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.” (Constituição Federal, artigo 205)

E se você ainda tem alguma dúvida de que aqui estamos falando, sim, de formação do tal senso crítico que eu tanto martelo nessas linhas, saca só o que a Lei 9.394, ou Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 20 de dezembro de 1996, diz a respeito:

Art. 1º A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.

(…)

Art. 2º A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Art. 3º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:

I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;

II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber;

III – pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas;

Lindo né? Só que daí, nas andanças pelos jornais internet afora, a gente se depara com a tetéia abaixo, leia só:

Fonte: Revista Fórum. Link para a matéria: clique aqui

Fonte: Revista Fórum. Link para a matéria: clique aqui

Como educador que (também) sou, não poderia de forma alguma deixar de comentar tal atitude. Leu com carinho a notícia? Então vamos aos questionamentos:

  1. É fato, a gente sabe que português e matemática são grandes deficiências dos ingressantes do ensino fundamental. Mas será mesmo que apenas aumentando a quantidade de aulas dessas disciplinas a coisa realmente muda? Ou o problema está na qualidade das aulas, e em especial na capacitação, remuneração e incentivo ao professor? Quanto tempo faz que a tal Secretaria Estadual de Educação (queridíssima, só que não) não comenta algo a respeito?
  2. Ok, ao que tudo indica, essas matérias perdidas voltam na quarta série. Com que base um aluno de quarta série, que nos três primeiros anos viu somente português e matemática, vai se interessar pelo conhecimento de outras coisas que nunca viu e que não está acostumado na escola até então?
  3. “Tornar o currículo escolar mais atraente”. Leia de novo isso: mais atraente! De onde tiraram que as ciências humanas, físicas e biológicas não são atraentes? Ou, são menos atraentes que somar-subtrair-multiplicar-dividir? Qualquer (repito, de novo: QUAL-QUER) professor sabe, ou deveria saber, que fazer a aula “atraente” depende muito mais da didática do que do conteúdo em si. É possível fazer química orgânica atraente com uma aula bem dada! É possível fazer física quântica astronáutica atraente com uma aula divertida! Não é exatamente pra isso que serve a pedagogia e as diversas disciplinas sobre isso que existem no currículo acadêmico de qualquer futuro professor?
  4. Nossos amiguinhos da Secretaria Estadual de Educação (amo vocês, gente!) já ouviram falar de interdisciplinaridade? O currículo novo quer que o aluno saiba contar, ler e escrever. Até a quarta série, é apenas isso. Penso eu: sem as demais disciplinas obrigatórias, de ciências e humanidades, nossos aluninhos queridos vão contar o que? Escrever sobre o que? Talvez, seja contar quantas sílabas tem em “paralelepípedo”. Ou escrever redações e mais redações sobre as diferentes formas de “tirar a prova dos nove”… só se for, né gente?
  5. Que tipo de aluno a Secretaria Estadual de Educação pretende formar ampliando os conhecimentos de português e matemática e retirando conteúdos de “ciências físicas, biológicas, história e geografia”? Que o cara precisa disso pro mercado de trabalho a gente sabe, mas e pra aquele “exercício da cidadania”, ou pra aquele “aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber”?
Tá fácil não...

Tá fácil não…

Aproveite agora, caro leitor, que você ainda não chegou a ser formado por esse estupro disfarçado de novo currículo e responda as perguntas que seguem: faça o cabeçalho na folha de almaço, que é pra entregar pro professor na próxima aula, tá?

Vamos lá:

  1. Quais as melhores formas que um governo tem para garantir que seus futuros cidadãos não sejam pessoas com poder de questionamento (e assim, sejam menos observadores das falhas que uma determinada gestão pública tem)?
  2. A quem o tal “novo currículo” é “mais atraente”?
  3. Brasil do que?

Até amanhã, aluninhos! Recolho o dever de casa na entrada!

#tenso

Acredito não ser o único, nesse carnaval 2013, a ficar espantado com o samba-enredo da Grande Rio no desfile do Rio de Janeiro. Muito embora não é a primeira vez que vejo discussões políticas jogadas a esmo, realmente fiquei chocado, não esperava que um tema tão pesado como esse poderia, um dia, virar um samba-enredo – e, é claro, um samba-enredo que não discutiu ou explicou, mas mostrou uma opinião formada (e isso também não é novidade).

Super didático e auto-explicativo,, né?

Super didático e auto-explicativo, né?

Fato é que, se pra você foi um grande ponto de interrogação (é, eu sei), pra mim foi o estarte final pra escrever um texto que há tempos quero: o novo “12 perguntas” do BdQ hoje é sobre o Pré-Sal (e todas as discussões pertinentes sobre isso).

Veja também:

Aqui, vamos tentar entender simplificadamente que troço é esse afinal, e que raios é esse tal de royalty tanta gente discute. Tome um gole de café forte, respire fundo, deleite-se, e qualquer coisa grita aí nos comentários, a gente conversa!

1 – O que é o Pré-Sal?

Basicamente falando, é um reservatório natural de petróleo em subsolo marítimo, com algumas peculiaridades interessantes. Antes que discutamos cada uma delas, dá o play e entenda direitinho como esse troço se formou: certamente, o vídeo abaixo consegue ser bem mais didático do que eu seria batendo teclas. Não é preguiça, é mal de italiano professor que, as vezes, acha que não consegue explicar sem gesticular absurdamente até quase dar um tapa no aluno sem perceber usar de sofisticados recursos didáticos corporais, rs…

Ignore o comecinho ufanista e o final dramático, sim?

A primeira coisa bacana nessa história? Ok, vamos lá… todo mundo sabe, ou já ouviu falar, que o petróleo é um recurso natural que anda sendo cada vez mais escasso, e o motivo é simples: o troço demora milhões de anos pra se formar, e quase nada de tempo pra virar fumaça no escapamento do seu carro. Lógico, o negócio vai acabar antes que a natureza “faça mais petróleo” pra gente. E, ó que legal, justo quando todo mundo está preocupado com isso, o Brasil descobre para si uma das maiores fontes de dinheiro jazidas intocadas do mundo. Bacana, né? Só que tem algumas complicações, e a gente vai conversar sobre isso mais pra frente.

2 – Onde está o Pré-Sal?

Tá aí, outra forma bacanuda de a natureza ter sido #daora com a gente: as jazidas descobertas do Pré-Sal estendem-se por todo o litoral do Sudeste, além de dois estados do Sul. Exatamente onde mais se usa derivados de petróleo no Brasil, exatamente onde se encontra a maior capacidade informacional de gerenciamento desse troço todo. O que, na prática, significa uma coisa: poucos custos geográficos para extração, processamento e comercialização do petróleo. Coisa linda de Meu Deus!

Melhor é impossível. Só que...

Melhor é impossível. Só que…

3 – Mas se é assim, por que raios ainda não começamos a extrair e vender o petróleo? Bora ser rico, minha gente! 😛

Calma, criança. A natureza é legal, mas também tem seu lado troll. Aqui, na verdade, nós esbarramos no principal problema da extração do petróleo do Pré-Sal: se você assistiu o videozinho lá em cima com atenção, deve ter reparado que o locutor empolgado disse que já existe a tecnologia pra extrair esse petróleo, e isso é verdade. O que ele não disse é que, embora já temos como brincar de petroleiros da porta do inferno, extrair petróleo em tamanhas profundidades é extremamente caro, pesa muito no bolso!

Não entendeu por que? Pense na seguinte analogia: uma grande pilha de livros em cima da sua mesa. Os livros mais embaixo são os que primeiro foram ali colocados, certo? Agora, retire dois livros, um de cima e um que esteja lá embaixo, sem tirar os livros de cima da pilha. Em qual deles você teve mais trabalho? Pense nos livros como “camadas geológicas”, e o esforço feito em cada uma das cenas como “dificuldades-na-extração-barra-dinheiro-gasto-pra-isso”. Sacou agora?

Na próxima reclamação de sua mãe, diga que sua bagunça é "apenas mais um recurso didático", rs...

Na próxima reclamação de sua mãe, diga que sua bagunça é “apenas mais um recurso didático”, rs…

Meio que assim: o petróleo é abundante, de alta qualidade e pureza, no entanto é caro retirá-lo dali, e isso fatalmente faria com que o preço do petróleo do Pré-Sal fosse alto, e portanto pouco competitivo no mercado mundial, ainda dominado por grandes potências árabes e mais alguns gatos pingados espalhados por aí.

A boa notícia é que, dessa forma, as pesquisas sobre novas tecnologias de exploração de petróleo profundo estão bom-ban-do mundo afora, pelas mãos dos órgãos brasileiros e estrangeiros de pesquisa, estatais ou não. Assim que uma forma barata de extrair o Ouro Negro da Grande Rio for desenvolvida, a gente pode voltar a pensar na brincadeira, né?

4 – Epa epa, calma lá! Você disse “brasileiros e estrangeiros, estatais ou não”… esse troço é nosso ou não é, poxa?

Na verdade, a resposta mais óbvia pra essa pergunta é “sim e não”, e assim, não respondemos nada, rs…

Para que haja a exploração do Pré-Sal, o Governo Brasileiro criou uma nova empresa estatal, a PetroSal, cujo capital é aberto, exatamente como a Petrobrás que você conhece. Esse troço funciona da seguinte forma: o Governo é, e obrigatoriamente tem que ser sempre, sócio majoritário da empresa (aquele lance de ter 50% + 1 das ações, manjou?). Os outros “quase cinquenta”são formados por petroleiras estrangeiras de altíssimo gabarito internacional, de centros de pesquisa e tecnologia de deixar qualquer USP e UNICAMP parecendo uma pré-escola, todos embrenhados em pesquisas sérias, caras e compenetradas para que haja o barateamento da produção. Infelizmente, um mal necessário.

Em outras palavras, ainda é o Governo quem bota o porrete na mesa na hora das tomadas de decisão, e ainda é o maior beneficiado financeiro da extração do petróleo, e tal qual um acionista da empresa, receberá proporcionalmente a sua porcentagem nas ações, e isso ainda é um valor estupidamente alto, acredite. Mas não, não somos os únicos donos da coisa.

5 – Pode haver impactos da extração do petróleo do Pré-Sal?

Claro que sim, vários, inúmeros! Embora saibamos que esse dinheiro todo será muito bem vindo na sociedade brasileira, proporcionando avanços sociais e econômicos imensuráveis em todo o Brasil, estamos falando de uma atividade, a extração de petróleo em alto-mar, que por si só já é arriscada do ponto de vista ambiental, já vimos casos horríveis de impactos ambientais aqui mesmo no Brasil. Imagine, agora, o risco de uma extração em profundidades muito maiores, de um poço de tamanho nunca antes visto no Brasil, e usando tecnologias nunca antes testadas e aprovadas (hoje elas ainda nem existem, lembra?). Não tenha dúvidas, caro leitor: há um risco eminente de isso dar merda, sempre haverá.

Nem mesmo do ponto de vista humano estamos isentos de impactos negativos. O que acontece com as pesquisas em tecnologias sobre novas fontes de energia mais limpas e abundantes, mundialmente impulsionadas pela eminente escassez de petróleo no mundo, quando se injeta repentinamente mais um reservatório gi-gan-te de petróleo assim, do dia pra noite, na cara da sociedade? A escassez gera baixa oferta, que aumenta os preços e gera toda uma cultura de preservação, de busca por soluções mais ecológicas – desnecessário lembrar o altíssimo potencial poluidor da queima de combustíveis fósseis como o petróleo – e o que acontece com essa cultura gerada quando alguém diz “viu, era brincadeira, ainda temos petróleo pra caramba, gente”?

Ráá, zuei! :P

Ráá, zuei! 😛

6 – Han? Cultura?

Sim, cultura. Aquela coisa de “hábitos adquiridos”, sabe? Se não sabe, pare de encher o saco com essa implicância eterna de tantos posts atrás nessa coluna de “12 perguntas”, sim?

7 – Tá, e qual é a sacada dos tais “royalties” do Pré-Sal?

É chegada a hora: vamos ao samba-enredo da Grande Rio. Lembram que eu falei sobre a PetroSal, que o Governo Federal é detentor de mais da metade e que vai receber uma bolada com isso? Em tudo isso, repare por favor na palavra “Federal”: estamos, aqui, falando de Brasília, dos caras que legislam pelo Brasil todo, não somente por onde  existe Pré-Sal a ser explorado.

A proposta original, que visa atender igualmente o Brasil inteiro com os “benefícios financeiros” (leia-se: royalty), cada uma das unidades da Federação (leia-se: estados) recebendo igualmente o repasse da grana oriunda da PetroSal, e assim, gerar um desenvolvimento mais homogêneo para estados sabidamente mais carentes, distantes das áreas produtoras.

Acontece que, assim como os sambistas da Grande Rio, existem nos estados produtores (Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro – os dois últimos os principais – e Espírito Santo), aqueles que defendem a seguinte postura: “nós aqui é que estamos correndo mais riscos ambientais com a extração do Pré-Sal, nós aqui é que seremos mais prejudicados com os vários impactos de refinarias e mais refinarias em nossas praias, e nós aqui somos os estados com mais gente no Brasil todo. Portanto, nós aqui merecemos receber uma parcela maior que os demais estados, que não arcam custo algum e recebem dinheiro com isso… esses crápulas, aproveitadores, safados!” (a última frase foi só pra dramatizar mais a coisa, rs…).

E é assim, com esse pensamento, que estão rolando os dados políticos em Brasília, na Câmara e no Senado, para se decidir como será feito esse repasse, se igualitário para todos ou se com maiores royalties para os estados produtores.

8 – Uau, esse raciocínio faz sentido! Existe contra-argumento?

Existe sim, e também é dos bons. Curto e grosso: os estados produtores, nesse argumento pró-royalties maiores, esquecem de mencionar os diversos, inúmeros impactos positivos que a extração do Pré-Sal também trará para a região, independentemente da forma como o repasse será feito.

Aqui, amigo, estamos falando de uma ampliação natural de toda uma estrutura urbana, hoteleira, de transportes, de centros de pesquisa, de necessária modernização dos portos, atração de pessoas, de mão-de-obra qualificada e desqualificada, que por sua vez atrai todo um setor de comércio e serviços, que geram por si só o aumento da qualidade de vida do morador desses locais, além de aumentar a receita dos cofres públicos, dentre muitos e muitos outros efeitos benéficos, muitos dos quais o Governo não gastará um centavo sequer para implementação, boa parte partindo apenas da iniciativa privada, que verá na região toda uma possibilidade de negócios.  Isso sem falar do necessário aprimoramento das leis estaduais de preservação ambiental, um dos maiores gargalos da ecologia no Brasil.

Existe, claro, um risco eminente, de proporções inimagináveis caso aconteça alguma bosta, caro amigo. Mas também existe, sim, todo um círculo virtuoso, aquela coisa de “uma coisa puxa a outra que puxa a outra”, que surge com a exploração do Pré-Sal nos estados produtores. E veja: esses impactos positivos, embora menos visíveis, são praticamente certos, diferentemente de um risco ambiental, percebe a diferença? Agora, repense nos argumentos dados pelos estados produtores, e veja se ainda faz tanto sentido assim…

9 – Puxa, que impasse! E se a gente recorrer à Constituição e pronto?

Se recorrêssemos à bonita da Constituição Brasileira de 1988, sabe que resposta teríamos? Nenhuma. Sério!

A Constituição, em termos bacanudos e compreensíveis, diz apenas o seguinte: toda a riqueza encontrada no subsolo pertence à União. Em outras palavras: você que um dia espera achar petróleo no quintal, e assim ficar rico pro resto da vida, sinto desapontá-lo mas esse petróleo não será seu – e provavelmente você ainda perderá a sua casa a preço de banana. Assim, a bonitona de 88 só reafirma que “o petróleo do Pré-Sal é de Brasília”, coisa que você já sabia, mas nada diz sobre como Brasília repassará a coisa toda. É, não deu…

10 – Em que pé estão as discussões atualmente em Brasília?

Numa verdadeira encruzilhada. Olha só que cenário interessante: os estados produtores são cinco, certo? Numericamente isso não é nada, se comparado aos mais de vinte estados que temos. No entanto, são os estados mais populosos da nação, e isso é sim uma baita coincidência!

Em números: no Senado, no qual são eleitos três senadores por estado independente da população ou da riqueza, são 15 contra a rapa, e os produtores saem perdendo. Já na Câmara, onde o número de deputados de cada estado se dá pelo tamanho da população de cada um, ocorre o inverso: são 172 contra o resto dos 513 (sim, eu sei, numericamente ainda é uma derrota, mas esses caras são os mais ~influentes~ dentro da Câmara, justamente por representar os interesses dos “carros chefes” econômicos da nação).

Fato é: o Governo Federal prometeu retomar as discussões com todas as forças e de uma forma ou outra bater o martelo agora no começo de 2013, no entanto, com Santa Maria entre ano-novo e carnaval, as atenções se desviaram, e os debates não foram retomados. Aguardemos, cenas dos próximos capítulos muito em breve, leitor!

Daí você digita "racha em Brasília" no Google Imagens e aparece o Seu Madruga no Fast and Furious, kkkkkkk tosco!

Daí você digita “racha em Brasília” no Google Imagens e aparece o Seu Madruga no Fast and Furious, kkkkkkk tosco!

11 – E um plebiscito, resolve?

Tendo a achar que não, gafanhoto. E isso por vários motivos, o principal deles é: ninguém entende essa história, ninguém sabe o que é o Pré-Sal, ou como isso vai ou não afetar cada comunidade Brasil afora. Gente que não entende, você sabe, é um prato cheio pra eles, sempre eles, e assim, não é quem tem os melhores argumentos que ganha a discussão, mas sim quem tem mais $$ pra uma campanha mais legal. Basta ver o tamanho das “caras de interrogação” da galera quando a Grande Rio passou na Sapucaí dizendo aqueles versos lá do começo do texto. Na verdade, acho que apenas o “um grande rio de amor sou eu” foi plenamente entendido, e certamente com alguma conotação sensual…

12 – E o que afinal vai acontecer então?

Algumas coisas a gente já pode adiantar, como sempre. Muito tempo se discutindo, muitas reportagens em Jornal Nacional e no Fantástico, em paralelo com pesquisas intermináveis – não pelo ponto de vista da capacidade, mas pela parte do “barateamento”, sacou?

Agora, se a sua última pergunta foi sobre “quem vai ganhar a discussão”, aí amigo, eu me calo. Meus dons paranormais andam me falhando ultimamente. Chama a nossa “véia mais querida do BdQ” aí embaixo! Faz tempo que não a trazia por aqui! 😀

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PS: quem me conhece pessoalmente sabe que eu sou grande entusiasta de algumas causas e projetos que me envolvo, sendo o principal deles, claro, a ONG Cursinho Professor Chico Poço, que acabou de lançar, para 2013, a segunda edição do Projeto Adote um Aluno: ano passado, a boa vontade de pessoas querendo ajudar foi um grande incentivo para nossas atividades, e um valiosíssimo respaldo financeiro para que continuássemos trabalhando. Bora ajudar?

Clique na figura para conhecer o trabalho e se cadastrar. Valeu! :)

Clique na figura para conhecer o trabalho e se cadastrar. Valeu! 🙂

O show da vida, o show da morte

Eu poderia aqui, caro leitor, expor de diversas formas diferentes o mesmo raciocínio que quero desenvolver. Eu poderia fazer piada, fazer troça, e seria altamente criticado – não que eu me preocupe com isso, só que o clima não me permite. Eu poderia fazer as mesmas análises críticas de tantos canais de TV, mas seria chover no molhado: você já as viu. A terrível tragédia de Santa Maria, que enluta o país todo (ou não, como tentarei mostrar mais pra frente), faz pairar no ar um clima de respeito – não exatamente luto – que me faz, nesse caso como em raras vezes acontece, ir direto ao ponto. E o ponto é: você é hipócrita. Todos somos.

No texto anterior desse blog, fiz uma comparação do mais questionável entretenimento da televisão brasileira com eventos que agora ocorrem no centro de SP, e que já cansei de falar por aqui. Concluo hoje que –  você há de concordar – a vida é um Big Brother. A morte é um Big Brother. E a culpa não é exatamente da imprensa tendenciosa, apelativa, essa mesma que você – e eu – já cansou de criticar. Talvez, antes da imprensa ser tendenciosa e apelativa como irresistivelmente adoramos apontar, os veículos de mídia em massa são exímios observadores do público que atende, eu você e nós todos, e é exatamente por isso que os pais e mães de Santa Maria nesse exato momento não podem chorar sem a lente da Sônia Abrão apontada para seus rostos. É por isso que os mortos de Santa Maria não conseguem dormir em paz: porque é exatamente isso que nós queremos.

Sete anos atrás, este que vos escreve teve a oportunidade de conhecer um dos lugares mais intrigantes do Brasil: o Vale do Ribeira. Junto com colegas (que posteriormente tornaram-se grandes e ainda cultuados amigos), visitei uma pequena cidade do sul de São Paulo, atuando pelo Projeto Rondon, atividade do Ministério da Defesa que procura mandar universitários para os pontos mais isolados e menos desenvolvidos do Brasil. Tem aqui no BdQ um relato meu sobre essa inesquecível experiência, é só clicar aqui. Não que isso seja absolutamente coerente com a proposta desse texto, caro leitor, mas lembrei-me agora de uma das passagens mais marcantes dessa aventura: no centro da cidade, em frente à pracinha do coreto, um prédio com toda a cara de repartição pública, sabe-se lá Deus por que, emplacado “Terminal Turístico”. Lá dentro, seis computadores ligados no Programa AcessaSP, com a nobre finalidade de fornecer acesso à internet gratuita para todos. Era 2006, auge do finado orkut, o único site que, pra minha estranheza, não era aberto ou fechado quando da troca de usuário: apenas o logoff/login, em todas os seis monitores de tubo de telas constantemente rosas e azul bebê. Até lá, no fim do mundo…

O cotidiano é um show, caro leitor. E faz tempo. E isso independe da cor, raça, credo, condição social, vida ou morte. Por algum motivo que há muito – infrutiferamente – procuro entender, o povo brasileiro é o maior dos campeões dessa estranha espetacularização dos detalhes. O brasileiro é naturalmente um voyeur. A maior praga mundial das redes sociais. O único país em que o formato do reality show mais amado/odiado do planeta chegou em 2013 a incrível décima terceira edição, mesmo com todos os sazonais rumores de que a edição em voga “finalmente” será a derradeira – nunca é. O brasileiro acompanha cada detalhe da vida dos outros, na telona ou na telinha. E na telinha, ainda mais estranho, o brasileiro escancara a sua própria vida para o bel-prazer de voyeurs alheios, as vezes desconhecidos.

O brasileiro é naturalmente stalker. Na vida e na morte. E gosta disso. Discute isso, sempre com a profundidade de um pires, nas mesmas redes sociais em que uma, duas, três horas depois de publicar foto de seu novo batom, ou avisar a todos pra onde está indo ou o que está fazendo, critica “a graça do BBB” e a stalkerização de Santa Maria. Critica até mesmo as lágrimas da presidenta, a “hipócrita oportunista” do momento. Na busca por popularidade sem limites, cria as associações mais escabrosas e sem sentido algum entre tragédia e política, entre tragédia e as pequenas corrupções cotidianas, entre tragédia e luto – entre tragédia e hipocrisia. Não importa o argumento: se ele puder ao fim da sua pseudo-reflexão (em forma de texto ou charge ou figura) dizer que “esse é o país da Copa” – quase um meme já, a propósito – será curtido e compartilhado, gerará seus próprios “like and share”.

Entre luto e revolta, o mecanismo é o mesmo por sinal: até seu luto é público (existe luto público? Se é público, é luto?), e está ali para ser curtido, comentado, compartilhado. Tudo para que o interlocutor lembre-se daquele pequeno e singular “gerador de informação pessoal por detrás de um avatar” por um micro-instante ao longo do dia, e possa continuar colado em você como um estranho voyeur digital. Dez minutos depois: foto de biquinho, ou uma crítica ao BBB, ou uma lição de moral – “onde já se viu brincar com desgraça dos outros” – como se nada do que fizéssemos com nosso poder de produção de conteúdo na internet não fosse estúpida e ridiculamente frágil de questionamentos.

Quem precisa de uma imprensa tendenciosa e apelativa, quando nós mesmos somos tendenciosos, apelativos, e sutil-freneticamente ainda um tanto esquizofrênicos? A morte também virou um reality show, mas nem de longe somos isentos de culpa. A imprensa conhece seu público – e sabe que, no âmago da solidão da poltrona, cada telespectador está com os olhinhos absolutamente vidrados em cada cena que ele mesmo critica – pode confessar. Na bizarra cobertura da tragédia de Santa Maria, estaríamos cada um de nós fazendo um trabalho melhor do que essa imprensa nojenta que tanto odiamos? Acho que não. Os mortos de Santa Maria só descansarão quando um novo assunto aparecer – e não, não é culpa apenas da Sônia Abrão. Tudo o que hoje é motivo de “revolta e indignação” continuará exatamente igual. Pra você, crítico em luto, tudo estará bem: likes and shares em dia. Coisas do “País da Copa”.

Tra-di-ção, minha gente. Chegou janeiro, o jogo recomeça. Câmeras para todos os lados, tudo em HD, acompanhando passo a passo dos participantes, em eternos conflitos que só aumentam o ibope da coisa – e alguém, fatalmente, sempre sai lucrando com isso. Em síntese o jogo é o mesmo, mas algumas regras aqui e ali sempre mudam. Tudo para que, no fim, o jogo seja um sucesso. E parece, nunca é…

Começou ontem, oficialmente, a segunda edição do “joguinho de janeiro” preferido de São Paulo: a desintoxicação da Cracolândia. Bem vindos, caros amigos: esse é o Big Brother Bueiro, versão 2013!

E hoje é dia de festaaaaa!!!

E hoje é dia de festaaaaa!!!

Ver também:

A regrinha nova, que acabaram de inventar, é a de que o dependente químico largado em alguma viela ou sarjeta do centro de São Paulo não mais será internado e afastado das ruas apenas voluntariamente: agora, o Poder Público tem o poder da internação compulsória – se antes o participante só saía quando quisesse, agora ele está no constante paredão.

Fique abaixo com nossa apresentação dos nem um pouco novos brothers, e escolha a sua torcida! Aguardemos os próximos barracos, caro leitor: a única certeza desse empolgante jogo é que fortes emoções estão por vir!

#1 – Geraldinho

Quem é no programa: o Boninho da vida real. É o único que, aparentemente, tem o poder de mudar a regra do jogo, o que lhe dá um enorme poder de manipulação sobre os participantes da casa.

Ao que nos consta, todas as alterações de regra feitas pelo participante vieram com o intuito de melhorar a sua imagem, aos demais participantes e à audiência. E embora sempre existam aqueles que com razão desconfiam de suas atitudes no programa, suas táticas de convencimento da família brasileira estão sendo muito bem eficazes.

Chances de ganhar: bem altas. A exemplo da edição passada, se ele ameaçar perder, basta mudar a regra na próxima edição e pronto, certo?

#2 – Coxinha

Quem é no programa: não se engane pelo saboroso nome, caro leitor. Não há nada de gostoso aqui. Sabe aquele participante grosso, truculento, despreparado, que não terá controle de seus atos e certamente terá atitudes suspeitas ao longo de todo o programa? E que, láááá no fim, você se dá conta que na verdade o cara era apenas um fantoche na mão de outro brother, o verdadeiro cabeça? Pronto, é ele!

Só tem um problema. Veja abaixo…

Chances de ganhar: Coxinha não tem chances, infelizmente. E o motivo é bastante simples: além de ser o braço executor dos planos do principal articulador da casa, ele também é o laranja, o bode expiatório. Fatalmente, as atitudes do Coxinha serão questionadas, criticadas, até que sua reputação tenha caído vertiginosamente. Daí pra sair do jogo ganhando mal pra caramba sem ganhar nada…

#3 – Zé Luiz

Quem é no programa: o bordão maior desse aqui é: “o Brasil todo está vendo”. Em detalhes e HD, evidentemente. O problema é que o Brasil “está vendo” apenas o que este participante mostra, e é exatamente por isso que, junto com nosso primeiro competidor, Zé Luiz é um dos mais perigosos participantes. Entre discursos non-senses de fazer Pedro Bial ruborizar de vergonha, atitudes suspeitas que poucos tem coragem de apontar e apoios pra um ou outro competidor (nunca o certo), sobra a você, telespectador, a árdua tarefa de filtrar a verdade por trás dos olhos desse cara.

Em tempo: são vários os Zés Luizes, okay? Antes que digam “é perseguição, é perseguição”. Não acho que precisava ter comentado isso, mas vai que, né? Seus chatos…

Chances de ganhar: Sabe aquele competidor que chega longe, leva uma bolada, uma cacetada de prêmios, assim por diante? Talvez a única certeza desse programa é que Zé Luiz sempre ganha. E, claro, ele vai se empenhar muito nisso. Para o bem ou para o mal. Infelizmente.

#4 – Madre Tereza

Quem é no programa: vez em quando, Zé Luiz vai chegar e mostrar o duro cotidiano das Madres Terezas do programa. É aquele participante que até tem bom coração e quer ajudar, meter a cara na sujeira, de acordo com seus ideias e vivências do cotidiano e bla-bla-bla Whiskas Sachê. Mas, infelizmente, de tanto ser mal remunerado não ganhar nada em nenhuma porra de prova da comida, vai acabar desempenhando seu papel das formas mais “nas coxas” possíveis.

Detalhe: se você leu “nas coxas” e lembrou de nosso segundo brother,  faz todo o sentido! Esse BBB 2013 promete uma aproximação consolidada entre o Coxinha e nossa sister aqui.

Chances de ganhar: Ganhar? Ganhar o que? Só se for um salário digno. Aliás, se apenas puderem realizar seu trabalho sem muitas ameaças a prórpia segurança, já está bom demais…

#5 – Tiozinho Risca-Faca

Quem é no programa: sabe, caro leitor, a casa desse reality show não é um cenário montado: era antes a casa de alguém. Imagine a situação: alguém invade a sua casa, faz todo o barraco, você espera ganhar algo com isso, e o que já era ruim antes…

Chances de ganhar: baixas, bem baixas, e ainda por cima temporárias. A exemplo da edição anterior, os moradores e comerciantes da região da Cracolândia terão, nesse tempo de operação, um respiro. E, nesse momento, o Zé Luiz vai mostrar o Risca-Faca dizendo cosias do tipo “tínhamos medo, agora está tudo bem”, enfim. Ninguém garante, no entanto, que isso vai continuar depois da eliminação – provavelmente voluntaria – do brother Zé Luiz…

#6 – O Cara dos Cartazes

Quem é no programa: os subversivos do programa. Eles sempre aparecem, e você já os viu: uns caras com cartazes, contra as regras do programa e contra as atitudes dos brothers.

Chances de ganhar: ne-nhu-ma. No máximo meia dúzia de “curtir” no ~feice e o tio dizendo no churrasco da família: eu te vi na TV, menino. O Zé Luiz não perde seu tempo com isso. O Geraldinho não perde seu tempo com isso. E se encher muito o saco, ele ainda taca as artimanhas do brother Coxinha pra cima!

#7 – Zé Nóia

Quem é no programa: é, são eles, o The Walking Dead da vida real. Sempre com tarjas pretas, quadriculados e desfocados, evidentemente.

Chances de ganhar: segundo os especialistas, a chance do Zé Nóia ganhar com essa nova regra do Geraldinho é de apenas 2%. Dois-por-cen-to! E  apesar de tudo que o Coxinha faz, que o Zé Luiz mostra, que o Cara dos Cartazes grita, ainda se acredita que o programa vai dar certo!

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Não, nós não compraremos esse pay-per-view. O que não impede, claro, que não paguemos pra ver – em ambos os sentidos, caro leitor: também no literal. Quem, afinal, você acha que é o patrocinador desse reality?

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