Crônicas de um país sem sobrenome

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O Manifesto e o Diálogo

Olá caro leitor imbuído de certezas petrificadas, condutas sacralizadas e convicções inabaláveis. Nesta breve introdução convido o interlocutor a uma árdua tarefa, repleta de intempéries, catarses e tremores em suas ideologias tão socialmente bem construídas. A tarefa consiste apenas em um passo básico: tomar conhecimento do diferente, do oposto, do contrário.

Acabo de ler a belíssima obra MANIFESTO DO NADA NA TERRA DO NUNCA, do sempre competentemente crítico Lobão, e me veio uma necessidade de escrever a respeito, primeiramente em repúdio às respostas oligofrênicas e escalafobéticas dos incautos não-leitores da obra, que se valem das únicas armas dos incapazes: a violência verbal e a desmoralização do autor, o taxando de drogado, decadente ou qualquer xingamento. Em segundo lugar este singelo texto procura dialogar com o próprio autor, exaltando o que, na minha concepção, são os pontos fortes da obra, mas também fazendo considerações que julgo importantes. Mas em momento algum colocarei em xeque o esforço intelectual do Lobão, pois considero seu Manifesto uma obra de extrema relevância sociológica, mesmo para os que não compartilham de suas opiniões.

E vivas ao Manifesto

E vivas ao Manifesto

Para entender o Manifesto é necessário ter algum conhecimento não tão superficial da trajetória musical e política de seu autor. O principal ataque dos idiotas detentores dos discursos alheios é de que Lobão se tornou um reacionário pró-ditadura. Isso é falta de leitura e conhecimento. A vida de Lobão é repleta de altos e baixos superados sem ajuda do Estado, sem lei Rouanet, apenas por sua genialidade de empreender o novo. Seus shows eram boicotados, sua plateia vítima de constrangimentos dos mais variados tipos. Tentaram impedi-lo de exercer seu trabalho, como se fosse um subversivo, um mal social. Era um perseguido político em plena era democrática. Frágil democracia. Mesmo assim prevaleceu e merece respeito por sua irrefutável capacidade inventiva e qualidade indiscutível como músico, compositor e escritor.

Agora vamos trabalhar a obra, mas sem polêmica, por favor. Vamos nos comportar civilizadamente e não como um bando de hienas procurando carniça onde não há. O livro é uma visão muito pessoal sobre os rumos da política, da sociedade e da classe artística brasileira. É uma viagem ao íntimo do pensamento do cidadão brasileiro e uma catarse contra a pasmaceira que nos rodeia. Portanto, mesmo se discorda, leia!

Lobão dedicou um capítulo a problematizar a dita Comissão da Verdade, sendo que está deveria se chamar Comissão da Meia Verdade, pois vitimiza os rebeldes e condena os militares do Estado. Ocorre que a própria Aliança Nacional Libertadora (ANL) cometia assassinatos,  justiçamentos de membros do grupo, assaltos, sequestros e, mesmo assim, não serão investigados, mas vitimizados e tratados como heróis que nunca foram de uma libertação que nunca ocorreu. Num mar de culpados a anistia irrestrita  não me soa como incoerente. Lobão não defende a ditadura, mas a coerência das atividades da Comissão, conforme o trecho a seguir:

“Os militares abusaram (e abusaram mesmo) do expediente de torturas e execuções dos guerrilheiros e de pessoas que nada tinham a ver com a guerrilha em questão, se aboletaram no poder, quebrando a promessa de devolvê-lo a um governo democrático, se afastando por completo da sociedade civil, cassando os principais líderes políticos da época, como Juscelino e Lacerda, e isso deve ser devidamente esclarecido. Mas nada justifica o acobertamento histórico de quaisquer outros fatos, independentemente do lado. É apenas a História do país que clama por ser contada de forma equânime, como assim exige qualquer espírito justo e democrático de um povo e de uma cultura.”

Nesse contexto da busca por culpados e vitimas, mocinhos e vilões, Lobão sinaliza que o governo brasileiro anseia formar uma nova aliança comunista para a América Latina, e essa é uma visão que particularmente discordo e entendo as relações do Brasil com Cuba não como uma tentativa da instauração de um governo ditatorial esquerdista condenador do lucro, das empresas e da iniciativa individual para a institucionalização latino americana do paternalismo, do Estado-babá etc. Encaro essa relação mais como uma política estratégica para quando Cuba abrir seu mercado ( que é questão de tempo). Um sinalizador importante para mostrar que o Brasil é um país capitalista integrado na dinâmica internacional é a nomeação de um brasileiro para o cargo mais importante do comércio internacional, a diretoria da OMC.

Da mesma forma vejo a aproximação do Brasil não somente com o Irã, mas com o oriente médio como um todo, como um importante passo nas relações diplomáticas e comerciais com os países árabes. É importante ressaltar que o comércio foi verdadeiramente fortalecido, visto que o último chefe de Estado brasileiro a visitar os países árabes antes do Lula foi o D. Pedro II. Também devemos reconhecer o trabalho da diplomacia brasileira, que nos últimos anos se consolidou como referência internacional pela qualidade de nossos diplomatas na mediação de conflitos fazendo com o que o Brasil dispute uma vaga no Conselho de Segurança da ONU. O impeditivo é relacionado a questões internas ao Brasil, como sistema prisional, muito bem descrito pelo Lobão, e pelo tratamento às cracolândias nas cidades brasileiras, em especial São Paulo.

Grande Lobo

Grande Lobo

Lobão, em seu manifesto, também demonstra seu descontentamento contundente com o ineficaz intervencionismo estatal na economia e nas normas de conduta social. Economicamente reforça a ideia da incompatibilidade da nossa carga tributária com os serviços prestados à população, em especial no tocante à educação, saúde e infraestrutura. E com razão! Mesmo com uma das maiores cargas tributárias do mundo, o Brasil acumula uma dívida pública  de quase 60% do PIB (O país emite títulos da dívida quando a arrecadação é menor que o gasto). A cobrança de impostos abusivos evita que as famílias tenham autonomia para escolher onde gastar seu dinheiro, fruto do seu trabalho. Há também a política de concessão de meia entrada em eventos culturais como forma de incentivo às pessoas de determinados segmentos sociais tenham acesso à cultura mais facilmente, no entanto isso não vem acompanhada com uma política de desoneração sobre quem presta o serviço.

Em relação à infraestrutura Lobão tece duras críticas ao estado deplorável das estradas federais, bem como à situação de descaso nas localidades mais afastadas do centro econômico. Leitores, compreendam uma coisa: RODOVIAS PAULISTAS NÃO REPRESENTAM O BRASIL. O caminho para sair do buraco é fazer concessões EFICIENTES, não BARATAS. Crucial é analisar a capacidade técnica das empresas que disputam os leilões das estradas. essa decisão evitaria que contratos fossem alterados, obras fossem paradas, serviços fossem de péssima qualidade e pedágios fossem incompatíveis com a qualidade oferecida. Mais importante que preço é qualidade.

Sobre a educação, Lobão afirma que há uma bancada para analisar a origem étnica do sujeito em detrimento do mérito, capacidade, ou dedicação e investimento em estudo básico com qualidade superior a das escolas públicas como forma de sanar uma dívida histórica, mas que só acentua reações extremistas, dos contrários e favoráveis. Bom, eu não vejo o sistema de cotas como uma forma de pagar dívida alguma, mas também acho que a forma de entrada nas universidades (via vestibular) não é uma forma eficiente de se medir conhecimento. Prova disso é que nem sempre as maiores notas do vestibular são os melhores alunos do curso. O bom desempenho no ensino médio não significa bom desempenho no ensino superior, e em algumas universidades alunos cotistas apresentam melhor aproveitamento que alunos que entraram pela concorrência ampla. Em momento algum defendo o sistema de cotas como um fim em si mesmo, é necessário ampliar a qualidade do ensino básico, mas não somente via construção de escolas e aumento salarial de professores. É sabido um dos responsáveis pela péssima qualidade do ensino básico público são daqueles alunos que depredam o patrimônio, que desrespeitam o professor, que tumultuam as aulas.

É importante também ressaltar que até 2003 o Brasil seguia a recomendação do Banco Mundial para  a não criação de universidades públicas no Brasil. Essa medida parece esdrúxula, mas tem uma lógica que infelizmente não se compatibiliza com a realidade brasileira: o Brasil deveria investir em edução BÁSICA  de extrema qualidade e deixar a educação superior na mão da iniciativa privada. Até 2003 o Brasil tentou fazer isso descentralizando a educação básica para estados e municípios (que categoricamente não fizeram seu trabalho eficientemente) e não criaram mais universidades públicas. Ocorre que o mercado brasileiro tende ao oligopólio, o que fomentou a formação de mercenários conglomerados educacionais gigantescos de qualidade pífia. A partir de 2003 o governo federal passou a criar novas universidades federais, destacadamente: Universidade Federal de São João del Rei, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e a Universidade Federal do ABC, sendo que esta última figura como a melhor universidade brasileira em impacto normalizado e excelência em pesquisa de sua produção científica, segundo ranking Scimago.

O último capítulo,  A UTOPIA ANTROPOFÁGICA REVISITADA — Carta aberta de Lobão a Oswald de Andrade, é uma dos textos mais bonitos e geniais que eu li nos últimos tempos. A forma afetuosa e até carinhosa como Lobão trata seu adversário ideológico deveria servir como diretriz das relações humanas, reconhecendo o outro como indivíduo e entrando no jogo democrático para entrar em contato com novas experiências de pensamento, e o reconhecimento de diferentes formas de ver o mundo, sem desqualificar o indivíduo, mesmo discordando de todo seu discurso. Mais que uma proposta de desconstrução do Manifesto Antropófago, Lobão apresenta com humor e irreverência suas idéias, de forma a não ofender, mas rebater amigavelmente os discursos sacralizados e cultuados e disseminados por rebentos sem linguagem própria.

O livro todo é permeado por essa aura idiossincrática e bem humorada do artista, contudo não pode cair no ostracismo de nossa curta memória social, tampouco ser solenemente ignorado por uma patrulha ideológica dominante. A relevância do Manifesto de Lobão é necessária e pertinente como um levante do indivíduo contra o sufocamento pela coletividade.

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