Crônicas de um país sem sobrenome

Duas notícias me chamam a atenção nesse dezoito de janeiro, caro leitor. E, embora possa não parecer logo de cara, ambas tem um grande nexo entre elas. A primeira, da querida (só que não) Folha de São Paulo:

Clique aqui para conferir a notícia

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Mas por que afinal tal notícia chamou a atenção desse blogueiro? Confesso que não sei, caro leitor. Provavelmente, meu impacto inicial deva ter sido pelo excesso de prefixos (PARA / TRI / atleta, ULTRA / maratona…) que me fizeram não entender de cara o que o jornal quis dizer. E de fato é uma história bem bacana, desse inglês que descobriu novos sentidos pra vida depois do acidente, essas coisas todas. Recomendo, amigo: sobe ali na legenda da foto e clica no link, relato bonito do rapaz.

Só que depois do impacto positivo inicial da matéria, peguei-me ao pensar… por que um atleta estrangeiro desconhecido vir para o Brasil, para participar de um evento esportivo tão desconhecido quanto, é motivo de notícia na Folha? Seria pela promoção do evento em si? Não parece. Seria para a promoção do triatlo em terras tupiniquins? Também não. E a resposta de minha dúvida se tornou evidente logo de cara, ali, no primeiro prefixo da primeira palavra!

Oh, por favor! Longe de mim querer dizer que um para-atleta (“paratleta”?) não merece destaque, por sua história toda de superação, por seu exemplo. Leia a matéria da Folha, amigo, a história do cara é realmente demais! O que me chama a atenção, nesse caso, foi a necessidade do jornalista em questão de destacar assim, logo de cara, o “diferencial” que o tal fulano de nome esquisito tem. Senti-me mal, constrangido de verdade ao ler novamente o título. A gente já conversou humoradamente por aqui sobre essa estranha mania de botar rótulos nas pessoas, e como isso gera preconceitos dos mais diversos, lembra?

O que me pergunto é: será que isso também acontece nos “rótulos do bem”, como parece esse caso? Rótulo é rótulo de qualquer jeito, ou em certos casos, como esse aí da Folha, isso se justifica? Um para-atleta (“paratleta”?) é de fato um cara diferenciado, mas na sociedade brasileira insistentemente arcaica e apontadora de rótulos, vários são as “diferenciações” que se insiste em fazer por aí. E, pior, na maioria das vezes ninguém nunca tem certeza se a “diferenciação” feita, o rótulo colocado, é bom ou ruim… Eu, na dúvida, sigo sempre esse exemplo (que tirei do excelente Objetivando Disponibilizar, outro blog que faço questão de sempre frisar: de ótima qualidade), dado na época da escrotíssima comparação que a VEJA fez entre gays e cabras (não, me recuso a linkar aquela pérola aqui, esse blog ainda tem pudor, meu caro):

O que me remete, imediatamente, à segunda notícia que me chamou a atenção, caro leitor. Lembra que eu disse que eram duas? Então, bota na mente essa nossa noia de rotulagens “do mal” e “do bem”, se apruma na cadeira e segura essa, do O Globo:

Clique aqui para ler a  matéria

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Precisa ler não: eu resumo. A Myrian Rios (atriz, apresentadora, missionária, ex-capa da Playboy e hoje deputada pelo RJ) resolveu que, abre aspas, “infelizmente, a sociedade de uma maneira geral vem cada dia mais se desvencilhando dos valores morais, sociais, éticos e espirituais (…) Sem esse tipo de valor, tudo é permitido, se perde o conceito do bom e ruim, do certo e errado. Perde-se o critério do que se pode e deve fazer ou o que não se pode”. E assim, ela criou (e o Sérgio Cabral aprovou) um tal de Programa de resgate de valores morais, sociais, éticos e espirituais.

Tanto genérico, não? Por enquanto, nenhum detalhe maior foi já divulgado pela imprensa ou pelo gabinete oficial da atriz-apresentadora-missionária-ex-capa-da-Playboy-e-deputada-carioca Myrian Rios, mas talvez uma coisa já pode-se antecipar: entre “ladrão e bicha e maconheiro”, enxurrada de rotulagens e escassez de definições, preparem-se para as previsões do tempo mais estranhas dos últimos dias, num país que tem como artigo primeiro de sua constituição que todos são iguais em direitos e deveres, num estado que tem em sua capital o principal pólo turístico gay do mundo. Talvez (por que não?) disfarçados de “rótulos do bem” (a-fro-des-cen-den-te), não é assim desde sempre? Mas você sabe, caro leitor, como isso tudo vai acabar…

E a propósito, o deputado Jean Wyllys se perguntou hoje cedo:

Clique aqui para acessar o perfil do deputado no microblog (acho legal chamar o Twitter assim, rs...)

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Pois é, deputado. Também gostaríamos de saber… Alô Playboy, vocês cogitam para breve uma edição geriátrica? Tem gente aí precisando do que fazer…

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Comentários em: "A moral, os bons costumes, os paratriatletas e as eternas manias" (2)

  1. andrecelarino disse:

    A myrian Rios e um paquiderme, mas ai voltamos aquela questao: ela foi eleita, muitas pessoas pensam Como ela ou nao tinham ideia de que ela pensava assim quando votaram nela. Tantas outras questoes urgentes pra se discutir e perde-se tempo com uma besteira dessas.

  2. Esses valores realmente precisam ser revistos pela sociedade como um todo.

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