Crônicas de um país sem sobrenome

Posts marcados ‘bancos’

É uma cilada Bino!

Meus prezados. Antes de tudo, peço licença para meus irmãos de Blog, Rafael e Ícaro, pois venho aqui exprimir um sentimento pessoal, que pode não ser compartilhado por eles, mas que pessoalmente acho que é legítmo.

Sou bancário e fiz somente um dia de greve nesse ano. Olhando hoje, talvez nem tivesse feito o primeiro dia.

Após pouco mais de uma semana, se encerra a greve dos bancários, com resultado de 7,5% de aumento em salário, sendo que a proposta inicial da minha instituição era de 6%. Históricos 25% de ganho, o que diriam os matemáticos de plantão. Com isso o sindicato prova numericamente a eficácia de sua luta no combate à opressão dos banqueiros.

Chega de Truques Sindicato!

Infelizmente esses 25% (1,5% a mais que a proposta inicial) para um escriturário em nível A1 de carreira, piso inicial da categoria portanto, representarão liquidamente pouco mais de R$21, em um salário líquido atual de R$1422. Muito pouco para uma pessoa recèm empossada em uma cidade com mais de 150.000 habitante, sem bens materiais, e que pretende se manter unica e exclusivamente com esse salário. Se é estudante e tem de viajar diariamente 120km até a faculdade, fecha zerado, se não negativamente.

Me enquadro nesse último caso, e há um bom tempo faço, diariamente, cerca de uma hora extra, que ao final de um mês trabalhado me acrescenta R$ 200 líquidos no salário.

A greve é tranquila (apesar do medo constante, por diversos motivos) até o momento da negociação final do acordo, onde anualmente, o sindicato sucessivamente têm aceito a “imposição” (?) de uma cláusula onde todos os funcionários que estiveram em greve se comprometem a pagar a mesma com horas extras sem remuneração, normalmente até o meio de dezembro, com compensação direta do tempo parado para estas horas extras.

Confuso? Bom, pensemos no atual caso, considerando que um funcionário entrou em greve na terça-feira passada e volta amanhã a trabalhar.

Ficou parado efetivamente 7 dias, e sendo um escriturário de 6h, 42h a pagar de greve. Normalmente se paga 50 minutos diários (os gerentes não deixam completar 1 hora completa, pois aí seria necessário dar 1h de almoço, ao invés dos terríveis 15 minutos aos quais os trabalhadores de 6 h tem direito),  resultando em pouco mais de 50 dias de cumprimento de horas extras sem remuneração. Distribuídos em 4,5 semanas que um mês possui em média, e 5 dias de trabalho semanais, são quase dois meses e meio se passando para esse pagamento.

Convertendo esses 50 dias de horas extras sem remuneração, em remuneração paga ao banco, afinal, esse perdeu dinheiro (?) no período, chegamos a uma devolução em torno de R$444,44 a serem pagos ao banco, ou a serem deixados de ganhar, pois o funcionário pode se negar a fazer horas extras, e tentar a sorte de não ter as horas não pagas descontadas de seu salário base.

Tudo isso para ganhar históricos R$21 de aumento mensal.

Reza a lenda que essas verdinhas dão um barato!

Para pagar isso, são necessários 21 meses de históricos R$21 mensais aumentados. Isso se você não emendar em outra greve, a Setembrina, anual amante dos Sindicatos, e aumentar a sua dívida com a banca.

Para os que pensam que considerei somente o dinheiro na minha decisão, há outros tópicos que podem ser citados (não entro em detalhes, isso não é um dossiê):

  • Assédio Moral (de alguns superiores quando em greve, de alguns colegas quando não estando em greve)
  • Falta de discussão das 7 e 8 horas (há lei específica que determina que trabalhadores do segmento financeiro não podem trabalhar mais que 6 horas diárias, e há processos questionando o aumento regularizado de jornada)
  • Falta de plano de carreira bem definido, em especial aos critérios de nomeação em promoção para bancos públicos
  • Efetivação de uma política de saúde pública para o setor, com ampliação do horário de almoço para os funcionários, além de controles para LER\DORT, Diabetes e Hipertensão

Infelizmente, fiz 1 dia de greve, e por conta disso, terei que pagar R$53 de volta ao banco, sendo que portanto somente sentirei os efeitos desse histórico ganho somente após 3 meses de trabalho. Ainda bem que percebi isso em um dia, senão vai que a Bina, a velha Setembrina, me pega novamente!

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