Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para agosto, 2012

A roda da solidariedade: novas formas e velhos vícios

Qual é afinal a maior das qualidades do povo brasileiro? Seriam seus atributos físicos, tão cantados pelos versistas de séculos e séculos de mulatas de ancas largas e meninos do rio? Seria sua simpatia tão elogiada por tantos e todos os turistas gélidos que as vezes param por aqui?

Eu arrisco dizer que o que mais gosto no brasileiro é a sua solidariedade. Me encanta, de verdade, a paixão do brasileiro em ajudar o próximo. Entre McDia Feliz e Tele-Ton, cheios daqueles pôsteres de pessoas se abraçando e/ou aqueles bonecos de papel de mãos dadas, sempre estamos dando nosso jeito de ajudar. O brasileiro vai dormir feliz com isso. Não raro, em minhas aulas de geografia, vejo alunos explicando-me como uma das causas dos diversos problemas sociais brasileiros a falta de solidariedade, daquele tal de “ajudar o próximo”. Concorde, discorde: eu sempre acho engraçado e curiosíssimo quando deparo-me com tal resposta.

Longe de mim ser, aqui, um defenestrador de propaganda contra a solidariedade, caro leitor. Eu mesmo, como bem sabem, sou docente de um cursinho pré-vestibular comunitário, sem mensalidade. É minha forma de pagar meu dízimo, talvez. É minha forma de, minimamente, retribuir o favor que a sociedade me fez, ao custear meus estudos por longos sete anos numa das melhores universidades do país (minha mini-biografia está ali em cima no site, viu?). Sim, eu sei, o mérito também era meu, passei no vestibular e conservei minhas notas sempre altas, mas aquilo tudo tinha um gasto (que pra mim, foi aparentemente de graça). No entanto, acredito ser a hora de pensar no que há por detrás de nosso ímpeto solidário, pra ver que talvez, só talvez, estamos cada vez mais contribuindo para um cenário desigual que tende a se consolidar, paradoxalmente, quanto mais tranquilos dormimos com nossos “atos solidários”. Contribuímos, de certa forma, para as desigualdades que tanto queremos combater, caro leitor. E o motivo é bem simples, veja só:

Tudo começa quando, por algum motivo estritamente pessoal, ou por algum apelo emocional de alguma campanha publicitária (e como sempre, nunca duvide da habilidade deles, sempre deles), seu ímpeto de solidariedade envia para seu lado racional a seguinte mensagem: “eu preciso ajudar”. Em seguida, o “eu preciso ajudar” torna-se algo como “eu faço a minha parte / eu me mobilizo / eu combato“. E é a partir daqui que você tira suas noites tranquilas de sono após realizar as ações ou contribuições que a entidade escolhida por você recebeu.

Tudo certo até aqui, não fosse por um detalhe, o grande pulo do gato de toda essa história. Quando você “se mobiliza / faz sua parte / combate”, caro leitor, você automaticamente assume para si uma parte de uma responsabilidade que, em teoria, não é e nunca foi sua. Você contribui indiretamente para que haja um alívio de certas funções estatais que, caso fossem de fato bem executadas, não seria preciso sequer que houvessem quaisquer mobilizações sociais. Ao contribuir para uma ONG, ao fundar uma ONG, ao doar seu dinheiro ou seu trabalho para alguma dessas organizações, você assume um modelo de divisão de tarefas que nem de longe é o ideal: se o Estado não faz sua parte, a sociedade faz por ele. E o problema nisso está justamente no fato de que a parte social já está sendo feita 24 horas por dia, no pagamento de seus impostos e tributações que deveriam, em síntese, ser dirigido justamente para o combate das injustiças sociais. A parte estatal, por sua vez, não é feita nem quando há mobilização social para se criar uma ONG: quem já tentou sabe dos infindáveis trâmites burocráticos impostos…

Se ainda não te convenci, segue o segundo motivo pelo qual você, de fato, contribui para que a coisa continue da exata forma como ela está. O senso comum, aquele do discurso pronto padrão para qualquer ser humano, faz com que, ao se deparar com uma ação voluntária, o indivíduo tenha como pensamento básico o famigerado “prefiro me mexer a ficar parado e ver de camarote”. Correto, corretíssimo e aplaudível. O único cuidado que deve ser tomado aqui é o “eu faço a minha parte”, pois “fazer a sua parte” nesse caso implica em “fazer a parte de outro“, no caso, os órgãos públicos. É ótimo quando você pode doar uma cadeira de rodas a uma criança necessitada, mas se você já deu à criança necessitada sua cadeira de rodas, o SUS não precisa mais providenciar a necessidade básica dessa criança: já houve quem o fizesse. Você se acomoda, a criança se acomoda, a mãe da criança te agradece com lágrimas nos olhos e se acomoda. E o SUS sem lágrima alguma te agradece e, claro, se acomoda também. É louvável que o brasileiro queira fazer a sua parte e parta imediatamente pra necessidade mais básica daquele outro ser humano alvo de sua solidariedade, mas é sério mesmo que essa é a única forma de “não ficar parado e ver de camarote”?

Em outras palavras, caro leitor: ao contribuir para uma ONG, você combate duas vezes o mesmo problema, por duas frentes diferentes, e ineficiente em ambas. Desculpe seu eu a te dizer, mas mudar a vida de uma ou duas crianças com câncer pode ser extremamente gratificante do ponto de vista individual, e de fato é, mas nem de longe isso pode ser chamado de “combate às injustiças”. Portanto sim, amigo, você é duplamente ineficaz em sua solidariedade de travesseiro. Aliás, triplamente ineficaz: versemos aqui e agora sobre  uma aberração chamada solidariedade terceirizada. Você se solidariza por telefone: liga pra algum dos números do jingle grudento do Criança Esperança e faz sua doação.

Já reparou naquele “sua doação não pode ser usada para abatimento fiscal”? Isso acontece porque, na verdade, você não está doando para alguma instituição, mas sim para a própria Rede Globo, que pega seu montante doado e a partir disso distribui para as entidades atendidas. Ou seja: oficialmente, o doador que recebe o abatimento fiscal é a Rede Globo, não é você! E sim, você perdeu o abatimento fiscal. E a Rede Globo, que doa mais de um milhão de rais para o vencedor do BBB mas pede a sua doação para ajudar quem precisa, lucrou com a sua solidariedade. Tudo isso pelo simples fato de que você não se levanta do sofá para procurar em sua própria cidade alguma instituição que precise de ajuda. Isso se o seu dinheiro foi de fato doado. Quem há de saber? Quem confere? Acompanhe, caro amigo: você doou (você já doa sempre, lembra?), a Globo lucrou, a criança foi atendida, o Estado se omitiu. Dentre lucros e prejuízos, você foi o que se saiu pior em toda essa história. Mas está feliz com isso.

Devemos ser contra qualquer mobilização social solidária, portanto? Claro que não, caro leitor. Seria hipócrita, seria mesquinho, seria vil da minha parte dizer-te para abortar todos os seus planos de doação ou de caridade. É claro que isso faz sim a diferença para algumas pessoas, as que doam e as que recebem, e é claro que isso deve sim ser levado em conta. Eu realmente acredito que ainda é melhor que algo seja feito em duplicata do que nada ser feito, e isso é um fato. Deus abençoe aqueles que tem condições de ajudar ao próximo quando o Estado não o faz. Mas entendo que talvez, só talvez, os movimentos voluntários e caridosos Brasil afora, se executados por si só, apenas aumentam o tamanho do problema, quando assumem pra si parte do que deveria ser feito por outra entidade que já foi paga para isso. E para que isso não aconteça, penso eu que tais movimentos devem ser acompanhados sempre de movimento e engajamento político: fazer o trabalho do outro sim, mas cobrando do outro que faça também a parte que foi-lhe confiada. O trabalho das ONGs deve ser antes de mais nada um paliativo, provisório, um tampão: jamais deve-se perder o foco de quem, na verdade, tem a obrigação de cumprir aquele papel.

9 – Empunhar o megafone.

Prevejo um futuro em que, caso o brasileiro solidário e preguiçoso continue com sua apatia política de sempre (e eu incluo aqui a revolta virtual de figurinhas e compartilhamentos), mais e mais ONGs precisarão ser criadas. Isso é um círculo virtuoso ou vicioso afinal?

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PS: tá aqui uma chance perfeita de divulgar o trabalho social que eu, esperta ou  burramente, faço parte, a ONG Cursinho Professor Chico Poço. Eu sou um entusiasta da ideia de que a transformação social deve sempre começar pela educação (veja aqui como eu penso sobre isso), e assim, de acordo com os meus ideais, “faço a minha parte”. Você pode acessar o site e saber como ajudar: clique aqui, conheça o trabalho e vá até a logomarca do Projeto Adote um Aluno pra saber como ajudar.

PS (2): tive também o prazer de conhecer outra iniciativa super bacana, bastante semelhante ao Cursinho CP², em uma cidade também bastante próxima de onde resido: é o Cursinho CES, de Várzea Paulista. O trabalho dos caras é realmente fantástico, um show de como fazer muito com idéias simples e poucos recursos, atuando em várias frentes diferentes na preparação do jovem carente da cidade, daqueles trabalhos que dá gosto de ver e acompanhar e, como espero em breve, participar.

Por enquanto já me prontifiquei a dar aulas no CES assim que os caras precisarem, mas assim que eu descobrir outras formas de qualquer pessoa poder ajudar os caras, divulgo aqui no post imediatamente posterior a isso. Estou mesmo com vontade de me focar bastante nesse projeto. Clique aqui e conheça mais esse trabalho.

PS (3): continua com preguiça? Como eu disse, ainda prefiro que você faça em duplicata, dando lucros externalizados a quem quer que seja, mas que faça alguma coisa, caso tenha condições financeiras pra isso. Então, segue aí os telefones:

PS (4): Aliás, o Estado anda tão mal acostumado com o povo fazendo sempre seu próprio trabalho, que agora chegou ao supra-sumo do absurdo: o Comitê para a Copa do Mundo e sua campanha para trabalhadores voluntários. O voluntário assina o termo de compromisso, e sabe (veja bem: ele sabe!) que o trabalho consiste em vinte dias consecutivos em turnos de mais de 14 horas, sem direito a estadia paga – embora a FIFA diga que é “uma chance de intercâmbio regional brasileiro” sem explicar direito isso – e sem direito a qualquer tipo de remuneração. Ah, e sem poder assistir os jogos, nem de graça e nem pagando! Se isso não é o voluntariado burro, alguém me explique o que é então?

É, pode ser…

Sim, até onde está sendo divulgado, as inscrições estão desde meados da semana bom-ban-do pela internet: o brasileiro solidário e empolgado, ao que parece, não prima pela esperteza as vezes. Interessou? Clique aqui e faça a sua, mas não peça para que eu te considere um ser muito sagaz por isso…

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Utilidade pública: contextualizando sua revolta com os impostos

Bom dia, caros leitores.

Creio eu que todo mundo já passou por aquela situação embaraçosa de se espantar com o preço absurdo e ascendente de algum produto X que do dia pra noite passou a custar 2X, certo? Nunca dá pra saber se o aumento abusivo daquele troço veio da vontade homérica do dono do estabelecimento de lucrar em cima da tua cara, ou da absurda carga tributária do Brasil, o segundo país com maior arrecadação percentual de impostos no mundo, perdendo apenas pra Suécia (e, claro, com um serviço público que também perde pra Suécia, por uma diferença ligeiramente maior)…

Achei interessante compartilhar um infográfico bastante didático que o UOL fez sobre isso, explicando direitinho a origem de seus impostos, e o quanto é cobrado de cada produto que você cotidianamente se vê obrigado a comprar. Sério, vale a visita: CLIQUE AQUI e passeie sobre os menus interativos dos caras, realmente bem bacanas e, ao mesmo tempo, assustadores.

Após isso, se ainda sobrou aquela pergunta “mas que tanto imposto é esse afinal”, o Portal Tributário relaciona todos os impostos possíveis e imagináveis que você paga sem ver. CLIQUE AQUI e, se obviamente não ler toda a lista por falta de paciência, ao menos se assuste com o tamanho da barra de rolagem.

Pra que isso, autor? Por que esse post? Pra que, da próxima vez que alguém te disser “o Brasil não tem recursos pra fazer isso ou aquilo”, você possa simplesmente dar uma risadinha de leve e perguntar: será?

Abraços!

Os pesadelos de Rita Lee, ou: por que afinal queremos “tchu”?

Caro leitor. Quando se fala em música no Brasil, um fato é absolutamente inconteste: estamos numa fase negra da música popular brasileira. Digna de Rita Lee arrancar seus cabelos vermelhos. Se minha eterna diva do rock já o fazia lá na época em que os nomes famosos da música nacional ainda eram Caetano Veloso, Gal Costa e similares, imagine o que essa senhorinha paulistana deve estar pensando agora…

Rita Lee andou brigando recentemente com alguns ícones pseudo-musicais da atualidade. E isso você sabe. O que você não sabe, caro amigo, é que infelizmente Rita Lee estava errada. Essa fase negra da música popular brasileira fala muito mais do que suas letras sem sentido algum pretendem dizer. Obviamente, não falamos aqui da qualidade das músicas, mas da forma como TchuTchaTcha e TcheTcheReRe são perfeitas para a cara do Brasil. Quer ver? Pensemos juntos daqui pra frente então.

Remetemo-nos aos estranhos anos 60, caro amigo. Brasil engatinhando a passos ainda tímidos para um período tenebroso da história: a Ditadura Militar. E o que era a MPB? Músicas com letras bem trabalhadas, orquestradas, em vozes impecáveis. Aqui, falamos de Carmem Miranda como o ícone divertido e tropical da nação, e junto a ela seus companheiros musicais de sucessos incontáveis da já saudosa Jovem Guarda. Aqui, falamos da eloquente Tropicália, e suas canções de exaltação aos atributos naturais e humanos da nação – mas sempre com aquela inteligentemente velada referência de protesto. Geraldo Vandré tentou falar mais diretamente: viu seu cérebro virar omelete. Chico Buarque despontando como o maior compositor que o Brasil já viu (e tem quem diga que ainda o é, até hoje).

A coisa apertou na década de 70. AI-5 e outras perseguições políticas tão cotidianas quanto os atuais mensalões e afins. A MPB precisou parar com a inteligência do protesto. A MPB parou para imitar passarinhos e falar de amor. Quer saber o que foi isso? O vídeo abaixo vale muito o play, se nem tanto pela música (do meu ponto de vista super bem sacada), pela beleza da minha diva, lindíssima:

Salto no tempo. Final da década de 80. Brasil democratizado (se é que isso de fato aconteceu), povo com relativa liberdade de expressão. O Novo Brasil é um país com tantos costumes do antigo regime, que era necessário criar pensamento crítico. Embalados por um poder popular que democratizou a nação no incrível Diretas Já, a música brasileira, nas guitarras do rock, se incumbiu de criticar o ranço trazido dos anos anteriores.

Leu direitinho esse retrospecto? Definamos juntos agora um marco para o começo da esculhambação da música popular brasileira, caro leitor. Permita-me: 1995. O ano em que o Brasil ganhou, pela primeira vez, uma moeda forte e sem trocentos zeros. O ano em que o brasileiro passou a não ver mais seu salário terminar o mês valendo metade do que valia um mês antes. Não que a distribuição dessa renda fosse algo primoroso, e ainda não o é, mas ao menos o cidadão comum já podia ter tranquilamente uma televisão em casa.

E aqui apontamos a grande vilã da degringolação da música nacional: a TV. Deixando de ser um artigo de luxo, a caixinha mágica passou a figurar na casa de todo e qualquer brasileiro, independente de sua classe social. E portanto, a música não era mais absorvida pelo expectador somente pelos ouvidos. A partir daqui, a música brasileira ganha duas características fundamentais:

  • a música agora é visual,
  • a música agora é absorvida por todas as classes sociais.

Comandadas pela programação dominical (algo que ainda não mudou desde então é que o domingo é o único dia em que o brasileiro vê TV) de banheiras do Gugu e Domingão do Faustão, explode o início do terror musical nacional: o axé. Essa é outra coisa que ainda não mudou, caro amigo: a TV como formadora de opinião. E nada melhor que chamar a sua atenção que mulheres na TV.

… algo tão inédito na história que até o mega-hair da Carla Perez era “lindo”.

Do axé na TV ao funk na TV foi um pulo, mas um pé no breque foi necessário. O poder econômico do cidadão comum cresceu até um momento em que ele tinha agora em mãos a internet pra ver detalhes ainda mais íntimos da anatomia feminina, e que a TV nunca poderá exibir em horário nobre. Sexualizar a música deixou de ser bom negócio, exatamente numa etapa da música em que a coisa estava beirando o absurdo. Precisava-se, agora, de um ritmo e um estilo musical que aliasse ao mesmo tempo aqueles lances todos de amor (hit eterno de toda e qualquer música em todos os tempos e em todos os cantos do mundo), mas com uma pitada de erotismo e diversão que o brasileiro gostou de ver. E foi assim que surgiu em primeiro momento o forró universitário, e hoje ele, o temível sertanejo universitário, com todas esses sons sem sentido de quem morre de preguiça de rimar. E foi exatamente assim que TcheTcheReRe e TchuTchaTcha chegaram onde chegaram.

Tem sentido? É, eu sei que não. Algum fator X ainda faz falta nesse texto. A explanação toda que foi dada é um típico caso de “explica mas não justifica”, e do jeito que o tema foi abordado, dá a impressão que a culpa pela degringolação toda da música brasileira se deu quando ela saiu das elites e atingiu os pobres. Sabe o pior, caro leitor? É exatamente isso! E antes que você me chame de elitista ou preconceituoso, aqui explico os dois porquês:

→ Motivo 1: politicamente, o Brasil entrou num período de relativa “calmaria”. Após o Diretas Já, não houve um só movimento legitimamente popular que tivesse algum reflexo na música brasileira, e como a gente sabe de antemão, o brasileiro parece cada vez menos afoito a manifestações de cunho social, o que enterra ainda mais nossa música no ostracismo do amor/sexo/erotismo/passarinhos.

→ Motivo 2: a democratização da TV, que como vimos é resultado da valorização da moeda nacional e da recente e ainda tímida redistribuição de renda, não foi em momento algum acompanhada da DEMOCRATIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO (“alô alô marciano”, a palavra chave disso tudo chegou). O brasileiro ganhou condições financeiras de viver dignamente, mas continua mal instruído. Sem uma boa base de ciências sociais, o brasileiro não tem embasamento para identificar seus problemas sociais e assim, talvez, usar a música como ferramenta de protesto como se fazia até os anos 80 e Legião Urbana, quando o público era mais selecionado não só do ponto de vista financeiro mas também educacional!

E digo mais: sem noções de interpretação de texto, qualquer letra mais inteligente que “TcheTcheReRe” é incompreensível, de difícil digestão, com maiores chances de fracasso nas vendas – e até onde se saiba o artista, claro, também quer lucrar com sua criação, é seu direito! E é assim que, por fim, pode-se afirmar: essa fase negra da música popular brasileira é SIM a cara da sociedade brasileira: com poder econômico mas sem profundidade! Quem pode julgar os novos milionários da música nacional, se eles dão ao povo exatamente a música que o povo consegue absorver? Você pode questionar a qualidade do som, mas nunca deixe de analisar o público que pede por esse som. Você pode dizer que LeReRe LaRaRa é coisa de pobre, mas a partir de agora, saiba de antemão que a culpa de você ouvir tanta asneira auditiva não é exatamente do pobre…

Tá, e o que nos reserva o futuro da música popular brasileira? – deve estar se perguntando Rita Lee. Confesso que não sei, mas posso apontar com significativa segurança que, enquanto não houver melhorias no sistema educacional como um todo, desde a preparação e remuneração de professores até a acessibilidade para todos, mais TcheTcheReRes e TchuTchaTchas virão. Nem tudo são flores no Brasil: se a distribuição de renda é algo fantástico para a nossa sociedade (e é, que ninguém nunca duvide), TchuTchaTcha é um efeito colateral de algo que foi feito pela metade, sem atenção – oh, novidade – para o bem-estar social. Portanto se preparem, caros amigos: você pode não gostar, você pode concordar com Rita Lee e dizer que tudo é um lixo. Mas infelizmente, pra seu (nosso) azar, o brasileiro ainda quererá muito Tchu. O cara do Meteoro da Paixão até já figurou entre os 100 maiores brasileiros de todos os tempos (??) – Outro assunto, outro post. Ou não.

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PS: desculpem caros leitores, foi impossível não lembrar, no meio de toda essa discussão, de uma “canção” específica: um axé social! Lembra?

Tá, nem tão social, mas vale a intenção (se é que tinha alguma intenção…)

PS(2): é regra por aqui: eu não falo de música sem falar do Coletivo Garagem Aberta, iniciativa de alguns amigos para promover as atividades culturais da cidade de Jundiaí, dos artistas independentes que, contra a tendência louca do TchuTchaTcha televisivo, preferem fazer música de qualidade. Não conhece? Clica aqui, vale a pena.

PS(3): ando vendo muita gente por aí refletindo sobre as Olimpíadas e sobre a possibilidade de “Eu Quero Tchu” abrir os jogos olímpicos de 2016. Relaxem, caros amigos! Uma coisa é o que o governo faz com a gente, outra é o que o governo quer mostrar lá fora que faz com a gente. Infundado, infundado!

PS(4): sim, eu sei, “Aluga-se” é do Raul. Peguei apenas a versão que ficou mais famosa vários anos mais tarde.

PS(5): sim, eu sou apaixonado pela Rita Lee: quando ela lançou a música que está nesse post, evidentemente caçou encrenca com um punhado de gente. Só que, ao invés de voltar atrás como muita gente da modinha faz hoje em dia, ela fez isso aí embaixo:

Agora diga, caro leitor: ela é ou não é fantástica?

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